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Correio Braziliense

Educação é peça chave para crescimento econômico, afirma diretor do SENAI

Modelo brasileiro está totalmente defasado. Não por acaso, 77 milhões de adultos não têm ensino médio


postado em 21/12/2018 11:42

"Não conseguimos estabelecer uma articulação entre o projeto de país e o sistema educacional. Isso se constituiu num grave problema" Rafael Lucchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )

 

O Brasil precisa avançar rapidamente na melhoria de educação se quiser, algum dia, ter níveis de desenvolvimento próximos aos de países mais ricos. Hoje, qualquer que seja o indicador avaliado, a situação do ensino é dramática, mesmo havendo algumas ilhas de excelência. Na avaliação do diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Rafael Lucchesi, enquanto não houver empenho de toda a sociedade para tornar a educação uma peça chave para o sucesso da nação, o Brasil continuará com baixo nível de crescimento econômico. Para ele, a aprendizagem e o contato com a inovação permitem a formação de profissionais mais capazes de alcançar as soluções do dia a dia.


O atraso do Brasil impressiona, sobretudo, porque, entre 1930 e 1980, o país foi o que mais cresceu no mundo. Lucchesi explica que todo o processo de expansão ocorreu em cima de uma “narrativa liderada pela industrialização”. “Nós perdemos essa hegemonia de desenvolvimento industrial na virada dos anos de 1970 para os de 1980. Nossa taxa de crescimento se tornou a metade da dos países desenvolvidos. Se, antes, estávamos emparelhados a essas nações, depois, o fosso se abriu. Nos últimos 40 anos, os países que mais cresceram foram os que adotaram uma moderna plataforma de manufatura”, diz.

 

"Nós temos um exército de nômades que não quer aprender, não tem bons hábitos de trabalho e não quer adquirir" Cláudio de Moura Castro, economista e professor (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )
 

Saldo dramático

Por isso, Lucchesi avalia que a discussão sobre a hegemonia e o projeto de país é fundamental para alterar o modelo que vem sendo adotado. “É algo muito superior à discussão de um ou de outro instrumento de comércio exterior (como a redução das tarifas de importação proposta pela equipe econômica de Jair Bolsonaro)”, diz. “É preciso fazer uma discussão da educação para que, de fato, dialogue com o projeto de país”, completa. O diretor do Senai foi relator das diretrizes curriculares da reforma do ensino médio, aprovada durante o governo Michel Temer.


Nos últimos 20 anos, mesmo com o Brasil triplicando o gasto nacional com educação e quadruplicando as despesas per capita, os resultados não são animadores. A produtividade está praticamente estagnada. “Não conseguimos estabelecer uma articulação entre o projeto de país e o sistema educacional. Isso se constituiu num grave problema”, afirma Lucchesi. “Temos um grave problema de qualidade insatisfatória. O sistema educacional brasileiro é recente. Fizemos a nossa revolução industrial, mas, diferentemente, de outros país, não fizemos, simultaneamente, um sistema de educação de massa”, acrescenta.


O Brasil atingiu sete anos e meio de escolaridade média da população adulta no século XXI, enquanto os países desenvolvidos alcançaram esse nível no início do século XX. “Temos 100 anos de atraso em relação às sociedades desenvolvidas. Se educação é o pilar fundamental da sociedade, a longo prazo, terá papel decisivo na produtividade do trabalho”, ressalta. Lucchesi lembra também que a universalidade do sistema educacional só foi atingida em 2015.


"Toda revolução tecnológica implica no surgimento de novas ocupações e no desaparecimento das velhas. No resultado líquido, o emprego aumenta" André Portela, professor de Políticas Públicas da Escola de Economia de São Paulo da FGV (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )

 

O diretor-geral do Senai alega ainda que há 77 milhões de brasileiros adultos sem o ensino médio completo. “Isso é absolutamente dramático”, alerta. Na opinião dele, a falta de uma revolução educacional e as políticas públicas adotadas fizeram com que haja muito mais transferência de recursos públicos para idosos do que para jovens no Brasil. “As transferências para a educação de jovens no Brasil são transferências familiares. Numa sociedade de profunda concentração de renda, você cria uma ausência de oportunidades e de mobilidade social de maneira flagrante”, argumenta.


Apenas 53% dos brasileiros com 19 anos de idade concluem o ensino médio. Entre os mais ricos, são 79%, enquanto que, entre os mais pobres, desce a 36%. Sobre a educação profissional, Lucchesi destaca que ela fornece mais chances de empregabilidade e renda. Por isso, deve ser incentivada, especialmente diante do assustador nível de desemprego entre os jovens. Enquanto o patamar geral da economia está em torno de 11%, o índice sobe para 30% entre os mais novos.