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Correio Braziliense

Conheça algumas apostas da ciência para frear o avanço do coronavírus

Pesquisadores dedicam-se a três grupos de abordagens contra o Sars-Cov-2: criação de vacinas, uso de medicamentos já prescritos para outras doenças e desenvolvimento de substâncias a partir de anticorpos de quem se curou da Covid-19


postado em 29/03/2020 07:00

Ao menos 20 projetos buscam uma fórmula protetiva: previsão de resultados em 2021(foto: Thibault Savary/AFP)
Ao menos 20 projetos buscam uma fórmula protetiva: previsão de resultados em 2021 (foto: Thibault Savary/AFP)
Desenvolver medicamentos é uma tarefa difícil. A realização de testes em laboratório com células in vitro, animais, e, só depois, humanos faz com que esse processo seja também bastante demorado. Diante do avanço da Covid-19, porém, o tempo se tornou ainda mais valioso. Na tentativa de encurtá-lo ou usá-lo da melhor forma possível, cientistas têm unido esforços em três frentes principais de investigação: uso de remédios já prescritos para outras doenças, análise de anticorpos presentes no sangue de infectados e criação de vacinas. Especialistas ressaltam que a urgência exige um trabalho mais rápido, mas destacam que todo o cuidado é necessário para que as abordagens propostas não atrapalhem ainda mais o combate à pandemia.

Um dos projetos em andamento aposta no uso combinado de duas drogas anti-HIV: lopinavir e ritonavir. Esse coquetel foi testado na China, mas com resultados que podem ter sido mitigados porque muitos pacientes “foram incluídos tardiamente no experimento, até mesmo depois do 10º dia da infecção”, segundo Bruno Lina, professor de virologia no Hospital Civils de Lyon, na França.

Bruno Lina e outros cientistas fazem parte da pesquisa Discovery, que busca drogas para combater o Sars-Cov-2. O projeto, fruto de parceria com outros investigadores europeus, tem resultados positivos no uso das duas drogas contra o novo coronavírus. “Trata-se da ‘reciclagem’ de um medicamento contra o HIV para bloquear a reprodução do vírus. Percebemos que, no tubo de ensaio, ela funciona”, conta o pesquisador francês.

O Discovery está, agora, na fase de testes clínicos e pretende contar com 3,2 mil voluntários de vários países do continente — Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Holanda, Luxemburgo e Reino Unido. Além das drogas de combate ao HIV, os cientistas testarão o efeito do remdesivir, um antiviral usado para combater o ebola, e da cloroquina, indicada para o  tratamento da malária. O segundo medicamento mostrou-se promissor contra a Covid-19 em outros estudos científicos e tem causado polêmica devido à liberação de uso, pelo governo brasileiro, para pessoas em estado grave.

A primeira etapa de testes clínicos de Discovery teve início, semana passada, na França, onde os quatro medicamentos serão aplicados em 800 pacientes. “O tratamento começou rapidamente para essas pessoas, uma vez que os prazos parecem ser um fator importante nessa doença”, frisa Florence Ader, infectologista no Hospital Civils de Lyon e uma das líderes da pesquisa.

Segundo a cientista, no momento em que uma substância apresentar “superioridade no tratamento”, será possível propor o seu uso aos órgãos reguladores. “O tratamento poderá, então, ser liberado muito rapidamente, levando em conta que estamos em situação de carência terapêutica”, complementa. Mas Florence Ader pede cautela, já que “ainda não se conhecem os efeitos desses tratamentos”.

Cautela

Natália Pasternak, bióloga e criadora do Instituto Questão de Ciência, em São Paulo, explica por que a busca por medicamentos prescritos para outras enfermidades reduz bastante o tempo gasto no desenvolvimento de um tratamento para a Covid-19. “Por estarem no mercado, essas moléculas já passaram por um teste de segurança e toxicidade. Isso faz com que consigamos queimar etapas, algo extremamente valioso na situação atual, em que temos urgência”, diz.

Pasternak também ressalta que a economia de tempo é um fator importante no momento, mas que pode gerar danos. Por isso, a importância no cuidado com os resultados dos trabalhos em condução, como no caso da cloroquina. “O estudo feito com essa droga que mais tomou proporções foi feito por franceses e teve alguns erros. Os pesquisadores ignoraram os pacientes que não responderam bem ao uso do medicamento, inclusive um deles desistiu de continuar devido aos efeitos adversos”, detalha a especialista.

A bióloga destaca que a prudência pode evitar problemas graves. “Isso é muito importante de ser considerado, pois a maioria dos casos dessa doença se resolve com o tratamento dos sintomas e suporte respiratório. Ao usar uma droga dessas, você pode gerar efeitos adversos e piorar a situação do paciente”, completa.

Alexandre Cunha, infectologista e presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal (DF), também enfatiza que os medicamentos em teste precisam passar pela validação em todas as etapas padrão antes de serem prescritos. “Esse ‘todo mundo está usando’ é muito fruto da nossa necessidade, como médicos, de sentir que precisamos fazer algo. Nós, que estamos acostumados a sempre intervir, estamos diante de uma situação em que só observamos, e isso nos causa muito desconforto. Mas, às vezes, ‘não fazer nada’ já é fazer muito”, opina. “A nossa necessidade de achar que temos que dar remédio mesmo sem comprovação pode fazer com que pessoas usem, sem poder, cloroquina, imunoglobulina, além de antibióticos e tudo mais”, alerta.

O médico lembra que os estudos com plasma, que tem sido testado nos Estados Unidos, também apresentam riscos. A estratégia consiste em usar anticorpos produzidos por pessoas que foram infectadas pelo Sars-Cov-2 e se recuperaram da doença. “Na década de 1980, achavam que essa alternativa era segura, mas não se sabia que problemas como a hepatite C e o HIV poderiam ser transmitidos pelo sangue, e muitas complicações ocorreram. Neste caso, também não temos certeza, e podemos nos deparar com outras dificuldades devido a essas dúvidas”, frisa.


Os desafios da imunização

Enquanto muitos cientistas buscam medicamentos para tratar a Covid-19, outra parte de especialistas enfrenta um desafio ainda maior e mais demorado: a criação de vacinas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no fim do mês passado, mais de 20 vacinas para combater a pandemia estavam em desenvolvimento, em iniciativas de faculdades, centros de pesquisa e empresas farmacêuticas.
Uma das mais avançadas é norte-americana. No último dia 17, cientistas do Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês) anunciaram o início da primeira fase de estudos clínicos com uma fórmula protetiva. O trabalho envolve 45 voluntários com idade entre 18 e 55 anos. “Os cientistas estavam trabalhando em uma investigação de uma vacina contra a Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio), o que trouxe uma vantagem no desenvolvimento da vacina contra a Covid-19”, destaca a equipe, em comunicado. A imunização mostrou-se eficiente em animais e precisa passar por outras duas fases de exames clínicos.

Brasileiros também enfrentam esse desafio. Pesquisadores do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, usam a mesma tecnologia dos americanos: uma plataforma tecnológica que produz moléculas sintéticas de RNA mensageiro, que instruem a produção de proteínas reconhecíveis pelo sistema imune. A ideia é que a defesa do corpo da pessoa infectada reconheça as proteínas artificiais para, depois, identificar e combater o vírus real.  “Acreditamos que a estratégia é muito promissora e poderá induzir uma resposta imunológica melhor do que a de outras propostas”, afirma Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do InCor e coordenador do projeto, em comunicado à Agência Fapesp de notícias.

Testes longos

Flávio Guimarães da Fonseca, virologista do Centro de Tecnologia de Vacinas (CT Vacinas) e pesquisador do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que as fórmulas para imunização  demoram a ser desenvolvidas devido a todo o processo de testes. Porém, segundo o especialista, a grande quantidade de grupos empenhados em pesquisa e o uso de estratégias distintas poderão agilizar esse processo.


“Muitas linhas de estudo têm sido realizadas. Aqui na UFMG, estamos explorando a mesma abordagem feita para a vacina da dengue. Nela, pegamos um vírus mais parecido com o estudado e buscamos anticorpos que respondem de forma semelhante. Usamos o vírus da influenza, que causa a gripe normal, devido a suas semelhanças com o da Covid-19”, explica.


O virologista ressalta que, mesmo com o empenho mundial, uma vacina provavelmente surgirá apenas em 2021. “É uma batalha demorada, pois usar uma fórmula em toda a população que proteja de determinada doença exige alto nível de segurança. Ainda assim, se considerarmos que uma vacina para dengue demorou 15 anos para ser desenvolvida, podemos considerar rapidez caso tenhamos uma opção dessa já no ano que vem”, opina.

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