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Correio Braziliense

Sem alimentação adequada, índice de diabetes é maior entre os mais pobres

População mais pobre não tem alimentação adequada, por falta de dinheiro. Não por acaso, índice de diabetes é maior entre esse público


postado em 16/08/2018 06:00 / atualizado em 16/08/2018 11:12

"Quem mora numa favela, vive no subúrbio de São Paulo, por exemplo, sai de casa às 4h. Pega um transporte urbano lotado, depois pega outro. Chega ao trabalho às 7h e, muitas vezes, o dinheiro que tem para comer dá apenas para um pastel e um suco. E aí falamos de alimentação saudável como se o Brasil fosse um país perfeito," Marco Antônio Fireman, secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

 

A condição social das pessoas é um empecilho para a prevenção do diabetes. Segundo o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Marco Antônio Fireman, o problema da doença não está relacionado apenas à incorporação de novos medicamentos, mas, também, à qualidade de vida da sociedade. O tempo para a atividade física e a oportunidade de alimentação saudável são essenciais para diminuir a incidência desse distúrbio.

Fireman diz que são registrados no Brasil cerca de 50 mil amputações por ano de membros inferiores devido ao diabetes. Isso resulta em uma alarmante estatística: o país detém o maior número de amputados do mundo sem levar em conta as nações em guerra. Segundo o secretário, não por acaso, a doença é o principal problema hoje na saúde brasileira, porque existem questões sociais envolvidas. “O diabetes está em alta No Brasil, pois muitos não se dão ao luxo de fazer atividades físicas, ter uma alimentação decente e uma vida capaz de controlar o diabetes”, afirma.

E, vai além: “Quem mora numa favela, vive no subúrbio de São Paulo, por exemplo, sai de casa às 4h. Pega um transporte urbano lotado, depois pega outro. Chega ao trabalho às 7h e, muitas vezes, o dinheiro que tem para comer dá apenas para um pastel e um suco. E aí falamos de alimentação saudável como se o Brasil fosse um país perfeito, equilibrado e tivesse todas as condições para a qualidade de vida”, destaca.

 

Sem infraestrutura

A falta de médicos também é algo que preocupa o secretário do Ministério da Saúde. Segundo ele, o programa Mais Médicos não dá conta de suprir as necessidades da população. “Para melhorarmos o atendimento básico, precisamos de médicos. Não temos profissionais que querem ir trabalhar no interior de Amazonas, no interior da região Norte, no semiárido nordestino, por exemplo”, afirma Fireman. “É preciso termos a carreira de medicina pública. Talvez, o ideal seria termos a definição, já no vestibular, a opção, quando a pessoa passa para medicina, se ela quer seguir carreira pública”, sugere.

O desinteresse por regiões mais remotas, destaca Fireman, ocorre porque, na maioria dos casos, os municípios não têm a estrutura necessária atrativa para profissionais da área. Por isso, ele aponta que não é possível competir com o mercado privado ou com os planos de saúde. “Se pegarmos o exemplo de um estudante, que paga R$ 7,5 mil por mês de faculdade de medicina, fica seis anos na graduação, mais quatro anos na especialização, ele não vai para uma cidade de cinco mil habitantes sem perspectiva de vida e crescimento profissional”, explica. “Então, não é possível levar serviço médico especializado para essas áreas, mas a atenção básica a gente consegue. Basta criar um modelo que priorize isso”, diz.

Mas é preciso agir com urgência. A projeção é de que, em 2030, mais de 40% da população esteja com 60 anos ou mais. Para Fireman, se o Sistema Único de Saúde (SUS) não se reinventar, não dará conta. “O SUS tem a responsabilidade perante a Constituição de ser universal e integral. E temos medicamentos fornecidos para todo o Brasil. Então, como o país é grande, a conta também é. E o orçamento não é definido pelo gestor, mas, sim, pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente da República”, afirma.

 

 

 

Dilemas

Fireman explica que, muitas vezes, o Ministério da Saúde é obrigado a fazer a “escolha de Sofia”. “O que precisa ser deixado de lado para se adotar um novo tratamento? É aí entra a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS). Se ela entendeu que esse novo tratamento vai resolver alguns problemas, o medicamento será aprovado. E por que demora tanto, questionam? Porque depois tem que escrever todo o procedimento, orientando como o médico vai usar o medicamento. Aquele remédio não será para todos, será para aquelas pessoas que precisam ser tratadas de forma especial”, explica.

O secretário ressalta que o Ministério da Saúde está disposto a discutir a entrada de remédios que melhorem o tratamento dos pacientes. Ele destaca, porém, que é preciso “conversar” com a indústria farmacêutica para tratar dos preços dos produtos. “Os valores praticados no Brasil estão chegando a um absurdo. Tem um medicamento sendo analisado para uma determinada doença que uma ampola custa R$ 300 mil. Não justifica”, alega. “Hoje, a nossa população está envelhecendo e vamos precisar de mais assistência, de mais medicamentos, de mais tratamento e de mais saúde. É um desafio grande para o SUS tornar-se mais eficiente e buscar tecnologia e alternativas para que consiga atender a demanda do Brasil”, acrescenta.

Na busca por avanços, o Ministério da Saúde está financiando uma pesquisa — já custeada em R$ 14 milhões — com 11 mil pacientes, que estão sendo acompanhados em vários municípios para entender o comportamento e o ambiente ao redor de cada um. “A pesquisa serve para compreender a influência do meio ambiente e do tipo de comportamento na saúde dos brasileiros. É muito importante termos estatísticas para tomar decisões corretas”, diz o gestor.

 

Porta de entrada

As Unidades Básicas de Saúde (UBS) são a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). Elas atendem até 80% dos problemas da população, sem que haja a necessidade de encaminhamento para outros serviços, como emergências e hospitais. Nos postos, há enfermeiros, dentistas e agentes de saúde. Eles são, em sua maioria, especialistas em medicina de família e comunidade, que fazem atendimento especializado em crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Lá, o paciente poderá fazer curativos, inalações, vacinas, exames laboratoriais, tratamento odontológico, receber medicação básica e outros procedimentos iniciais. No Brasil, existem 40,7 mil unidades em funcionamento.

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