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Correio Braziliense

Transporte ferroviário movimenta PIB e prevê aporte de R$ 25 bi em cinco anos

Setor, que prevê investimentos de R$ 25 bilhões em cinco anos, pede regras mais claras e renovação antecipada de concessões


postado em 12/02/2019 11:46

"A greve dos caminhoneiros mostrou que é preciso depender um pouco menos do modal rodoviário e apostar em outras formas de transporte, como ferroviário e aquaviário" Fernando Paes, diretor executivo da Associação Nacional de Transportes Ferroviários (ANTF) (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
A greve dos caminhoneiros ocorrida em maio e junho de 2018 impactou fortemente a economia brasileira e escancarou a grande dependência do setor produtivo pelo transporte rodoviário. Por isso, o diretor executivo da Associação Nacional de Transportes Ferroviários (ANTF), Fernando Paes, destaca a importante da aplicação de recursos em outros modais. Segundo ele, caso o governo federal prorrogue projetos de forma antecipada, o Brasil receberá R$ 25 bilhões em investimentos nos próximos cinco anos. Mesmo assim, a quantia é insuficiente. Estudo da Confederação Nacional de Transportes (CNT) mostra que, para tornar o transporte ferroviário adequado às necessidades do país, seriam necessários investimentos de R$ 744 bilhões.

Paes afirma que o setor entrou em 2019 com boas expectativas. “O ministro (da Infraestrutura) foi nomeado de forma sem levar em consideração aquele presidencialismo de coalizão que tínhamos no Brasil há muito tempo. Houve uma nomeação técnica, e isso deixa claro que entramos neste ano com expectativas maiores do que tínhamos no passado”, diz. “Todo o novo governo acaba gerando expectativas boas, como os números (de confiança) mostram”, completa.

Na avaliação do diretor executivo da ANTF, a manutenção, no Ministério de Infraestrutura, de nomes de técnicos que atuaram nos últimos governos, demonstra a continuidade do trabalho. “Normalmente, um governo entra e cria uma nova política para investimentos”, ressalta. Assim, projetos importantes, muitas vezes já em andamento, acabam sendo interrompidos, provocando prejuízos desnecessários ao país. Felizmente, acrescenta Paes, “a expectativa é boa agora, por tudo que se tem sido lido. Sejam as intenções da equipe econômica, sejam as intenções da equipe de infraestrutura, tudo converge com o que o setor privado quer fazer, que é colocar os projetos de infraestrutura para funcionar”.

Acelerador


O setor ferroviário passou por um processo de desestatização no início da década de 1990, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Desde então, tem se expandido, mas ainda de forma insuficiente para atender às demandas do país. Paes ressalta que falta previsibilidade para a realização de negócios, o que é um tormento para o empresariado. “Mas temos uma janela de oportunidade. Há alguns meses, a greve dos caminhoneiros mostrou que é preciso depender um pouco menos do modal rodoviário e apostar em outras formas de transporte, como ferroviário e aquaviário”, defende.

Com a desestatização do setor ferroviário, seis empresas passaram a deter, juntas, 11 concessões. “De lá para cá, houve crescimento tanto de carga transportada quanto de distâncias percorridas e investimentos realizados, que apontaram um aumento exponencial. O crescimento médio foi muito superior à elevação do PIB nos últimos anos”, afirma Paes. Na década de 1990, havia 16 mil empregados trabalhando com o transporte ferroviário, hoje, são 40 mil. “E, normalmente, se trata de uma mão de obra qualificada, com média de salários maior, já que é preciso ter entendimento em tecnologia”, diz.

Apesar disso, a partir de 2015, houve queda nos investimentos devido à crise econômica — o país mergulhou numa das mais severas recessões da história — e aos vencimentos dos contratos de concessão. Segundo o diretor executivo da ANTF, diante desse quadro, “naturalmente, as empresas tiraram o pé do acelerador”, já que elas precisam de tempo suficiente para amortizar os investimentos.

Vocação


O aumento dos investimentos no setor é vital. Mesmo com todo o avanço dos últimos anos, o Brasil tem uma malha ferroviária de baixa densidade e extensão. “A matriz de transporte ainda está muito focada na rodovia. Recentemente, um dado do governo mostrou que o transporte ferroviário gira em torno de 15% de toda a matriz de transporte. Isso deveria, no mínimo, passar de 40%, considerando uma vocação forte para exportação de commodities”, afirma. Portanto, acredita ele, o Brasil não pode se contentar apenas com o que tem.

Paes avalia que nada indica que a retomada dos investimentos será feita com muita força — a não ser que ocorram mudanças estruturais no setor. Nos próximos cinco anos, caso haja redução de barreiras para os empreendimentos, será possível somar R$ 25 bilhões em recursos em cinco projetos de renovação antecipada de concessões. Além disso, ele cita projetos para expandir o setor, como a Nova Transnordestina, a Fiol, a Ferrogrão, o Ramal de Sorriso, a Fico e a FNSTC. Ele ressalta que o minério de ferro é o produto mais transportado por ferrovias, mas houve crescimento de grãos, como milho, soja e açúcar.

“Isso mostra o potencial de crescimento e de investimento nesse setor”, declara o diretor da ANTF. “O Brasil precisa ter uma regulação mais inteligente, mais racional. Devemos regular pelo resultado, e não pela forma. Uma série de normas precisam ser revistas. É preciso reduzir regulação para diminuir os custos. Dinheiro existe, mas é difícil colocar os gastos na rua, tirá-los do papel”, dada a estrutura atual, acrescenta.
 

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