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Correio Braziliense

Especialista explica diferença entre os tipos de teste para coronavírus

Carlos Eduardo dos Santos Ferreira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, diz que a estratégia de testagem é fundamental para combater a covid-19


postado em 03/06/2020 16:14 / atualizado em 03/06/2020 16:31

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
Mesmo sem ter atingido o pico de covid-19, o Brasil vê a retomada gradativa das atividades laborais. Com tanta gente voltando para as ruas, os testes que identificam a doença ativa ou a presença de anticorpos para o Sars-CoV-2 têm sido usados para tentar evitar maior disseminação do coronavírus. Em entrevista ao Correio, Carlos Eduardo dos Santos Ferreira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, explica a diferença entre os testes e afirma que a estratégia de testagem é fundamental para um resultado satisfatório.

Dos testes que existem atualmente, o PCR ainda é o mais seguro?

Sim. O PCR em tempo real é considerado o teste padrão ouro. Esse exame é realizado pela metodologia de biologia molecular, que detecta o RNA do vírus SARS-CoV-2, sendo o teste de escolha para o diagnóstico de pacientes sintomáticos na fase aguda, a partir do primeiro dia sintomas. Apresenta uma sensibilidade diagnóstica próximo dos 90 % — se a amostra for bem colhida, transportada e armazenada até o seu processamento no laboratório clínico. Esse teste pode negativar a partir do 12º dia do início dos sintomas, mas em alguns casos pode ser recuperado até mesmo no 60º dia após o início dos sintomas.
 
Esse teste depende de profissionais especializados, equipamentos e kits importados. É um teste trabalhoso e, a partir da chegada da amostra ao laboratório, demora em torno de 12 horas para sua execução. Cada laboratório, dependendo da sua estrutura, possui uma capacidade produtiva limitada por dia.
 

E os testes imunológicos?

Os testes imunológicos, que fazem a pesquisa de anticorpos, incluem tanto os testes rápidos como os de sorologia, são baseados na resposta de anticorpos produzidos pelo organismo frente à infecção pelo coronavírus. O teste rápido é o mais conhecido, realizado pela metodologia de imunocromatografia, em que são pesquisados os anticorpos da classe IgG e IgM. A partir, em média, do 7º dia do início dos sintomas, aparece o IgM, seguido pela elevação dos níveis de IgG. Esse exame deve ser solicitado a pacientes com quadro clínico mais tardio e para avaliação de profissionais de saúde. Um resultado negativo para SARS-CoV-2 por este método não exclui a possibilidade de infecção, principalmente no início da doença (7 a 10 dias após o início dos sintomas).
 

Dos mais de 100 testes aprovados pela Anvisa, a maioria é de testes rápidos. Qual a utilidade desse tipo de teste? Eles deve ser usados como método diagnóstico da doença ou deveriam ser restritos ao mapeamento do status imunológico da população?

A utilidade dos testes rápidos são tanto para fins diagnósticos quanto para avaliação da cicatriz sorológica (pacientes que foram expostos ao vírus e já evoluíram para recuperação). Para fins diagnósticos eles podem ser utilizados na indisponibilidade do PCR  - somente em pacientes que apresentam mais de 7 dias do início dos sintomas. Mesmo neste período a chance de obter resultados falso negativos é alta (30-50 %). Ou seja o resultado é negativo mas o paciente pode estar infectado. Com o passar dos dias a sensibilidade melhora e a chance dos resultados falso negativos cai. Os testes rápidos são aqueles que a amostra de sangue é obtida através de uma lancetada na ponta do dedo. A gota de sangue é inoculada diretamente no local indicado no teste individualizado. Para melhor entendimento, como um teste de gravidez comprado em farmácia. Ao invés da urina – utiliza-se sangue.
 
Um boa alternativa para melhorar o desmpenho destes testes rápidos é a utilização de amostras de soro (o sangue precisa ser centrifugado para separação desta amostra)  ao invés do sangue da ponta do dedo).

Como existem diferentes fabricantes, existem diferentes qualidades dos materiais. Para melhor avaliação — estes testes precisam ser validados para verificar o desempenho dos mesmos.
 
A SPBC/ML está em parceria com a CBDL (Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial) para, em conjunto com grandes laboratórios privados, realizar a validação de alguns desses testes que estão chegando ao mercado brasileiro.

 
Em muitos estados, como o Distrito Federal, há uma reabertura gradual de serviços não-essenciais, como shoppings centers. Para tanto, os funcionários serão testados em massa a cada 30 dias. Esse tipo de testagem garante a segurança da população?

Em parte sim, contudo o risco de contágio sempre vai existir, em maior ou menor intensidade. Um ponto importante é a estratégia de testagem — qual tipo de teste a ser utilizado, qual a frequência, qual a incidência da circulação do vírus em diferentes regiões do estado. O importante é permitir que todos tenham acesso aos serviços de saúde. Enquanto a vacina não estiver disponível vamos conviver com o vírus.

 
O Brasil está atrás apenas dos Estados Unidos em número de casos. Com esse quantitativo crescendo, o senhor acredita que a rede pública de saúde conseguirá garantir a testagem molecular em número suficiente?

O Brasil é um país com uma grande dimensão e uma grande população; com condições sócio-econômico-culturais que contribuem para a disseminação no número de casos. O número de infectados deve ser bem maior que o informado, porém a capacidade produtiva de testagem (com PCR) ainda não é a ideal. Os laboratórios clínicos, tanto públicos quanto privados, estão trabalhando para  a ampliação dessa capacidade produtiva.

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