Ciência e Saúde

Descoberta de fóssil ajuda ciência a entender extinção de espécies

Espécie de peixe-boi extinto viveu há cerca de 40 mil anos no Rio Madeira, localizado na Região Amazônica

Agência Brasil
postado em 23/06/2020 11:58

Ilustração do extinto Trichechus hesperamazonicus.Pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) descobriram uma nova espécie fóssil de um peixe-boi extinto, que vivia há cerca de 40 mil ou 45 mil anos no Rio Madeira, localizado na Região Amazônica. Estudos como esse são relevantes para que a ciência entenda os fatores que resultaram, ao longo da história, na extinção de espécimes. ;E, ao gerar esse tipo de conhecimento, entender os fatores que são decisivos para conservar o que hoje existe, em termos de vida, no planeta;, disse à Agência Brasil o pesquisador Mario Cozzuol -- um dos três autores do estudo.

Para o paleontólogo, encontrar coisas novas é tarefa relativamente frequente. ;Todos os três autores do estudo [Fernando Perini e Ednair Nascimento, além de Cozzuol] já passamos por essa sensação, que é a de descobrimento de algo interessante. É bem aquele clima do ;eureca; que vemos em filmes na televisão. É muito bom ter em mãos o resto de uma espécie que ninguém conheceu, viu ou descobriu. É a sensação de ter uma novidade, e querer contá-la ao mundo;, acrescentou.

A descoberta, no entanto, é apenas a primeira parte de trabalhos como o desenvolvido pelo Departamento de Zoologia da UFMG, que levou quase 20 anos para ser concluído.

O ;eureca; gritado pelo professor ocorreu logo no primeiro ano das análises, em meio às comparações feitas com outros fósseis. ;Foi ali que percebemos que tínhamos, em mãos, uma novidade que merecia ser descrita e publicada;, disse ele. A publicação do estudo só aconteceu este ano, no Journal of Vertebrate Paleontology, da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados dos Estados Unidos.

Trichechus hesperamazonicus

O nome científico dado à espécie descoberta é Trichechus hesperamazonicus ; ou peixe-boi do oeste da Amazônia, que vivia no Rio Madeira há cerca de 45 mil anos, em uma época que o regime da água era diferente do atual. As chuvas eram concentradas em poucos meses do ano. Hoje, na Amazônia, a chuva perdura ao longo do ano todo.

;Foi ainda nas épocas das glaciações, quando as geleiras avançaram. A grande quantidade de água retida nos gelos diminuiu a quantidade de água circulando em rios e oceanos, tornando-os menores. Os geólogos chamam esse período de pleniglacial médio, que ocorreu entre dois momentos de máxima glaciação. Pode-se dizer que era um período quente e úmido para a época;, explica o cientista.

Nesse contexto, a maior parte da água descongelada era concentrada em lagos, em vez de rios. ;Esses lagos desapareceram, dando lugar a rios de águas mais caudalosas. Com isso, o animal não tinha mais o mesmo tipo de ambiente para viver. A situação mudou, e ele foi extinto por não ter se adaptado à mudança ambiental, ficando o atual peixe-boi amazônico como o único remanescente do grupo;, acrescenta Cozzuol. Segundo ele, até então existiam espécies fósseis da família Trichechidae. O que não existia eram as do gênero Trichechus.

A pesquisa

Os três fósseis analisados pelos pesquisadores foram obtidos por garimpeiros que remexiam o fundo do Rio Madeira, na busca por ouro. As peças foram doadas para a Universidade Federal de Rondônia e para o Museu Estadual de Rondônia.

Foi por volta do ano 2000 que os pesquisadores identificaram, além das semelhanças, diferenças na comparação com outros espécimes de peixe-boi (entre fósseis e remanescentes), o que, do ponto de vista científico, é ainda mais interessante.

;Pelas semelhanças vimos que o animal pertence aos grupo dos peixes-bois. E entre as diferenças, detalhes como posição e tamanho dos dentes; e os espaços entre os dentes e a parte superior da mandíbula;. ;Foi ali que vimos, pela primeira vez, relevância em descrever e comparar o encontrado;, disse o pesquisador, empolgado com as novas pesquisas que deverão ser implementadas a partir de seu estudo.

;Todo bom trabalho de pesquisa termina mais com perguntas do que com respostas. Adicionamos uma espécie a mais no grupo. O desafio agora é entender melhor como a evolução de todo o grupo aconteceu. As perguntas serão pontas para que se faça mais pesquisas, para saber quantas espécies existem ou existiram; onde existiram; qual processo levou à diversificação; o porquê de terem desaparecido algumas e aparecido outras espécies;, acrescentou.

Sobrevivência da diversidade

Cozzuol explica que o processo de evolução na Amazônia é muito mais complexo do que se imagina. ;O que temos hoje, de grande diversidade, é apenas a parte remanescente de algo muito maior que existia antes. Essas informações são extremamente importantes para sabermos o que fazer para conservar o que temos;.

Ele acrescenta que mudanças climáticas bruscas, como ocorre atualmente com o aquecimento global, podem resultar na extinção de espécies incapazes de se adaptar ao novo cenário. ;Ao estudar as espécies, tanto extintas como remanescentes, a ciência aponta o que deve ser feito para a manutenção da vida, já que animais e plantas estão integrados no mesmo sistema que estamos. Vivemos em um aquário gigante, onde não há recursos ilimitados;, argumentou.

;A extinção faz parte da natureza. Isso é parte do processo natural. O que vemos é que a possibilidade de extinção é ainda maior quando as mudanças ambientais são rápidas. Saber disso é importante porque é o que está acontecendo no caso do aquecimento global. Mudanças desse tipo já aconteceram no passado, só que numa velocidade muito menor. O problema é que, quanto mais rápida é a mudança, menor é o tempo para os organismos se adaptarem. Portanto, maior é o risco de adaptação. E isso é preocupante;, complementou.

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