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Correio Braziliense

Menos barreiras, mais abertura: governo quer reduzir entraves ao comércio

Governo fará uma ampla redução de entraves que impedem o incremento do comércio externo, mas de forma controlada


postado em 12/02/2019 12:12 / atualizado em 12/02/2019 17:32

"Se pegarmos a história do nosso país, desde a descoberta pelos portugueses até fevereiro de 2019, e excluirmos da economia os famosos ciclos da monocultura da exportação (café, cana, minerais), raramente identificaremos um momento em que se tenha mais de 30% do PIB representado pelo comércio exterior" Marcos Troyjo, secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
O Brasil é um país muito fechado e tem uma participação pequena no comércio internacional — as exportações representam apenas  1,2% do total mundial. Para mudar esse quadro, o governo pretende promover uma abertura significativa, que vai passar pela flexibilização das barreiras tarifárias, pela simplificação dos processos e maior exposição dos setores produtivos brasileiros no cenário global. É o que garante o secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo.

Ele faz um breve relato histórico para analisar os vários milagres econômicos observados no mundo nos últimos 70 anos. Os países que conseguiram mudar de patamar nesse período — Alemanha, Japão, Chile, CHina, Espanha, Cingapura e Coreia do Sul — conquistaram essa evolução com base nas relações internacionais. “Essas nações tiveram uma significativa parcela do seu PIB (Produto Interno Bruto) representada pela soma de exportações e importações. Esses países usaram o comércio exterior como ferramenta privilegiada da sua inserção global”, destaca.

Enquanto isso, compara Troyjo, outras nações permaneceram “ensimesmadas” com pequena parcela de comércio exterior, exportando e importando pouco, e pouca presença internacional, seja das suas empresas, seja de seus produtos e marcas. Esses países têm baixo crescimento, como o Brasil, a Argentina e, durante muito tempo, os da ex-cortina de ferro. “Se pegarmos a história do nosso país, desde a descoberta pelos portugueses até fevereiro de 2019, e excluirmos da economia os famosos ciclos da monocultura da exportação (café, cana, minerais), raramente identificaremos um momento em que se tenha mais de 30% do PIB representado pelo comércio exterior”, ressalta.

Segundo ele, o Brasil é um país muito ensimesmado. “Então, se é muito fechado, precisamos abrir. Mas o sucesso não é só pela abertura comercial. Precisa vir acompanhado de outras medidas”, assinala. Para compreender bem a situação, Troyjo afirma que é preciso considerar três compartimentos: conjuntura, estrutura e abertura. Na conjuntura atual, acrescenta, as circunstâncias apontam para a disputa comercial entre as duas potências China e Estados Unidos.

Gigantes


“Há quem diga que existe uma verdadeira guerra fria entre os dois países, no campo econômico. Mas o fato é que o alto grau de interdependência entre as duas economias é gigantesco”, diz Troyjo.  Os dois são os principais parceiros econômicos um do outro e também os maiores destinos dos investimentos diretos de ambos. “O que vemos é um processo de ajustes mútuos, com potencial de gerar conflitos para além da área comercial, mas, de certa forma, as relações vão se restabelecer.” Com isso, o comércio mundial voltará a crescer, projetou.

O secretário destaca que uma outra característica muito marcante dos tempos atuais é que os Estados Unidos são uma das principais potências reemergentes do mundo. “Aqueles que apostaram em um declínio vão se decepcionar. Se olharmos em 1945, os EUA eram os maiores produtores agrícolas do mundo e tinham mais de 50% dos produtos manufatureiro do planeta. Hoje, têm um pouquinho mais de 20%, há uma queda”, reconhece.

No entanto, emenda, o país ainda tem uma economia de US$ 21 trilhões e é responsável pelas ondas disruptivas de inovação mais importantes. “Os EUA vão continuar a ocupar, seja como motor, seja como arquiteto das relações internacionais, um papel muito importante. Então, na atual conjuntura, o Brasil não pode deixar de levar em consideração as relações comerciais com os EUA”, reitera.

O potencial não é só grande no comércio, mas também nas cooperações tecnológicas, joint ventures. “São as duas maiores democracias e economias do continente americano”, assinala Troyjo. Ele lembra que, em 1995, o Brasil exportava US$ 1 bilhão para os EUA e a China, também. “De repente, a China expandiu suas vendas exponencialmente, e o Brasil estacionou. Precisamos ter uma atenção muito especial com os Estados Unidos.”


Metamorfose


Troyjo também ressalta que o mundo teve uma mudança geopolítica, do Atlântico para o Pacífico, e não só por conta da ascensão da China, mas de outros gigantes asiáticos, como Índia e Indonésia, que têm crescido a uma velocidade muito acelerada. Ele diz que há em curso uma “espécie de metamorfose” da produção da China. O país asiático, explica, começa, cada vez mais, a empurrar para fora do seu território indústrias de menor valor agregado. Para os países vizinhos do Sudeste Asiático, isso significa crescimento econômico. “São nações que vão demandar mais commodities e alimentos. Isso vai oferecer grandes oportunidades para o Brasil”, sustenta.

A terceira tendência conjuntural, conforme o secretário, é a ascendência da indústria 4.0. Com isso, o grau de exigência ficou mais alto. “Portanto, o Brasil precisa tomar medidas importantes para competir nesse cenário”, esclarece. Apesar de apontar os novos focos do país, Troyjo pontua que não se pode ignorar outros mercados. “Há uma emergência da África e não podemos fechar os olhos para isso. Temos uma longa negociação com a União Europeia a partir do Mercosul. E nós próprios precisamos fazer ajustes à dinâmica do Mercosul”, enumera.

Inteligência comercial


Para o país se estruturar para a competição dentro do contexto apresentado pelo secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo, o governo vai focar em uma agenda de correção de equívocos do passado e de redução do Custo Brasil, que passa pelas reformas. Mas, também, promover uma melhor coordenação das instâncias governamentais e empresariais para lidar com os novos desafios do comércio internacional.

“Precisamos ter uma excelente área de inteligência comercial para construir estratégias. Por exemplo, precisamos  ter a capacidade de responder qual é a nossa política comercial para temas de propriedade intelectual do setor de serviços e definir nossa estratégia para mercado da Indonésia”, diz o secretário.

A formulação da coordenação interna, defende Troyjo, reside em definir o interesse nacional. “Sobretudo quando, do outro lado, se tem grandes atores como EUA, China e União Europeia. É fundamental a capacidade de negociação e de promoção comercial”, destaca. O Brasil pretende melhorar o sistema multiagências e participar de maneira efetiva do grandes contenciosos comerciais, revela.

Nesse contexto, Troyjo explica como pretende promover a abertura. “O comércio exterior do Brasil representa 23% a 25% da economia. Embora outros países tenham índices parecidos, como Japão e EUA, os dois fazem altos investimentos fora dos seus territórios e têm presença global das suas empresas”, explica. Enquanto isso, o Brasil é extremamente fechado por barreiras tarifárias, regras e burocracia, que serão combatidas, promete.
 
(foto: Arte/CB/D.A Press)
(foto: Arte/CB/D.A Press)
 

 

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