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Correio Braziliense

Tratamentos contra o câncer avançam, mas custos são altos

Técnicas de combate garantem sucesso em muitos casos, mas é preciso barateá-las. Imunoterapia surge como opção


postado em 02/10/2018 18:37

"Estamos vivendo um período de muita excitação na oncologia. De uma década para cá, nosso entendimento da biologia do câncer avançou substancialmente", Romualdo Barroso, oncologista clínico do Hospital Sírio Libanês de Brasília (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Oncologista clínico do Hospital Sírio Libanês de Brasília, Romualdo Barroso diz que a imunoterapia abriu uma nova frente de batalha contra o câncer. Segundo ele, diferentemente dos tratamentos que já são utilizados, os chamados inibidores de checkpoint imunológico não buscam as células do tumor e, sim, as células do sistema imune. “O checkpoint combate o câncer por meio do sistema imune adaptativo, que tem a vantagem da adaptação e da memória no corpo do paciente”, explica.

No entender dele, esse é um momento importante para a medicina. “Estamos vivendo um período de muita excitação na oncologia. De uma década para cá, nosso entendimento da biologia do câncer avançou substancialmente, graças às novas tecnologias de sequenciamento do DNA e também do melhor entendimento do papel do sistema imune”, afirma. “Nós, pesquisadores, começamos a identificar que existiam genes alterados e que esses genes eram muito importantes no desenvolvimento do câncer. A partir daí, começamos a modular tratamentos por meio da imunoterapia”, diz.

O médico ressalta, porém, que esse tipo de tratamento ainda é caro e precisa ter seu custo reduzido para ser viabilizado na rede pública. Segundo ele, a imunoterapia diminuiu a exposição dos pacientes aos riscos do tratamento, pois permite a escolha correta para enfrentar o câncer. Ele alerta ainda que, o tratamento exige paciência.

"Hoje, temos mais entendimento de como fazer e de como usar. Conseguimos fazer uma seleção de doador com uma taxa de incompatibilidade menor", Fernando Blumm, especialista em transplante de medula óssea e terapia celular do Sírio-Libanês de Brasília (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Poder das células-tronco

O uso de células-tronco tende a ser uma das técnicas mais promissoras no tratamento do câncer, defende Fernando Blumm, especialista em transplante de medula óssea e terapia celular do Sírio-Libanês de Brasília. A técnica trata doenças oncológicas como a leucemia e os mielomas, mas também males como aplasia de medula, talassemia, anemia falciforme e imunodeficiência. “Hoje, temos mais entendimento de como fazer e de como usar. Conseguimos fazer uma seleção de doador com uma taxa de incompatibilidade menor”, avalia.

As células-tronco são encontradas no sangue, em ossos longos e no sangue do cordão umbilical. “Existe a possibilidade de o doador e o receptor ser a mesma pessoa, podem ser pessoas diferentes (familiares, amigos ou desconhecidos), podem ser gêmeos com o mesmo código genético ou com o sangue do cordão umbilical”, esclarece.“O paciente não precisa ir para centro cirúrgico, não se perfura o osso. Não injetamos sangue no osso do paciente. Colocamos (a célula-tronco) no sangue periférico, e ela repovoa o sistema imunológico. Esse é um tipo de célula que sabe onde deve estar”, diz.

Fernando ressalta a importância do transplante como possibilidades de tratamento. “Estamos cientificamente mais preparados para indicar o tratamento e em qual momento. Conseguimos prevenir a rejeição e mitigar as infecções oportunistas”, diz.


"É um desafio oferecer para todos esses tratamentos. Os arsenais de remédios ficaram mais abundantes, mais efetivos, mas também mais caros", Martin Bonamino, pesquisador do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e da Fiocruz (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Reduzir preço é desafio

A medicina tem avançado em relação ao tratamento de doenças como o câncer. No entanto, segundo Martin Bonamino, pesquisador do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e da Fiocruz, as novas terapias apresentam um grande desafio. Ao mesmo tempo que trazem benefícios para os pacientes, provocam toxicidade financeira, por serem muito caras. “É um desafio oferecer para todos esses tratamentos. Os arsenais de remédios ficaram mais abundantes, mais efetivos, mas também mais caros. Por outro lado, temos um desbalanço no que se gasta no setor público, de cerca de 46%, contra o que é gasto no setor privado, de 54%”, diz.

Ele explica que, em confronto com os outros países, o Brasil gasta praticamente um sexto do que se gasta no Reino Unido com tratamento de câncer. O pesquisador observa que a maneira como os gastos são feitos tem um reflexo negativo para o paciente do hospital público, que pode acabar tendo um desfecho mais desfavorável se certas tecnologias não forem incorporadas.

O custo de terapias mais avançadas pode chegar a alguns milhares de reais por mês, com o tratamento sendo necessário por vários meses ou anos.  “Isso, acompanhado de exames de monitoramento, que também são muito caros, pode levar a um custo astronômico por paciente”, diz. 


Depois de uma longa batalha, a vitória

Os cabelos caíram durante o banho. Ela se desesperou. Foi amparada pela filha de 18 anos. Depois, tomou a decisão de raspar a cabeça. “Meus cabelos eram na altura do quadril, lisos e escuros”, conta a ex-operadora de caixa Andreia Cristina da Silva Camelo, 39 anos. Faz um ano que ela descobriu um câncer na mama.

“Não foi fácil. A primeira coisa que a gente pensa é que vai morrer. Me desesperei. Estou vencendo a cada dia”, diz a moradora de Samambaia Sul. Ela terminou, recentemente, a quimioterapia. Já havia passado por uma cirurgia e concluído a radioterapia. “A minha cunhada teve leucemia. Ajudei muito durante o tratamento dela. A força que ela teve me amparou muito”, conta.

Hoje, ela carrega lições que leva para a vida. “O amor, o carinho e o afeto também curam. Eu me dei a oportunidade de conviver mais com as pessoas que gosto. Saio mais, conheço mais seres humanos incríveis e vivo melhor a vida”, detalha. Descobrir um câncer na idade adulta já é complexo, na infância, vencer a doença é ainda mais delicado. Em janeiro deste ano, a vendedora Tuany da Silva Santos, 27, recebeu o diagnóstico da filha Ana Teresa, 4. Leucemia. “Foi um choque muito grande. Ela nunca havia adoecido gravemente”, lembra.

Até então, Tuany tinha pouco conhecimento da doença. “O meu maior medo era de que ela morresse. Mesmo sabendo de que a chance de cura era de 80% , o sofrimento foi enorme”, ressalta. Tuany morou dois meses no Hospital de Base, onde a filha se tratou. 

Mesmo enfraquecida pela doença, a garota não desanimava. “Quando ela me via chorar dizia ‘não chora, vou tomar remedinho e vou ficar boa, mamãe’, e isso me tocava muito”, conta. A menina não frequenta a escola, ainda passa por tratamento. Hoje, corre, dança e espalha alegria por onde passa.

Para superar o drama do câncer, cada paciente encontra seu modo para reunir forças. A família de Andreia vive em São Paulo. A ausência dos parentes fez com que ela buscasse na fé o que lhe faltava. “Pensava em Deus a todo momento. Acreditava que eu sairia daquela situação. Pouco a pouco fui me fortalecendo. A distância da família era complicada, mas, aos poucos, fui encontrando amigos, me integrando à igreja e construindo novos laços”, conta.

Todos que conhecem Ana Tereza admiram como a menina venceu o câncer. A garotinha manteve a alegria mesmo nos momentos mais delicados do tratamento. “Tenho gratidão pela forma que me ajudou a superar a doença. Passar o que ela passou e ainda sorrir é um estímulo para continuar vivendo. Fiquei mais forte depois de conviver com a força dela. Mesmo em situações difíceis para uma criança, ela sorria”, lembra a mãe, Tuany.

"O amor, o carinho e o afeto também curam. Eu me dei a oportunidade de conviver mais com as pessoas que gosto. Saio mais, conheço mais seres humanos incríveis e vivo melhor a vida”
Andreia Cristina da Silva Camelo, ex-operadora de caixa

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