Ciência e Saúde

Pandemia de coronavírus compromete o tratamento de hipertensão e diabetes

A OMS alerta que essas enfermidades deixam pacientes mais vulneráveis à covid-19

Carmen Souza
postado em 02/06/2020 06:00
Em 53% dos países investigados, houve interrupção  total ou parcial de atendimentos médicos para combater a hipertensãoA pandemia da covid-19 levou à interrupção de cuidados médicos cujas consequências também poderão ser de grandes proporções, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS). A partir de informações coletadas em 155 países, a agência das Nações Unidas constatou que profissionais da área e pacientes estão deixando de lado o tratamento e a prevenção de doenças crônicas. Sem uma emergência sanitária, essas enfermidades já respondem por 71% das mortes por ano no planeta, o equivalente a 41 milhões de óbitos. O surgimento e a disseminação do novo coronavírus tendem a piorar o cenário, considerando que diabéticos, hipertensos e outros doentes crônicos são mais vulneráveis ao Sars-CoV-2.

;Os resultados dessa pesquisa confirmam o que estamos ouvindo há várias semanas. Muitas pessoas que precisam de tratamento para doenças como câncer e diabetes não têm recebido os serviços de saúde e medicamentos necessários. É vital que esses países encontrem formas inovadoras de garantir a continuidade desses serviços essenciais;, alerta o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus. As informações foram coletadas ao longo de três semanas de maio e mostram que os hipertensos são os mais desassistidos: 53% dos países investigados interromperam parcial ou integralmente o tratamento da doença. Em seguida, vêm o diabetes (49%), cânceres (42%) e emergências cardiovasculares (31%).

A agência alertou que o impacto é global, mas os países de baixa renda são os mais afetados. Vinte por cento daqueles que reportaram interrupções nos atendimentos, alegaram que a decisão se deu por escassez de medicamentos, de ferramentas de diagnóstico e de outras tecnologias. A carência de profissionais também é outro desafio. Nos locais em que houve queda brusca nas consultas, 94% dos profissionais de saúde foram remanejados para combater a pandemia.

Presidente da regional do Distrito Federal da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, João Lindolfo Borges aponta um outro fator que tem levado ao não acompanhamento das doenças crônicas: o receio dos pacientes em serem infectados pelo novo coronavírus. ;As pessoas abandonaram os seus médicos. Os hospitais e as unidades de terapia intensiva estão lotados, mas os consultórios estão vazios;, ressalta.

Segundo o especialista, as consequências da suspensão dos tratamentos podem ser ainda mais agravadas devido a alguns hábitos adquiridos com o surgimento da covid-19. ;Ainda não há pesquisas mostrando isso, mas, no dia a dia, estamos percebendo que as pessoas estão mais ansiosas, bebendo mais e comendo mais. Isso tem impacto no diabetes e na hipertensão, por exemplo;, explica.

João Lindolfo Borges lembra que, nos casos das doenças crônicas, não se pode retardar a assistência especializada. ;Por conta da pandemia, você pode deixar a cirurgia plástica para depois. Mas o acompanhamento da pressão, do colesterol alto e do diabetes, não. As consequências podem ser graves;, enfatiza. ;Além disso, haverá sobrecarga e aglomeração de pacientes nos consultórios depois que tudo isso passar. Ou seja, este é um momento para ir ao médico.;

Telemedicina
Diretor do Departamento de Doenças não Transmissíveis da OMS, Bente Mikkelsen defende que as pessoas com doenças crônicas sejam incluídas nos planos nacionais de resposta e preparação para a covid-19, e que as autoridades ;encontrem formas inovadoras; de enfrentar o problema. Em 58% dos países consultados, uma das medidas encontradas foi o fortalecimento do antedimento médico remoto, a telemedicina.

A alternativa também é apontada por João Lindolfo Borges. ;A telemedicina ajuda muito. Em casos que são raros, como uma primeira consulta e em uma emergência, não. Mas para manter a rotina de cuidado, o acompanhamento de doenças crônicas, funciona muito bem;, justifica.

Segundo o médico, há um desconhecimento no Brasil sobre a prática, aprovada pelo Conselho Federal de Medicina. Mas em países como os Estados Unidos, a telemedicina é cada vez mais comum. ;Com as ferramentas disponíveis, a gente faz até a prescrição a distância. A pessoa é atendida sem sair de casa, sem se expor ao vírus, de uma maneira fácil de fazer;, argumenta. Na pesquisa da OMS, a redução no número de transporte público é uma das razões apontadas para a queda nos tratamentos de doenças crônicas.

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