Ciência e Saúde

Agricultura intensiva favorece o surgimento de pandemias

O uso descontrolado de terra para a produção agrícola aproxima homens de animais selvagens, o que pode facilitar a transmissão de vírus fatais, como o da covid-19. Mapeamento feito por britânicos em seis continentes detecta 376 espécies de bichos com esse potencial

Vilhena Soares
postado em 06/08/2020 06:00
Área desmatada na Amazônia brasileira: autores defendem uma gestão do uso da terra que considere a saúde globalA agricultura é uma atividade essencial para que os humanos sobrevivam, já que é a grande responsável pela alimentação. Apesar da sua importância para a sociedade, o cultivo de alimentos, caso se expanda ainda mais, pode ser um dos responsáveis pelo surgimento de pandemias altamente letais, como a da covid-19. Esse alerta foi feito por cientistas ingleses em um estudo publicado na última edição da revista especializada Nature. Os investigadores explicam que a prática agrícola intensaaproxima humanos e animais selvagens, o que aumenta as chances de novas enfermidades surgirem.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), um terço da terra e três quartos da água doce do planeta são usados para a agricultura, e essa quantidade aumenta com o passar dos anos. Muitas vezes, isso interfere em ecossistemas como florestas, que abrigam animais silvestres. No trabalho, os pesquisadores resolveram investigar o quanto a fauna está próxima dos humanos e o impacto disso na transmissão de doenças. Os cientistas analisaram evidências de 6.801 comunidades ecológicas de seis continentes, recolhidas de 184 estudos, que somam dados cerca de 7 mil espécies. Dessas, 376 são conhecidas por transportar patógenos compartilhados por humanos.

Na análise dos dados, os investigadores descobriram que as espécies que hospedam patógenos zoonóticos ; que podem pular de animais, como morcegos, roedores e pássaros, para pessoas ; constituíram uma proporção maior de espécies encontradas em ambientes influenciados pelo homem. O mesmo foi observado em relação a animais que tendem a transportar mais patógenos de qualquer tipo, independentemente de quem esses micro-organismos vão infectar.
;Nossas descobertas mostram que os animais que permanecem em ambientes mais dominados por humanos são aqueles com maior probabilidade de transmitirem doenças infecciosas, que podem deixar as pessoas doentes;, explica, em comunicado, Rory Gibb, cientista do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Meio Ambiente da University College London (UCL) e principal autor do estudo.

Os pesquisadores destacam que, embora existam vários outros fatores que influenciam os riscos de surgimento dessas doenças, os resultados sinalizam a possibilidade de usar estratégias que possam ajudar a mitigar o risco de surtos semelhantes ao da covid-19. ;Como se prevê que as áreas agrícolas e urbanas continuarão crescendo nas próximas décadas, devemos fortalecer a vigilância de doenças e os serviços de saúde nas áreas em que a terra é mais afetada;, defende Gibb.

Sustentabilidade


Para os autores, é necessário alterar a forma como a terra é utilizada. ;A maneira como os seres humanos mudam paisagens em todo o mundo, de florestas naturais a terras agrícolas, por exemplo, tem impactos consistentes em muitas espécies de animais selvagens, fazendo com que algumas diminuam, enquanto outras persistam ou aumentem;, explica Gibb. ;Nossas descobertas fornecem um contexto para pensar sobre como gerenciar as mudanças no uso da terra de maneira mais sustentável, de forma a levar em consideração os riscos potenciais não apenas para a biodiversidade, mas também para a saúde humana;, completa David Redding, pesquisador do Instituto da UCL e também autor do estudo.

Janice Zanella, chefe da Embrapa Suínos e Aves, em Santa Catarina, destaca que os dados vistos no estudo inglês entram em concordância com outros trabalhos científicos. A também médica veterinária lembra que há outros fatores, além da agricultura, que funcionam como influenciadores na disseminação de novos patógenos. ;Temos certeza de que a população humana vai aumentar, além da globalização, que faz com que as pessoas viagem mais. Isso tudo contribui para encurtar as distâncias entre as espécies e aumentar a chance de contato com esses animais;, explica.

Zanella ressalta que o Brasil é um dos países que têm características preocupantes diante desse cenário. ;Estimamos que, a cada ano, surgem pelo menos cinco novos patógenos, independentemente se eles podem contaminar humanos ou não. Mas em áreas em que há mais florestas, como o Brasil, em que grande parte da população vive dentro dessa região da fauna, temos preocupações maiores, pois as chances de alguém ser picado por um mosquito que pode transmitir um patógeno é muito maior;, detalha.

Para a especialista, só será possível lidar com esses riscos dando atenção total ao meio ambiente e a quem os habita. ;Por isso que ultimamente temos trabalhado em um conceito chamado de saúde única, que busca a saúde do animal, do meio ambiente e do ser humano, pois todos sabemos que um afeta o outro;, completa.

; Palavra de especialista

Não há coincidências

;Os autores desse estudo descobriram que, quando convertemos habitats naturais em nossos, aumentamos inadvertidamente a probabilidade de transmissão de doenças infecciosas zoonóticas, causadas por patógenos que podem pular de animais para humanos. É simplesmente uma coincidência que as espécies que prosperam em paisagens dominadas por humanos sejam frequentemente aquelas que representam ameaças zoonóticas, enquanto espécies que declinam ou desaparecem tendem a ser inofensivas? Aumentam ainda mais as evidências de que a capacidade dos animais de serem resistentes a distúrbios humanos está ligada a sua capacidade de hospedar patógenos zoonóticos.;
Richard S. Ostfeld, pesquisador do Instituto Cary de Estudos de Ecossistemas, nos Estados Unidos, em um artigo publicado na revista Nature.

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