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Correio Braziliense

Diversidade auxilia mulheres na construção da identidade

A saída para quebrar os vieses inconscientes negativos é o conhecimento, segundo Mariana Deperon, sócia-fundadora e CEO da Consultoria Tree Diversidade de educação de gênero


postado em 02/04/2018 19:23 / atualizado em 10/04/2018 21:59

"Na infância, se a menina tenta liderar, é chamada de mandona. No trabalho, se defende com vigor seus pontos de vista, é chamada de agressiva. Se bem-sucedida, o sucesso raramente é consequência da inteligência" - Mariana Deperon, CEO da Consultoria Tree Diversidade (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 
Os desestímulos são grandes para as mulheres que decidem enfrentar os desafios. Triunfar diante de empecilhos requer firmeza de propósitos e entendimento dos meandros do competitivo mercado de trabalho e das mensagens instintivas ocultas (suas e dos outros), responsáveis pela negação ou aceitação pública de preconceitos e discriminações — pano de fundo dos argumentos e justificativas que afastam o público feminino da vitória. As próprias mulheres, involuntariamente, praticam contra elas uma espécie de autoflagelação psicológica que as cega na análise de suas capacidades. São os “vieses inconscientes”, explica Mariana Deperon, sócia-fundadora e CEO da Consultoria Tree Diversidade de educação de gênero.

Os velhos e ultrapassados hábitos são tão alicerçados na alma que poucas se dão conta de que distribuem — e bebem — o veneno que mata o espírito empreendedor: o imaginário da submissão da mulher e a autopiedade, que fazem com que a superação de problemas se torne mais difícil, ou até impossível. A saída para quebrar os vieses inconscientes negativos é o conhecimento. É a percepção de que diversidade não significa porta aberta para desigualdade e de que ninguém tem que desistir de uma carreira produtiva porque engravida, menstrua ou tem TPM, afirma a executiva. Aos 39 anos, Mariana trabalhou em grandes empresas do mercado financeiro, com muito sucesso e reconhecimento profissional, até ter seu bebê.

Ao retornar da licença maternidade, foi demitida. Esse choque a fez entender que “pode e tem direito de ser respeitada nas suas especificidades de gênero”. Mudou de rumo. Foi trabalhar com diversidade. Única no setor certificada pela Organização das Nações Unidas (ONU), Deperon criou a Tree Diversidade. Para provar que as fêmeas estão além do que imaginam, ela citou estudos que provam que as mulheres são 51,5% da população, 43% da força de trabalho e 66% da decisão de consumo. “Diante desse quadro, precisamos ser empoderadas ou o poder já está conosco?”, questiona Mariana. Ela está certa de que o poder “já está conosco”. O que atrapalha é o “viés inconsciente”.

Temos uma parte no cérebro (pré-córtex frontal) que não evoluiu com a tecnologia e que nos leva, em situações de medo ou de estresse, a avançar ou recuar. É também a parte que regula os estereótipos e enquadra atitudes e opiniões, armazenadas desde a infância, sobre o outro e sobre si. “Olhar a diferença fascina e dá medo”, destaca. Esse viés inconsciente, se não efetivamente corrigido, afeta ações e decisões da empreendedora. Ao abrir seu negócio, ela precisa, fundamentalmente, se perguntar o que quer, o que precisa para triunfar, quais são suas barreiras internas e externas. Atualmente, agem na contramão. Como enfrentam dificuldades tanto com homens quanto com mulheres, tendem a pensar que não podem (não têm o poder) e “não vão conseguir”.

Essas perspectivas são consequência de alguns fatos, aponta Mariana. As mulheres não foram preparadas para “a luta”. Foram ensinadas, desde pequenas, a serem bonitas “como a mamãe” e não inteligentes e corajosas, “como o papai”. Na infância, se a menina tenta liderar, é chamada de mandona. No trabalho, se defende com vigor seus pontos de vista, é chamada de agressiva. Se bem-sucedida, o sucesso raramente é consequência da inteligência. O destaque nos negócios se deve à sorte ou à ajuda de terceiros. 

A comemoração pelo Dia Internacional da Mulher, lembra Mariana, trouxe à tona uma série de discussões sobre direitos. Mas há poucos exemplos práticos para que as pessoas, de fato, se tornem agentes de mudança. Pesquisa recente da Tree em parceria com o Instituto Qualibest aponta que cerca 70% das companhias brasileiras não têm ações de diversidade de gênero. Apenas uma em cada cinco tem canal de denúncias para assédio. Outro dado que chama a atenção é a falta de conhecimento sobre diversidade: 87% dizem saber o significado de gênero. Mas apenas 16% o definem corretamente, sendo que 60% confundem gênero com orientação sexual. “Como queremos pensar diferente se só convivemos com os iguais? Temos que valorizar a diversidade”, destaca.

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