Ciência e Saúde

Lockdown salvou 3,2 milhões de vidas em 11 países, estima estudo

Estudos recentes mostram que o polêmico lockdown tem efeito estratégico no combate à pandemia da covid-19. Em 11 países europeus que adotaram medidas restritivas, por exemplo, 3,2 milhões de vidas foram salvas até o início de maio

Paloma Oliveto
postado em 19/07/2020 07:10
Rua vazia em Nova York: pesquisa com dados dos EUA e de outros cinco países indica que restrições preveniram ou adiaram 62 milhões de casosEnquanto países como o Brasil relaxam as restrições de mobilidade social na pandemia, alguns locais que já haviam retomado a vida normal voltam a instituir quarentena ; caso de Barcelona, que, na sexta-feira, decretou confinamento por 15 dias. Em outras cidades catalãs e em regiões da Índia, a explosão de novos casos exigiu a adoção de medidas mais severas, com o fechamento total de atividades e serviços, o polêmico lockdown.


Apesar de desastroso para as economias, o lockdown salvou milhares de vidas, segundo estudos realizados em países que adotaram essa prática. Uma pesquisa do Imperial College de Londres publicada na revista Nature estimou que, até 8 de maio, quando o fechamento total foi levantado na Europa, 3,2 milhões de vidas foram poupadas em 11 países do continente.


;Sem intervenções como bloqueios e fechamentos das escolas, poderia ter havido muito mais mortes por covid-19;, diz o principal autor do estudo, Samir Bahtt, do Centro Global de Análises de Doenças Infecciosas. ;Em todos os países que pesquisamos, a taxa de transmissão passou de alta para controlada com as medidas restritivas. Os governantes devem considerar cuidadosamente as medidas contínuas necessárias para manter a transmissão do Sars-CoV-2 controlada;, diz.


[SAIBAMAIS]Um outro artigo, também divulgado na Nature, encontrou resultados semelhantes. A equipe, chefiada por Salmon Hsiang, da Universidade de Berkeley, na Califórnia, analisou o efeito de 1.717 políticas restritivas, incluindo o lockdown, adotadas na China, na Coreia do Sul, na Itália, no Irã, na França e nos Estados Unidos, de janeiro a 6 de abril. Os cálculos indicaram que, se nenhuma ação fosse implementada, haveria um aumento diário de 38% no crescimento exponencial das infecções. ;Nós estimamos que, nesses seis países, as intervenções preveniram ou adiaram cerca de 62 milhões de casos confirmados;, diz Hsiang.


A equipe concluiu que quarentena, fechamento do comércio não essencial e lockdown são as medidas que produziram os maiores benefícios. Já as restrições e os banimentos de viagens tiveram resultados heterogêneos ; na França e no Irã, evitaram um grande número de contágios, enquanto que, nos Estados Unidos, parecem não ter influenciado nas taxas. O fechamento das escolas não produziu efeitos, segundo a análise, mas Hsiang destaca que mais pesquisas devem ser feitas para direcionar as políticas educacionais.


Com o relaxamento das medidas em praticamente todos os países, Hsiang espera que os casos voltem a subir. E, embora o estudo tenha incluído apenas seis nações, ele diz que as lições podem ser incorporadas a todo o mundo. ;Nossas análises das políticas existentes indicam que mesmo pequenos atrasos na adoção de medidas provavelmente produzirão resultados dramáticos na saúde;, diz. No Brasil, 11 estados adotaram algum tipo de política de lockdown, mas ainda não há estudos analíticos estimando o número de casos e de óbitos evitados por essas medidas.

Possíveis ajustes

Nem todas as pesquisas, porém, encontraram evidências de que o lockdown estrito está diretamente associado à redução da mortalidade. Um estudo divulgado na plataforma on-line de pré-publicações científicas medrxiv.org avaliou o impacto dessa e de outras políticas restritivas em todos os países com casos confirmados de covid-19 desde 29 de abril. Para isso, os autores, do Hospital Universitário West Middlesex, na Inglaterra, utilizaram banco de dados mantidos por instituições como a Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos.


As análises demonstraram que medidas como fechamento de escolas, teletrabalho, restrições de viagens e campanhas de informação adotadas precocemente reduziram, cada uma com um percentual específico, a mortalidade por covid-19. Porém, segundo os autores, as políticas mais rigorosas de lockdown ; em regiões como o norte da Itália, por exemplo, só se podia sair para ir ao mercado e à farmácia e para passear com animais ; não interferiram nesse resultado. O artigo conclui que, como o relaxamento das restrições provavelmente aumentará a transmissão da doença, os formuladores de políticas públicas devem, assim que os casos voltarem a subir, investir na adoção das práticas que deram certo.

Quando parte da população

Uma das decisões mais polêmicas durante a pandemia foi a da Suécia, que decidiu não adotar medidas de restrição nem de bloqueios. Um estudo da Universidade de Uppsala constatou que essa política resultou em mais mortes e maior demanda hospitalar do que em países europeus com abordagens rigorosas de controle. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que houve menos internações de idosos em unidades de terapia intensiva (UTIs) do que o esperado e um número inferior de infecções do que se imaginou ; esse último resultado é atribuído, pelos autores, às medidas de proteção tomadas individualmente pela população.


;Níveis mais altos de ações individuais controlaram a infecção. Uma completa falta de ação individual provavelmente levaria ao contágio descontrolado, o que, felizmente, não aconteceu;, afirma, em nota, Peter Kasson, principal autor do estudo. De acordo com ele, as restrições brandas do governo da Suécia, associadas a uma população disposta a se autoisolar voluntariamente, produziram resultados bastante semelhantes aos observados em países que adotaram medidas mais rigorosas.


Por outro lado, se não houve explosão de infecções, a taxa de mortalidade per capita por covid-19 da Suécia foi de 35 por 100 mil em 15 de maio. Enquanto isso, a Dinamarca registrou 9,3; a Finlândia, 5,2; e a Noruega, 4,7. Todos os três vizinhos adotaram políticas mais rígidas. Para Kasson, é preciso investigar mais o impacto das ações do governo na mortalidade. ;Estudar os efeitos dessa estratégia, quais elementos são essenciais para reduzir a mortalidade e a necessidade de assistência à saúde, e como ela pode se comparar a outras abordagens é, portanto, de importância crítica para a compreensão global das respostas a pandemias;. (PO)

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação