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Correio Braziliense

Tratamento de doenças como o diabetes depende do incentivo à pesquisa na saúde

Consultor técnico do Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde (Dgits) fala sobre a importância de tratar da parte financeira das pesquisas


postado em 16/08/2018 06:00 / atualizado em 16/08/2018 11:12

No auditório do Correio, interessados conheceram as descobertas sobre o combate à doença e a aplicação de novos procedimentos na rede pública (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
No auditório do Correio, interessados conheceram as descobertas sobre o combate à doença e a aplicação de novos procedimentos na rede pública (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

 
Daniel Zanetti Scherrer, consultor técnico do Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde (Dgits), participou do primeiro painel da manhã no Correio Debate — Acesso e Avanços nos tratamentos do diabetes, e ressaltou a importância de tratar da parte financeira das pesquisas. “É preciso entender que o dinheiro é limitado, novas tecnologias não significam aumento de orçamento. É preciso pensar nos custos de produção, mão de obra, capacitação e outras questões”, explica. O Dgits funciona como Secretaria Executiva da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), órgão que avalia projetos científicos na área de saúde e decide aprovar ou não a implementação no Sistema Único de Saúde.

Segundo o consultor, a criação da Conitec foi um dos principais avanços no âmbito da saúde pública, e, logo, do tratamento do diabetes, por considerar prioridade a produção e o fomento de estudos, além de otimizar a utilização dos recursos, padronizar métodos de avaliação e de documentos, estabelecer prazo para análises e permitir a participação social nos processos decisórios. Hoje, qualquer pessoa pode enviar uma solicitação para que o projeto seja analisado, basta possuir dois pré-requisitos: uma pesquisa científica embasada, que comprove a eficácia e o nível de segurança do processo; e um estudo de avaliação econômica, com uma relação detalhada de custos e eficiência. O processo dura 180 dias, podendo ser prorrogado por mais 90.

A avaliação é realizada por um plenário presidido pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde e composto por 13 representantes das demais secretarias da pasta, do Conselho Federal de Medicina (CFM), do Conselho Nacional de Saúde (CNS), do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e da Agência Nacional de Saúde (ANS). O projeto também fica disponível na plataforma oficial da Conitec, para que qualquer pessoa possa entrar e fazer uma revisão. “O ideal é que sejam profissionais do ramo de saúde, e que escrevam argumentos embasados, que sustentem sua opinião, mas todos podem e devem participar, para tornar o processo o mais democrático possível”, afirma Scherrer.

"É preciso entender que o dinheiro é limitado, novas tecnologias não significam aumento de orçamento. É preciso pensar nos custos," Daniel Scherrer, consultor do Dgits (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

 

Os quatro principais fatores analisados são o clínico (segurança, indicações, eficácia, efetividade, população beneficiada e demais resultados relevantes), o organizacional (difusão, logística, utilização, acessibilidade, capacitação de usuários e sustentabilidade), o paciente (impacto social, ética, aceitabilidade, relações psicológicas e conveniência), e, por fim, o fator econômico (custo/efetividade, custos de oportunidade e impacto orçamentário). Após o veredito, é publicada uma portaria de incorporação e são elaborados os protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas, que garantem o bom uso e aplicações corretas nos pacientes, com todos os cuidados necessários para que a implementação no SUS ocorra, com segurança, em mais 180 dias.

Este ano, a Conitec atualizou o protocolo de diabetes tipo 1 com educação em diabetes, insulinoterapia, automonitorização glicêmica, orientação nutricional e prática de atividades físicas e a incorporação da insulina ultrarrápida, avaliada em 2017. O protocolo de diabetes tipo 2 também está em fase de atualização, com a incorporação das canetas de aplicação de insulina, tanto a regular quanto a de efeito prolongado; antidiabéticos de uso oral, como a metformina, a glibenclamida e a gliclazida; e a empagliflozina, medicamento responsável pela inibição da proteína que reabsorve a glicose filtrada pelos rins, permitindo que boa parte dela seja eliminada na urina.

 

 

"A atividade física é um dos pilares para o tratamento do diabetes," Túlio Lins, professor da Unip (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

 

Exercício também é remédio

O combate ao diabetes não se faz somente por meio de medicamentos. Projeto de extensão da UnB comprova que práticas regulares de atividade física reduzem os índices glicêmicos e evitam complicações na terceira idade.

“A pessoa com diabetes tem de parar de ser estigmatizada como sofredora, pois as tecnologias disponíveis hoje permitem um alto padrão de qualidade de vida”, afirma o professor Túlio César Lins, doutor em medicina molecular da Universidade Paulista (Unip), câmpus Brasília. Ele é diretor-presidente da ONG Doce Desafio, uma associação sem fins lucrativos, com estatuto próprio e sede em Brasília. O objetivo da organização é atender pessoas com diabetes, intercalando aulas de orientação sobre o assunto e prática de atividades físicas.

O programa começou como projeto de extensão da Faculdade de Educação Física da UnB, criado pela professora doutora em educação física Jane Dullius, em 2001, para capacitar estudantes e profissionais de saúde visando o tratamento adequado do diabetes. São orientados estudantes das duas universidades fundadoras e outras que têm pesquisadores associados, como Unieuro, Iesb, Unip e Católica.

Já os diabéticos participam de um cronograma de atividades com duração de 1h50, três vezes por semana. São 10 minutos para recolhimento de dados clínicos; 10 minutos para exames de pré-intervenção para avaliar a tendência de a pessoa em fazer atividades físicas e em qual intensidade; 60 minutos de exercícios físicos orientados, com princípios de alongamento, musculação e atividades lúdicas; 20 minutos de atividades educativas sobre diabetes, momento em que são debatidas as diversas vertentes do cuidado com a doença; e mais 10 minutos para exames pós-intervenção, em que são avaliados glicemia, pressão arterial e outros fatores relevantes.

Ao longo de 17 anos, foram quase mil pessoas atendidas, sendo que 76% são do tipo 2, e 6% apresentam quadros de pré-diabetes, ou seja, uma tendência a desenvolver a doença. Mais de 60% são maiores de 40 anos, e 41% já está na terceira idade, todos com um dos dois quadros citados acima. Apenas 26% deles utilizam o sistema público de saúde, e a mesma porcentagem faz uso de insulinoterapia, enquanto os demais, medicação oral.

O acompanhamento constante dos pacientes permitiu uma ampla coleta de dados, que revelaram uma drástica redução dos índices de glicemia nos participantes do programa, tanto a curto prazo, logo após as atividades físicas, quanto a longo prazo, uma redução generalizada. O mesmo foi identificado com relação à pressão arterial e à qualidade de vida autorreportada.

“A atividade física é um dos pilares para o tratamento do diabetes, independentemente do nível em que a pessoa comece a se exercitar. Gera redução dos índices glicêmicos”, explica Túlio Lins. No entanto, alguns dos quadros de avaliação apresentaram picos pontuais de glicemia em finais de semestre, quando os pacientes costumam ter recesso. “Isso significa que diabetes não tem férias, é preciso ser acompanhada constantemente. Mas, tomando as medidas adequadas, os pacientes são capazes de fazer qualquer atividade”, completa. De acordo com o professor, o tratamento com atividades físicas reduz consideravelmente os riscos de complicações da doença, porém é preciso ser prescrito, orientado e supervisionado por um profissional de educação física.


ONG Doce Desafio

As atividades educacionais também fazem a diferença na vida dos participantes do programa. Foram indicados vários pontos de avanço: maior compreensão e adesão às várias esferas do tratamento, trazendo mais autonomia e segurança aos pacientes; aumento da vivência e da prática rotineira de atividades físicas de maneira adequada; adoção de hábitos de alimentação saudável, a partir da compreensão dos seus fundamentos; aumento e preocupação com autocuidado, gerando interesse por técnicas de enfermagem e terapia ocupacional; maior atenção no uso de medicações prescritas e maior respeito com as dosagens e indicações médicas. “Assim, fica claro que a educação associada à atividade física devam ser implementadas como ferramenta de saúde pública e que o atendimento de um profissional deva ser preconizado nos postos”, declara Túlio Lins, professor da Unip.


Conheça o projeto

O Doce Desafio funciona às segundas, quartas e sextas, no centro olímpico da Universidade de Brasília, das 10h às 12h, das 14h às 16h, e das 19h às 21h. Telefone: 3107-2555

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