Ciência e Saúde

Ignorar pacientes assintomáticos é ''mal-entendido'', diz OMS

Agência da ONU esclarece que infectados pelo Sars-CoV-2 que não têm os sinais da covid-19 também transmitem o vírus. Um dia antes, líder técnica do órgão havia afirmado que casos do tipo são raros. Especialistas lamentam possíveis efeitos práticos da declaração

Carmen Souza
postado em 10/06/2020 06:00
O monitoramento da temperatura da população é uma das medidas para identificar primeiros sinais da doençaOs cuidados para controlar a transmissão do novo coronavírus alteraram a rotina do planeta e deixaram as pessoas desconfiadas. Surgiu o risco de elas serem ;capturadas; por um micro-organismo letal e que pode estar presente em qualquer um, inclusive naqueles que não apresentam os sintomas da covid-19, os chamados assintomáticos. Medidas restritivas duras, como o bloqueio de cidades e o uso obrigatório de máscara, foram tomadas para evitar esse tipo de infecção, entre outros objetivos. Mas uma declaração feita, na segunda-feira, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) trouxe mais incertezas ao cenário. A agência afirmou que a transmissão por assintomáticos é rara e não deve ser prioridade dos governos. Ontem, após a polêmica gerada, a entidade das Nações Unidas disse que houve um ;mal-entendido;.

;Estamos absolutamente convencidos de que a transmissão por casos assintomáticos está ocorrendo, a questão é saber quanto, saber qual é a contribuição relativa de cada grupo para o número total de casos;, disse Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências da OMS. A afirmação polêmica foi feita por Maria van Kerkhove, líder técnica do mesmo programa. Também ontem, a infectologista tentou elucidar o assunto. ;Recebi muitas mensagens pedindo esclarecimentos sobre alguns argumentos que usei ontem (segunda) durante a coletiva de imprensa. Acho importante esclarecer alguns mal-entendidos sobre minha fala.;

Segundo Maria van Kerkhove, já se sabe que muitos infectados pelo Sars-CoV-2 não desenvolvem os sintomas da covid-19, e que a maior parte da transmissão se dá a partir de pessoas sintomáticas, ou seja, que apresentam sinais da doença. ;Elas passam para os outros através de gotículas infectadas;, explicou a médica. ;Mas há um subgrupo de pessoas que não desenvolvem sintomas. E, para entender verdadeiramente esse grupo, não temos uma resposta concreta ainda. Há estimativas de que o número gire entre 6% e 41% da população. Mas sabemos que as pessoas que não têm sintomas podem transmitir o vírus;, ressaltou.

Pedido por dados

Entre especialistas, há uma classificação de pessoas infectadas por vírus de uma forma geral. Elas podem ser pré-sintomáticas ; quando vírus está incubado, ainda não apresentou os seus efeitos, mas eles vão ocorrer ; ou assintomáticas, quando não desenvolveram complicações como febre, tosse e falta de ar. Segundo Ashish K Jha, diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, cerca de 20% das pessoas infectadas pelo novo coronavírus se enquadram nesse segundo grupo. Mas muitas das 80% restantes ;estão lançando o vírus antes de desenvolverem os sintomas;. ;Elas são assintomáticas no momento em que estão eliminando vírus;, escreveu o médico em sua página no Twitter.

De acordo com Ashish K Jha, estudos de modelagem indicam que de 40% a 60% da propagação do coronavírus está acontecendo entre pessoas que não apresentavam sintomas da doença no momento da infecção. ;Pode ser que não haja muita disseminação assintomática, mas muita disseminação pré-sintomática;, cogitou o médico. Para ele, o que se sabe hoje é que tanto assintomáticos quantos pré-sintomáticos ;espalham um enorme problema para controlar a doença;. Por isso, o especialista defendeu que afirmação feita na OMS na segunda-feira deveria ter sido ;acompanhada de dados;.

Ao tentar esclarecer a polêmica, Maria van Kerkhove disse que sua afirmação tinha como base dados de pequisas que ainda não foram publicadas, mas que a OMS havia recebido de seus Estados-membros, principalmente aqueles que mais têm realizado testes de diagnóstico. ;O que fiz referência (;) foi a poucos estudos, dois ou três, que tentaram seguir casos assintomáticos. Eu não estava declarando qualquer mudança de abordagem da OMS. Nisso, usei a frase ;muito rara;, mas isso não quer dizer que a transmissão vinda de pessoas assintomáticas seja ;muito rara; globalmente. Eu me referi ao subconjunto dos estudos; argumentou.

Eliana Bicudo, assessora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), ressalta que não há estudos divulgadoscapazes de embasar o ;equívoco; cometido pela representante da OMS. ;Não temos essa constatação. O assintomático, depois que é diagnóstico com o coronavírus, tem uma carga viral baixa, mas não sabemos se isso interfere na transmissão da doença. Isso a gente sabe com relação ao HIV, por exemplo, mas não sobre o Sars-CoV-2;, compara a infectologista.

Impacto imediato


Para a médica, a líder técnica da OMS foi ;infeliz na colocação;, que já começa a ter desdobramentos. ;Acabei de atender a um paciente, um senhor de 73 anos, que apresentava leve coriza e febre, e o exame deu positivo para coronavírus. A filha dele me disse que não iria isolá-lo porque ele está assintomático. Ou seja, as pessoas já começaram a fazer confusões, o impacto é imediato.;

Eliana Bicudo lembra ainda que há uma sobrecarga de informações na atual crise sanitária, o que deixa a população mais vulnerável a aceitar soluções rápidas, sem fazer muitos questionamentos. ;Por isso, é importante seguir as recomendações consolidadas: lavar as mãos, usar máscara, respeitar o isolamento e fazer testes na população. Tudo isso a gente já sabe que evita a transmissão do coronavírus;, lista. ;Quanto às novidades, é sempre bom pensar duas vezes, até quando elas são ditas por líderes e autoridades. Tudo é muito novo, precisamos de tempo para descobrir o quanto as medidas são realmente verdadeiras.;

Em defesa das medidas que têm sido adotadas pela OMS, Mike Ryan ressaltou que há um enfoque da agência em ações práticas que diminuam a quantidade de mortos e infectados em escala global, além da busca de um entendimento sobre como se dá a transmissão comunitária do novo coronavírus. ;Queremos salvar vidas. Quando damos conselhos sobre estratégias amplas de como controlar a doença, estamos focando em identificar os casos, acompanhar a trajetória da infecção, testar esses casos e garantir que haja quarentena;, justificou o diretor executivo do Programa de Emergências da agência.

Sinais-chaves

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os primeiros dias de manifestação da covid-19 podem ser os mais perigosos para a disseminação do vírus. Isso porque estudos começam a mostrar que, nesse período, os pacientes estariam mais infecciosos. ;Parece, com base em informações muito limitadas que temos nesse momento, que as pessoas têm mais vírus no corpo no momento, ou perto do momento, em que desenvolvem sintomas, cedo assim;, afirmou Maria van Kerkhove, líder técnica da agência das Nações Unidos. Segundo a epidemiologista, estudos preliminares da Alemanha e dos Estados Unidos sinalizam que pessoas com sintomas amenos podem ser infecciosas durante oito a nove dias. Em casos mais graves, o período pode ser maior.


Palavra de especialista

Polêmicas geram inseguranças

Avaliando essa manifestação da Organização Mundial da Saúde em relação à transmissão do coronavírus por pacientes assintomáticos, fica bem claro que a covid-19 continua sendo uma doença que, a cada dia, necessita de estudos mais aprofundados. A questão da incubação do vírus varia de 1 a 14 dias, sendo que, em média, os sintomas surgem em cinco dias. Pode acontecer de o vírus ser transmitido nesse período, mas por ser difícil de comprovar, há a necessidade de mais pesquisas. Essa é uma doença muito nova, com menos de um ano e características diferentes das epidemias causadas pelo coronavírus anteriormente, como no caso da Sars e da Mers. O entendimento sobre a doença vai mudando, a gente sabe que vai mudar. Começamos achando que era uma síndrome pulmonar e, hoje, sabemos que é uma doença sistêmica, com uma série de sintomas que antes não eram relacionados. Por isso, essas declarações polêmicas geram insegurança tanto para os profissionais, que se baseiam em protocolos e em medidas indicadas pela OMS como seguras para o tratamento e para a prevenção da doença, quanto para a população em geral, que se sente insegura sobre o que a OMS está fazendo para proteger as pessoas expostas. Há ainda a politização dessas declarações. Aqui no Brasil, isso tem dificultado bastante os profissionais, não permitindo que eles trabalhem da forma mais científica possível.;
Hemerson Luz, médico com experiência em operações humanitárias e desastres no Brasil e no exterior.

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