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Correio Braziliense

Os desafios da democracia

A divulgação de informações falsas pela internet se torna uma ameaça ao sistema eleitoral de todo o mundo e é um desafio para o Brasil em 2018. Combate à prática, contudo, não é simples


postado em 08/06/2018 14:24

Torquato Jardim: ninguém manipula conteúdo sem gerar consequências(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Torquato Jardim: ninguém manipula conteúdo sem gerar consequências (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Diante do desafio representado pela divulgação de notícias falsas às vésperas de uma eleição curta e com a internet tendo papel de destaque, é necessário criar mecanismos para combater a divulgação de informações fraudulentas. As fake news, como são chamadas, interferem diretamente na democracia, que se vê ameaçada pela manipulação de conteúdos muitas vezes criados apenas para prejudicar alguém. Para debater o assunto, o seminário Correio Debate: Fake News — O Impacto das Notícias Falsas na Democracia contou com a presença de especialistas e autoridades, como o ministro da Justiça, Torquato Jardim, em uma tentativa de desenvolver estratégias úteis para as eleições de 2018.

Marcelo Vitorino, especialista em marketing digital e professor de marketing político da Escola Superior de Propaganda e Marketing, afirmou que os responsáveis por produzir e divulgar fake news são pessoas especializadas, que se dividem por setores para que as informações cheguem às pessoas escolhidas. “Não é impossível enfrentar as fake news, mas aquelas que são responsáveis por mexer em eleições são feitas por uma quadrilha especializada em elaborar o conteúdo, outra para organizar tudo e escolher a quem distribuir e, outra, para disseminar”, explicou.

O especialista criticou ainda o anonimato nas redes sociais. “A identidade do cidadão carrega direitos, mas traz deveres. Isso é cidadania. Não é algo unilateral, nem incondicional. Será que vale a pena a proteção extrema do anonimato? Enquanto essa definição não for tomada pelos órgãos competentes, como os de imprensa, não vamos evoluir nesse debate”, pontuou. Vitorino ressaltou ainda que, para quem compartilha fake news em cenário eleitoral, as multas podem chegar a R$ 50 mil. “É uma forma de educar o brasileiro”, completou.

Murillo de Aragão, membro do Conselho de Comunicação do Congresso Nacional, ressaltou o papel das notícias falsas na história política e social do mundo. Para o especialista, essas informações podem mudar o cenário político de um país. Ele mostrou-se confiante, contudo, observando que a luta contra o conteúdo fraudulento tem se intensificado em diversos setores da sociedade.

Conscientização

“As fake news vão continuar existindo, por isso é importante a conscientização da população. Não há tempo para evitá-las, porque não existe uma fórmula para tal. A produção, a transmissão, a distribuição e a recepção desse tipo de conteúdo são muito rápidas”, acrescentou. Aragão afirmou ainda que o Legislativo está atento ao assunto e, no Congresso, há, pelo menos, 14 projetos sobre o tema à espera de análise pelos parlamentares.

No debate, profissionais e professores discutiram os riscos das notícias falsas nas eleições de 2018(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
No debate, profissionais e professores discutiram os riscos das notícias falsas nas eleições de 2018 (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
O secretário de Estado de Comunicação do GDF, Paulo Fona, acredita, porém, que dificilmente o Brasil conseguirá acabar com as notícias falsas. Isso, porque, cada indivíduo que tem um smartphone tem potencial midiático nas redes sociais. Fona se diz “pessimista” quanto ao combate às fake news, mesmo que as autoridades produzam uma legislação específica na área. “Esse universo é mutante e, além de tudo, é uma plataforma em que internautas colocam suas opiniões. A linha entre repreender as fake news e limitar a liberdade de expressão é tênue. Não há, até agora, um instrumento concreto de defesa”, lamentou.

Fernando Paulino, diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), reforçou o importante papel da imprensa no combate às notícias falsas. O jornalista, contudo, afirmou que as autoridades não podem se apoiar apenas nos veículos de comunicação. “A missão da imprensa de colocar o poder público em xeque é essencial. Mas devem ser tomados os cuidados necessários para que ela se ampare na responsabilidade, como contrapartida à liberdade”, afirmou.

Além disso, Paulino ressaltou a responsabilidade da educação em instruir crianças e adolescentes a aprimorar a leitura crítica — principalmente neste ano de eleições. “Leitura e compartilhamento pelo celular exigem uso saudável, ligado ao treino para interpretação textual. Acho que, ao ler tudo no telefone, com a tela menor, compartilhamos de forma mais rápida, sem, porém, compreender o que isso implica”, acrescentou.

Ricardo Pereira, diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), explicou que a disseminação de fake news tem um agravante no Brasil, por ser um país onde as pessoas fazem largo uso das redes sociais. “Mais projetos de lei precisam ser examinados para buscar a criminalização dessas notícias”, disse.

Edgard Marsuki, fundador do site Boatos.org, passou a checar informações na internet desde 2013, porque ficava incomodado com a quantidade de notícias falsas propagadas pelo meio digital. Para o jornalista, o aplicativo Whatsapp vai ter papel fundamental nessas eleições. “Brasileiros usam o Whatsapp para se informar. Participam de grupos de futebol, da família, da igreja. Quando alguém próximo a você compartilha uma notícia, as chances de acreditar na informação são maiores. Você confia mais na pessoa do que, de fato, na notícia”, comentou.

O que assusta a população a respeito da internet, segundo Carolina Bazzi Morales, vice-presidente da Associação Brasileira dos Agentes Digitais (Abradi), é a rápida inovação das ferramentas que pouca gente tem capacidade de analisar. “A novidade assusta o público. Já houve falta de controle maior entre os internautas. Mas acredito que o cenário, em breve, trará uma situação melhor”, disse.

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