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Correio Braziliense

Níveis altos de cortisol estão ligados a casos mais graves de covid-19

Níveis altos de cortisol estão ligados a casos mais graves da doença causada pelo Sars-CoV-2, mostra pesquisa britânica conduzida com 535 pacientes. A descoberta tem potencial para melhorar a triagem e o monitoramento de infectados


postado em 19/06/2020 06:00

O cortisol também está ligado à sobrevida: pacientes com níveis mais altos resistiram menos tempo ao coronavírus(foto: AFP / Cesar Von BANCELS)
O cortisol também está ligado à sobrevida: pacientes com níveis mais altos resistiram menos tempo ao coronavírus (foto: AFP / Cesar Von BANCELS)
Níveis altos de cortisol soam como um alerta de saúde, já que, em excesso, esse hormônio pode indicar a presença de doenças, como cânceres, e a ocorrência de estresse. Cientistas britânicos também acreditam que grandes quantidades dessa substância estão relacionadas a casos mais graves da covid-19. Os especialistas chegaram a essa conclusão após uma análise feita com mais de 500 pacientes infectados pelo Sars-CoV-2. A descoberta poderá ajudar na identificação de indivíduos que precisam de cuidados mais intensos, segundo os autores do trabalho, publicado na última edição da revista The Lancet Diabetes & Endocrinology.

 

A produção de cortisol pelo organismo pode desencadear alterações no metabolismo, na função cardíaca e no sistema imunológico. Níveis baixos desse hormônio são maléficos e podem ser fatais, e taxas excessivas são igualmente perigosas, levando ao aumento do risco de infecção. “Nossos níveis de cortisol, quando saudáveis e em repouso, ficam entre 100 a 200nm/l (nanomol por  litro) e quase zero quando dormimos”, explicam os autores.

 

No trabalho, foram analisados dados de 535 pacientes, dos quais 403 tinham covid-19. As análises ocorreram entre 9 de março e 22 de abril, sendo que os voluntários foram submetidos a exames de sangue de rotina e a medição diária do cortisol. Os pesquisadores observaram que os níveis do hormônio em infectados pelo Sars-CoV-2 foram significativamente maiores do que naqueles sem a covid-19. “Os níveis chegaram a 3.241nm/l, consideravelmente mais altos do que após uma grande cirurgia, quando os níveis podem chegar a 1.000nm/l”, comparam os autores.

 

Os pesquisadores também notaram que, entre os participantes com covid-19, aqueles com nível de cortisol de 744nm/l  ou menos sobreviveram, em média, por 36 dias. Pacientes com níveis acima de 744 nm/L tiveram sobrevida média de apenas 15 dias. “Do ponto de vista da endocrinologia, faz sentido que os pacientes com covid-19 mais doentes tenham níveis mais altos de cortisol, mas esses índices são preocupantes por serem  bem altos”, enfatiza, em comunicado, Waljit Dhillo, chefe da Divisão de Diabetes, Endocrinologia e Metabolismo do Imperial College de Londres e um dos autores do estudo.

 

Excesso de citocinas

 

Cláudio Elias Kater, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional de São Paulo (SBEM-SP), explica que o aumento do cortisol observado na pesquisa pode estar relacionado a outro evento presente na infecção pelo Sars-CoV-2. “Sabemos que essa doença provoca a tempestade de citocinas, que é a resposta exagerada do sistema imune. Esse fenômeno também pode estar estimulando a glândula suprarrenal, que é quem produz o cortisol. É mais uma mensagem do organismo acusando algo de errado no corpo”, explica.

 

O especialista brasileiro ressalta que a quantidade de cortisol detectada nos pacientes graves de covid-19 é extremamente alta. “Assim como disseram os cientistas, essa quantidade é realmente assustadora. Ela ultrapassa até taxas em pessoas que sofrem doenças graves ou que passam por cirurgias, por exemplo. É algo que não se esperava.”

 

Mais estudos

 

A equipe britânica espera que as descobertas possam ser validadas em um estudo clínico de maior escala e, mais à frente, sirvam como indicativo para definir perfis distintos de infectados pelo Sars-CoV-2 quando eles chegarem aos centros médicos. “Três meses atrás, quando começamos a ver essa onda de pacientes com covid-19 aqui nos hospitais de Londres, tínhamos muito poucas informações sobre como realizar a melhor triagem”, conta Waljit Dhillo. “Agora, (...) temos potencialmente outro marcador simples para ajudar a identificar quais pacientes precisam ser admitidos imediatamente e quais não. Ter um indicador precoce de quais indivíduos podem piorar mais rapidamente nos ajudará a fornecer o melhor nível de atendimento, e o mais rápido possível.”

 

Os pesquisadores cogitam ainda que os marcadores possam ser monitorados ao longo do tratamento, para indicar se a recuperação realmente está ocorrendo. Cláudio Elias Kater também acredita que a medição de cortisol pode ajudar no enfrentamento à covid-19, mas pondera que mais pesquisas precisam ser feitas para se entender melhor os dados do estudo inicial. “É uma ferramenta fácil de usar, porque não é difícil medir o cortisol de uma pessoa. Mas precisamos ter sempre em mente que essa enfermidade é totalmente nova. Mais estudos precisam surgir, é necessário analisar mais pacientes, como os próprios cientistas destacam.”

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