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Correio Braziliense EMPREENDEDORISMO FEMININO

Quais são os desafios das empreendedoras no Brasil?

Cerca de 24 milhões de mulheres estão abrindo seus negócios no Brasil, mas os desafios são inúmeros e comuns a empreendedoras de Brasília. Conheça as histórias de mulheres que vêm fazendo a diferença na cidade


postado em 06/03/2020 17:51 / atualizado em 06/03/2020 18:44

Texto: Carla Moura*

 

 

 

Para muitas mulheres, empreender representa poder trabalhar com o que gosta, realização de um sonho e a conquista da independência financeira. O Brasil é o sétimo país com maior número de empreendimentos femininos em fase inicial no mundo. No entanto, são várias adversidades enfrentadas pelas mulheres na hora de abrir um négocio. Com linhas de crédito mais caras, muitas precisam enfrentar uma jornada dupla de trabalho e lidar com a insegurança e o machismo institucional. 

 

O empreendedorismo feminino vem se solidificando no Brasil. Movidas pela necessidade, as mulheres participam cada vez mais de espaços antes ocupados por homens. Em 2019, as mulheres foram responsáveis por 25% das empresas abertas, segundo dados da empresa Contabilizei. Até o final de outubro do ano passado, o aumento foi de 18%, em relação ao mesmo período de 2018, de acordo com a Receita Federal, representando metade dos MEI (Microempreendedores Individuais) existentes no país.

 

A discriminação no mercado de trabalho, falta de oportunidade e incentivo são as principais dificuldades na hora de as mulheres empreenderem. Correspondendo a 34% do número de donos de negócios em 2019, segundo informações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE).

 

Levantamento do Instituto Rede Mulher Empreendedora, de 2019, mostrou que o perfil da empreendedora brasileira é de mulheres acima dos 30 anos, casadas e mães. Metade dos negócios tem faturamento mensal de até R$ 2.500. As empreendedoras são cada vez mais as principais fontes de renda familiar, ou chefes do lar, e escolhem empreender por causa da flexibilidade do tempo, para cuidarem da casa e dos filhos. Como resultado, passam 18% menos tempo em seus negócios em comparação com os homens. 

 

Os dados do Sebrae ainda mostram que 55% das mulheres trabalham de casa e apenas 19% delas têm sócios. A geração de emprego é baixa: 60% dos negócios gerenciados por mulheres não possuem empregados, porém diante da contratação, há uma preferência em contratar outras mulheres.  

 

As pesquisas mostram ainda que 49% dos empreendimentos femininos são abertos sem um planejamento preliminar. A insegurança na hora de planejar ou tomar uma decisão financeira exigem uma busca por auxílio técnico para o desenvolvimento e superação dos obstáculos. 

 

As mulheres no Brasil são parcela importante da das pequenas e microempresas. A versatilidade, resiliência, capacidade de atuar de forma polivalente, sensibilidade e o  poder de conciliação são as características positivas da mulher no mercados corporativo. As empreendedoras vêm conquistando espaços antes segmentados para o gênero masculino, sejam no comércio, no varejo, na indústria ou nos negócios digitais. E isso ressalta a importância do enfrentamento ao machismo, assim como gerar uma rede de apoio que auxilie e capacite as mulheres no momento de empreender. 

 

EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA

 

Muitas empreendedoras buscam capacitação para domínio de seu negócio, um local onde possam obter informações de finanças, como planejar um negócio, marketing, negociação e vendas. Para uma educação empreendedora efetiva e prática, um ambiente acolhedor pode auxiliar no desenvolvimento de novas habilidades e competências e motivar novas descobertas. Pensando nisso, os empreendedores do Distrito Federal podem contar com o programa da Fundação Assis Chateaubriand, a Ei! Comunidade de Empreendedorismo Inovação. 

 

Criada em 2017, a Comunidade Ei desenvolveu o curso Jornada Ei, que promove conexões e prepara o empreendedor para o mercado, de forma humana e ao mesmo tempo técnica, num ambiente dinâmico onde a metodologia é a prática. Incentivando o autodesenvolvimento, a Jornada Ei já teve 4 turmas que auxiliaram, de forma criativa e inovadora, os participantes a analisar e validar sua ideia de negócio.

 

Além disso, em 2019, o programa levou esse aprendizado para alunos de 6 Centros Olímpicos e Paralímpicos, localizados em regiões de vulnerabilidade social no Distrito Federal. Essa oportunidade de desenvolvimento recebeu o nome de Curso Agora Vai.

 

Conheça as histórias de três mulheres que passaram pelas experiências de educação empreendedora da Comunidade Ei e estão fazendo a diferença no mercado brasiliense.

 

Oportunidade de bem-estar para idosos

(foto: CARLA MOURA/FAC)
(foto: CARLA MOURA/FAC)
 

 

A empreendedora Mari Lêmos resolveu que era o momento de apostar em algo novo, que mudaria a vida das pessoas da capital federal. Aluna da turma HX2 da Jornada Ei, chegou ao curso com muitos projetos. Mas foi ao observar a ausência de pessoas maiores de 60 anos em ambientes frequentados por jovens, e a falta de projetos que promovessem qualidade de vida para esse público específico, que desenvolveu o seu empreendimento.


Pensando no futuro, nasceu em 2018 o negócio Sixty Move, que propõe a ocupação de espaços e quebra de barreiras para idosos. O movimento surge como um agente agregador que desenvolve palestras e oficinas com especialistas em psicologia e coach. No projeto, são desenvolvidas atividades com o corpo, como pilates e tai chi chuan, além de trabalhos voltados para arte, palestras e oficinas com o novo. É o caso do programa Conecta 60, desenvolvido dentro da Sixty, que usa a tecnologia para informar.


Por já vir de experiências que deram certo, Mari relata que houve uma resistência e estranhamento iniciais ao novo modelo de negócios, durante a Jornada Ei. Após 30 anos na área, teve que pensar fora da caixa e reaprender a planejar novas propostas e novas fórmulas, além dos formatos tradicionais. A profissional já considera voltar para uma próxima turma, para ver o que há de novo.  


Massoterapia que vai além  

 

 

Outra iniciativa que mudou a forma de empreender em Brasília foi o curso Agora Vai, realizado pela Fundação Assis Chateaubriand em parceria com a Secretaria de Esporte e Lazer do Distrito Federal. O curso foi oferecido de forma gratuita a adultos matriculados em atividades físicas nos Centros Olímpicos e Paralímpicos de Ceilândia (Parque da Vaquejada e Setor O), Riacho Fundo I, Samambaia, São Sebastião e Sobradinho. 


O curso ajudou 64 alunos a planejar e calcular os riscos de seus empreendimentos, como foi o caso da participante Ana Vale. A massoterapeuta, conta que foi empurrada  a empreender por necessidade após ter que parar de trabalhar logo no início de uma gravidez de alto risco. Após voltar, um ano depois, a clínica tinha fechado a área de massoterapia.


Ela conta que foi motivada a abrir a seu próprio empreendimento pela antiga chefe, o que mudou a sua vida, pois ela teve que aprender a gerir um negócio, lidar com finanças, fornecedores, clientes e agenda, tudo sozinha. 


Ana Vale conta que o curso Agora Vai foi um divisor de águas na sua vida. Mostrou que ela precisava não só focar nos estudos da sua área de atuação, mas expandir os conhecimentos para melhorar o negócio. As metodologias utilizadas de Canvas e Design Thinking a ajudaram a entender os clientes e a visão geral da empresa, trazendo mais organização, o que vem ajudando na expansão do empreendimento.  

 

Acolhimento para recém-mães 

 

 

Para Aline França, a decisão de empreender veio com a maternidade. Foi após o nascimento da segunda filha, há 5 anos, que tomou a decisão de trabalhar com uma assistência integral às mães desde a gravidez até o pós-parto. Hoje a profissional atua como doula focada no pós-parto, consultoria em amamentação, laserterapia na amamentação, arte gestacional e facilitadora do método Dance Mãe e Bebê.


A doula conta que pensar a vida de autônoma e deixar o trabalho formal foram as principais dificuldades de empreender, mas acreditar no seu trabalho a fez conseguir parcerias e hoje já vê os frutos do seu negócio. Participante da turma HX4 da Jornada Ei, Aline conta que o cenário empreendedor feminino é uma repetição da sua história. “As mulheres, depois que se tornam mães, passam a enxergar o mundo com outros olhos e, por muitas vezes, não se identificam mais com a área na qual elas estavam antes. Aí traçam outro caminho, algumas por afinidade e outras por necessidade”, observa Aline.


A Jornada Ei a ajudou a colocar o foco empreendedor no seu negócio. Mesmo com as ferramentas e conhecimento na sua área, o empreendimento não tinha se tornado efetivo, com trabalhos esporádicos e sem foco. Participar do curso lhe proporcionou as ferramentas de negócio que a ajudaram a analisar e planejar seu projeto de forma funcional e rentável. A doula afirma que a jornada ainda não terminou e acredita ser preciso se reinventar, aprendendo coisas e ferramentas novas. 



*Estagiária sob a supervisão de Camila de Magalhães