Ciência e Saúde

Cientistas analisam quais proteínas podem agir contra o coronavírus

Medicamentos podem fazer com que moléculas produzidas pelo corpo humano impeçam que o coronavírus desencadeie a ação infecciosa. Grupo internacional de cientistas identifica 47 remédios já vendidos em farmácia que têm esse efeito

Paloma Oliveto
postado em 01/05/2020 08:00
 (foto:  Universidade da Califórnia em San Francisco/Divulgação)
(foto: Universidade da Califórnia em San Francisco/Divulgação)
Se você não pode com o inimigo, foque em você. Pode até parecer mensagem de autoajuda. Mas, na verdade, essa foi a abordagem utilizada por um grupo de mais de 120 pesquisadores norte-americanos e europeus para detectar 47 medicamentos vendidos em farmácia, sem necessidade de receita, com potencial de lutar contra o Sars-Cov-2. O desenvolvimento de novas drogas que tenham como alvo os mecanismos usados pelo novo coronavírus para entrar nas células do hospedeiro e se replicar pode demorar mais de 10 anos. Por isso, os cientistas resolveram pesquisar, nos genes humanos, quais proteínas poderiam ser estimuladas para reagir contra o causador da Covid-19.

Em uma coletiva de imprensa on-line, Nevan Krogan, biólogo molecular da Universidade da Califórnia, em San Francisco, lembrou que, diferentemente de bactérias, os vírus não conseguem viver sozinhos. Como parasitas, eles precisam usar o maquinário das células do hospedeiro para sobreviver e se replicar. ;Eles precisam dos nossos genes e das nossas proteínas;, diz o principal autor do estudo, publicado na revista Nature. Por isso, em vez de buscar substâncias que bloqueiam essa habilidade no Sars-Cov-2, os cientistas buscaram nos exaustivamente conhecidos genes humanos uma forma de impedir que o micro-organismo consiga usar o hospedeiro para iniciar a cadeia infecciosa.

Krogan conta que idealizou a estratégia em janeiro, quando ficou claro para ele que o mundo estava diante de uma epidemia iminente. Em poucas semanas, o biólogo montou uma equipe com cientistas e médicos da UCSF, do Instituto Gladstone, da Faculdade de Medicina Icahn de Mount Sinai e do Instituto Pasteur, de Paris, com a recomendação de se esforçarem para encontrar possíveis tratamentos para a Covid-19 nas prateleiras das farmácias.

O primeiro passo foi combinar biologia e informática e desenvolver um modelo computacional com 332 proteínas humanas das quais o vírus depende para infectar as células e se replicar. Em seguida, os pesquisadores estudaram quais medicamentos já comercializados ou que estão em fase avançada de desenvolvimento poderiam visar esses genes e impedir que eles fossem usados pelo Sars-Cov-2 para sobreviver. ;É uma mudança de paradigma. Uma nova forma de descobrir medicamentos;, afirma Krogan.

O modelo computacional apontou que 66 dessas proteínas são sensíveis a 69 compostos que, hoje, estão presentes em 29 medicamentos já aprovados pela Food and Drug Adminstration (FDA) e 40 encontram-se em fase de ensaio clínico (com humanos) ou pré-clínicos (em animais). Com esses dados em mãos, os pesquisadores começaram a estudar, em laboratório, o efeito das substâncias identificadas na interação do vírus com as células humanas.

Primeiro, os cientistas introduziram o coronavírus nas células humanas em cultura. Uma vez dentro delas, as proteínas virais encontraram proteínas humanas específicas, às quais poderiam se ligar ; da mesma forma que fazem durante uma infecção normal. Depois de identificar as estruturas do hospedeiro usadas pelo Sars-Cov-2, os pesquisadores chegaram a 69 moléculas que pareciam mais promissoras para impedir o mecanismo. De acordo com Krogan, 47 delas mostraram-se eficazes. O pesquisador ressalta, contudo, que os estudos não foram feitos em pessoas ainda, e que ninguém deve comprar os remédios apontados pelo artigo para automedicação.

Cloroquina

Um dos compostos que, de acordo com a pesquisa, conseguiu bloquear a interação do vírus com as células humanas, em laboratório, foi a polêmica cloroquina. A substância antimalária foi apontada por pequenos estudos como promissora, mas não é consenso na comunidade médica devido aos efeitos colaterais ; algumas pessoas morreram ao fazer uso da droga recentemente. Krogan destaca que outros medicamentos foram eficazes nos testes e têm baixa toxicidade. O biólogo ressalta os efeitos negativos da cloroquina em genes associados à função cardíaca como um dos principais motivos pelos quais ela não é uma boa opção para a Covid-19. Nos testes, os pesquisadores observaram que a substância se liga a uma proteína conhecida como hERG, que é fundamental para regular a atividade elétrica no coração. Isso pode ajudar a explicar os possíveis riscos cardiovasculares associados ao composto.

Duas categorias de medicamentos surgiram como agentes promissores para reduzir a infectividade viral: os inibidores da tradução de proteínas e compostos que modulam, dentro das células, proteínas conhecidas como receptores Sigma1 e Sigma2. São medicamentos hormonais, antipsicóticos, ansiolíticos, antidepressivos e anti-histamínicos, além da cloroquina. Entre os inibidores da tradução de proteínas, o efeito antiviral mais forte in vitro foi observado com uma droga atualmente em ensaios clínicos para câncer de pâncreas, e outra já aprovada pela FDA para o tratamento de mieloma múltiplo.

Já entre os moduladores Sigma1 e Sigma2, um antipsicótico usado no tratamento da esquizofrenia mostrou a mais forte atividade antiviral contra o Sars-Cov-2. Dois potentes anti-histamínicos também foram eficazes, assim como um hormônio feminino, mas em menor grau. Um medicamento com esse mecanismo que está em fase pré-clínica teve atividade antiviral aproximadamente 20 vezes maior do que a hidroxicloroquina, informa o biólogo.;Continuamos a procurar agentes adicionais direcionados às proteínas humanas usadas pelo Sars-Cov-2 para expandir o arsenal contra o vírus;, afirma Krogan.

Confiança

;Embora esses sejam dados iniciais, temos um alto grau de confiança nos resultados, pois observações semelhantes sobre a atividade antiviral desses medicamentos surgiram de trabalhos realizados de forma independente no Mount Sinai e no Instituto Pasteur;, comenta Adolfo García-Sastre, diretor do Instituto Global de Saúde e Patógenos Emergentes da Faculdade de Medicina Icahn de Mount Sinai. ;A pesquisa nessa velocidade e magnitude só poderia ter sido realizada por meio de um esforço colaborativo de vários cientistas de várias instituições, cada um trazendo habilidades únicas, mas complementares, para um objetivo comum.;

Krogan diz que o próximo passo é investigar mais detalhadamente os compostos mais promissores para, em seguida, começarem os ensaios clínicos. ;Estamos trabalhando com várias empresas farmacêuticas e de biotecnologia para avaliar a eficácia antiviral e a segurança dos candidatos a medicamentos que mostraram a maior promessa em nossos experimentos de laboratório.;

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação