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Correio Braziliense INOVAÇÃO

Artigo: Destrinchando a criatividade e a inovação

Observar o seu próprio processo criativo faz com que você entenda conscientemente como criar pluralidade de ideias.


postado em 19/03/2019 10:57 / atualizado em 16/04/2019 10:55

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
 
 
Por Leila Ribeiro*

Inovação e criatividade são palavras muito admiradas e desejadas atualmente. Mas, apesar de estarem muito populares, há muita confusão do que exatamente isso significa e como colocá-las em prática no cotidiano. Com conceitos complexos e com muitas definições divergentes no meio científico, eu gosto de começar a compreensão apontando o que essas palavras não definem:
 
Criatividade não é um dom que você nasce com ou sem;
Criatividade não é só habilidade de pessoas vinculadas as áreas das artes;
Criatividade não é uma ideia louca que nasceu de uma epifania;
Inovação não é apenas tecnologia digital;
Inovação não é ideias malucas com alto índice de risco ao negócio; 
Inovação não é só para os negócios. 

No sentido mais simplista do conceito, criatividade é a ação de criar algo como reposta ou solução nova e apropriada para determinada tarefa. Howard Gardner, o pai da teoria das Inteligências Múltiplas, diz que cada pessoa apresenta um perfil criativo singular, o que traz essa dificuldade para uma definição exata do termo. 

No entanto, uma das teorias que mais gosto é a Teoria do Investimento da Criatividade, de Sternberg, na qual a criatividade é compreendida como pensamento e atitude voltado para resolução de problemas. O autor desta teoria ainda afirma que criatividade é uma decisão de cada pessoa, ou seja, não tem nenhuma relação com a predisposição genética, como é muito comum ouvir das pessoas: eu não sou criativo/eu não tenho o dom da criatividade. Portanto, toda pessoa é criativa. 

Na verdade, esse tipo de ser mitológico, o “eu não sou criativo”, nasce justamente porque decidir ser criativo tem um alto custo, uma vez que a sociedade não apoia os criativos, pois estes criam interferência no tal do status quo. Isso acontece porque ideias criativas direcionam as pessoas para o não-convencional, a olhar para o outro lado, a considerarem outras alternativas utilizando-se do questionamento imaginativo do “e se.…”. 

Sair da zona de conforto gera desconforto e decidir ser criativo implica em estar neste lugar desconfortável da vulnerabilidade, das incertezas e, portanto, do enfrentamento do erro, para chegar até a criação de algo. Pode parecer muito assustador o início da vida criativa, mas, uma vez experimentada, não há mais volta porque você vai se sentir absurdamente... CRIATIVO. O resultado das experiências vividas durante o processo de criação é empolgante, divertido e vivo. Assim, a criatividade se aprende porque esta nasce das experiências praticadas.  

Observar o seu próprio processo criativo faz com que você entenda conscientemente como criar pluralidade de ideias e experimentá-las no seu dia a dia. Então, quando menos perceber, estará testando roupas diferentes, caminhos alternativos para chegar em casa, buscando cursos que alimentem seu artista interior, degustando uma comida diferente, usando as redes sociais com mais propósito e se conectando mais com a vida real, porque você sabe que ela vai te dar mil insumos para ampliar seu repertório de ideias criativas. 

A criatividade nasce do processo, e não de grandes epifanias, tudo vai ter começado porque você resolveu abrir espaço para ideias novas, mesmo que ainda não acreditasse nelas. E é aqui que a pontinha da inovação começa a surgir. 

Sendo inovador

Inovação é valor percebido. Desta forma, inovação não tem com objetivo o produto, seu foco está no processo. Koulopoulos, um autor dedicado a pesquisar sobre o tema, afirma que, muitas vezes, a inovação está aliada a alguma invenção (produto), mas o seu inverso não é proporcionalmente igual. A inovação se direciona na capacidade de transformação. Peter Drucker, um dos papas de inovação para o mercado, explica que o ato de inovar está vinculado com a criação de novas experiências, de forma a gerar mudança de comportamento, ou seja, consiste em um processo de mudança de valor mensurável, ou valor percebido. 

Inovação constitui processo coletivo e colaborativo com base em conhecimento, como afirmam Calle e Silva, autores focados em inovação como fomento para o desenvolvimento social. Desta forma, a inovação se torna uma vantagem competitiva no mercado. Não porque lançou um produto novo para consumo, mas, sim, porque a inovação gerou novos comportamentos coletivos que geraram algum tipo de transformação para o grupo, desta maneira, o grupo se apropria da inovação porque entendeu o seu valor. 

Não à toa, atualmente, várias empresas e instituições governamentais têm investido em laboratórios de inovação dentro de seus espaços, por entenderem que as ideias inovadoras, quando organizadas em grupo, podem gerar mudanças significativas na instituição. Aliás, esse é um ponto muito importante no processo de inovação: é preciso pensar no processo COM as pessoas. 

Muitas vezes, o processo de inovação é bem elaborado e com boas intenções, mas não gera engajamento e, por isso, as pessoas não conseguem perceber o seu valor, pois foi organizado no modelo “de cima para baixo”, ou seja, não foi feito de maneira coletiva e colaborativa. Esse é um tipo de resultado que muitos laboratórios de inovação também vêm vivenciando ao longo dos anos. 

Apesar da ótima intenção e trabalho, os labs têm sido vistos como um lugar isolado, que somente ali que pode acontecer a inovação, o que é um grande equívoco. Os labs de inovação devem ser vistos como espaços abertos para co-construção, e um lugar livre para experimentações que, muitas vezes, não podem ser vivenciadas no cotidiano da empresa. No entanto, a principal função do lab deve ser também de transformar essa realidade para que essa cultura de inovação faça parte da organização e não apenas daquele espaço. 

Ser criativo e gerar inovação está muito mais ligado a um modelo mental (mindset), mais alinhado à atitude proativa de exploração e curiosidade sobre o desconhecido, e o desenvolvimento de habilidades de co-criação no coletivo em busca de transformação. Tudo parece mais difícil na teoria que na prática. No fundo, esses dois conceitos já foram vivenciados por todos em algum momento, seja nos negócios, nas instituições públicas, em um jeito diferente de aprender nos estudos em grupo ou em uma nova aventura na cozinha. A diferença está em mapear esses processos, fazê-los conscientemente e utilizar o poder do SIM quando uma nova oportunidade experimentação invadir a sua zona de conforto. 

*Leila Ribeiro é facilitadora e mentora da Comunidade Ei!, Professora de Design na Universidade de Brasília (UnB), cofundadora e CEO da Sala