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Conheça mais das experiências entre pais e filhos e dicas de como aproveitar essa data tão especial.

Correio Braziliense TÍTULO

A gestação do amor

Eles podem não sentir as mudanças no corpo, mas compensam com uma participação ativa do momento em que recebem a notícia da gravidez até a chegada do bebê. Conheça a geração de homens que exigem protagonismo na criação dos filhos


postado em 12/08/2018 07:00 / atualizado em 12/08/2018 07:24

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Há quem diga que a mulher se torna mãe assim que engravida. As mudanças no corpo dela forçariam o sentimento de amor e de responsabilidade pelo bebê. De acordo com esse pensamento, o homem só se tornaria pai quando tivesse o filho nos braços e a paternidade fosse, finalmente, o mais literal possível. Por muito tempo, as coisas foram assim. Mas, para o bem das mães, dos filhos e também dos papais, as coisas estão mudando.

A educadora perinatal Andressa Bortolasso, autora do livro Sintonia de mãe, trabalha com gestantes, pais e bebês há quase 20 anos e conta que, no início da carreira, era comum pais não participarem das consultas de pré-natal nem pesquisarem sobre a gravidez, o parto e a amamentação.

“Antes, para o pai, enquanto o bebê estava na barriga da mãe, a vida mudava pouco. Afinal, ele não sente mal-estar, nem vai passar por uma experiência física que pode ser assustadora. De uns tempos para cá, já existe uma forte tendência de os pais exercerem a paternidade desde a gravidez.”

Para a educadora, a mudança veio de forma inversa. Primeiro os pais começaram a dividir melhor as responsabilidades com os filhos e, consequentemente, passaram a pegar um espaço importante na gestação. “Hoje, muito pai chega do trabalho e vai conversar com o bebê na barriga. Eu trabalho também com aconselhamento na amamentação e muitos participam da consulta. Querem que dê certo. Antes, para eles, tanto fazia”, comemora Andressa.

São pais que criam vínculo com os bebês ainda na barriga, à medida que acompanham consultas e exames do pré-natal, que se emocionam com as batidas do coração, que cantam pertinho da barriga e até fazem cursos sobre como cuidar do neném em seus primeiros dias e meses e também da mulher no puerpério. Quando o bebê nasce, o amor já havia sido cultivado, e o vínculo está construído.

Papel fundamental

Para a obstetra Carolina Amorim, o pai tem um papel de extrema importância na hora do parto. Ela explica que, antigamente, era comum a mulher ser amparada por outras mulheres, como a mãe e a avó, enquanto o homem ficava do lado de fora aguardando o nascimento do filho, o que hoje tem mudado, com a participação dele em todo o processo.

De acordo com Carolina, o pai pode ajudar tanto fisicamente, apoiando o corpo da mulher e usando técnicas para aliviar a dor, quanto emocionalmente, dando amparo e força. A obstetra afirma que, além de ajudar a esposa, a presença ativa dele no parto é fundamental para o bebê. “Estar a família completa para a chegada do bebê é uma conexão indescritível.”

Cuidado desde a barriga

Para o advogado Bruno Rangel, 36 anos, o exercício da paternidade não começou quando Isaac nasceu. Quando ele ainda estava na barriga da mulher, a servidora pública Natascha Barreto, 33, Bruno sentia a responsabilidade de ajeitar tudo para a chegada do bebê e de se preparar para ser o melhor pai possível. Natascha sentia no corpo e na prática as mudanças; Bruno, na alma. “Eu pesquisava sobre o parto, acompanhei consultas e exames, fiz curso no hospital.”

Durante o parto — normal e no hospital —, ele não saiu do lado de Natascha. “Foi um momento que nos fortaleceu como casal. A gente passa a admirar ainda mais o outro”, garante a mulher. Bruno conta que ficou assustado de vê-la sentindo tanta dor, mas fez de tudo para não transparecer e não deixá-la ainda mais nervosa. Mas conversava com a médica para ter certeza de que estava tudo dentro do que se espera.

O advogado contava as contrações e massageava as costas de Natascha quando veio a pergunta: o que ele achava de ela tomar anestesia. “Foi quando eu disse que era uma decisão dela, mas que, se fosse comigo, eu já teria tomado”, relata.

Dono do próprio escritório, conseguir tirar alguns dias de licença-paternidade dependia de Bruno. Precisou de um esforço e de uma organização ainda maior — além do companheirismo da equipe — para tirar algumas folgas quando estivesse, finalmente, com o filho em casa. Conseguiu uns dias a mais levando trabalho para casa. Fazendo home office, ficava sempre perto da mulher e do bebê.

Rotina 

Como tantos outros bebês, Isaac, hoje com 4 meses, ganhou um uniforme do Fluminense, time do coração do pai, antes mesmo de nascer. Mas a influência maior de Bruno diz respeito aos cuidados e ao carinho com o filho: troca fralda, dá banho, faz dormir e, agora, sonha em começar a ensiná-lo a jogar bola e a compartilhar algumas das coisas que fazia com o pai, como andar a cavalo e curtir o mato.

A rotina é quase sempre a mesma: Isaac mama de madrugada e acorda por volta das 6h. É quando Bruno pega o filho e deixa a mulher dormir um pouco. Às 9h, ela acorda, assume os cuidados e ele vai trabalhar. O retorno é, no máximo, às 19h, para poder dar banho em Isaac. “Minha maior frustração é quando chego depois das 20h e ele já está dormindo.”

Para o futuro, Bruno planeja: “Não importa se ele vai ser médico, advogado ou o quê. O que importa é ser uma boa pessoa e isso depende, principalmente, do exemplo que eu e a mãe dele damos. Então, a forma de ver a vida muda completamente. Hoje, dou ainda mais valor aos meus pais”.

"Não importa se ele vai ser médico, advogado ou o quê. O que importa é ser uma boa pessoa e isso depende, principalmente, do exemplo que eu e a mãe dele damos"
Bruno Rangel, advogado 
 
Pronto para a mudança

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Basta descobrir que tem um bebê a caminho que as mulheres começam a se preparar para a vinda do neném. Decoração de quarto, enxoval, consultas de pré-natal e até cursos para gestantes dominam a rotina das futuras mamães. Porém, elas não estão sozinhas nessa, os papais também estão arrumando um jeitinho de se preparar melhor para a chegada do filho.

O advogado Thiago Martins, 31, é pai de primeira viagem e já está contando os dias para o nascimento de Júlia. O parto está previsto para setembro e, enquanto o grande dia não chega, ele se planeja para receber a pequena. Para isso, as atividades estão indo muito além da decoração do quarto e das compras de roupinhas.

Para ajudar a esposa, a enfermeira Luana Martins, 28, Thiago fez um curso para gestantes com ela. “Eu já tinha uma visão que minha participação era tentar facilitar o processo do parto natural. Agora eu aprendi os instrumentos para isso”, afirma.

No curso, aprendeu sobre os cuidados com o neném, recursos para facilitar o parto, técnicas de modulação da dor, entre outros conteúdos importantes. Segundo Lissandra Souza, sócia-proprietária do Nascentia, a procura de homens pela capacitação tem crescido e isso tem refletido não só na participação ativa durante o nascimento como nos futuros cuidados com o bebê. “A rede de apoios das mulheres não está mais como antigamente, que precisava da mãe, da avó ou das amigas. Hoje em dia, o marido ocupou esse lugar”.

Thiago conta que fica surpreso com o estranhamento das pessoas diante de sua atitude. Para o advogado, as informações são fundamentais para entender melhor a gestação e saber como agir na sala de parto. “Eu não acho que mereço elogio. Faço algo normal, que todos deveriam fazer e que provocaria essa ressignificação dentro da sociedade, essa interpretação diferente do papel entre o pai e a mãe no compartilhamento do cuidado”, destaca.

Segurança para a mãe

A iniciativa de Thiago, sem dúvidas, tem deixando a mulher segura de que tudo ocorrerá bem. “Quando a gente descobriu a gravidez, foi uma alegria dos dois. A partir do momento em que ele ficou sabendo, sempre esteve ao meu lado, me acompanhou em todos os exames. As consultas não são minhas, são nossas”, frisa Luana.

Ela enfatiza que o marido se organizou no trabalho para poder auxiliá-la melhor nos primeiros dias de vida de Júlia. Thiago ressalta que sempre apoiou a igualdade na licença-paternidade e maternidade. “Esse foi o tema do meu trabalho de conclusão de curso (TCC), como uma forma de reduzir a discriminação de gênero contra a mulher no mercado de trabalho. Eu acredito que grande parte dessa visão que a gente tem vem da questão de colocar todas as obrigações em cima da mulher”, comenta.

Assim, baseados no companheirismo e no compartilhamento das obrigações, Thiago e Júlia seguem contando os dias para a chegada de Júlia. O papai garante que vai fazer de tudo para merecer o papel fundamental que tem na vida da pequena e não esconde a ansiedade à espera da garota. “Eu nunca mais consegui dormir como eu dormia antes. Minha expectativa agora é poder fornecer todos os instrumentos para ela ser feliz.”

A missão continua

Pai experiente, Antônio Hilário curte os caçulas, Manoela e Murilo, ao lado de Elis(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Pai experiente, Antônio Hilário curte os caçulas, Manoela e Murilo, ao lado de Elis (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Os cabelos grisalhos do corretor de imóveis Antônio Hilário Salvador, 66 anos, dizem muito sobre sua experiência de vida. Pai seis vezes, sempre foi proativo na vida dos filhos. O primeiro veio aos 35 anos, seguido de mais três bebês, frutos do primeiro casamento. Os pequenos cresceram com ele, uma experiência que hoje ajuda na criação dos caçulas, Manoela, 2 anos, e Murilo, 3 meses.

A administradora Elis Salvador, 43, esposa de Salvador, afirma que não tem do que reclamar. Ela destaca que o corretor sempre foi um pai presente e a acompanhou durante todo o processo de gestação dos dois filhos do casal, inclusive nas consultas de pré-natal.

No nascimento da Manoela, Salvador surpreendeu a todos. Elis entraria na sala de parto com uma doula, que a ajudaria no processo, mas na hora não teve jeito, o instinto de pai falou mais alto que o medo de agulha e sangue. Salvador, então, vestiu a capa de superpai, encarou o medo e acompanhou a esposa. “O médico perguntou quem ia entrar e eu me ofereci. Participei de todo o parto e em nenhum momento me senti mal, não sei de onde veio essa força.”

Na vinda de Murilo, Salvador já estava mais tranquilo e, assim como no parto de Manoela, acompanhou tudo de pertinho. Mas a missão de superpai não terminava mesmo por ali; afinal, longas madrugadas estavam a caminho. A regra é clara: se Elis acorda para amamentar o bebê, Salvador acorda junto para colocar o garoto para arrotar. “Dar de mamar tem que ser ela de qualquer jeito, mas, depois, eu posso ficar com ele. Ela já passa a maior parte do dia com eles, à noite tem que descansar”, diz.

Tarefa dos dois

E os cuidados não ficam apenas nas madrugadas. O casal afirma que compartilha todas as tarefas que envolvem as crianças. “Procuramos sempre fazer as coisas juntos, seja para ir a um médico, seja a um passeio’, comenta Salvador.

Bastam alguns minutos ao lado da família para perceber o cuidado do pai com os filhos. Enquanto conversava com a equipe da Revista, Salvador arrumava delicadamente os cabelos da pequena Manoela. Para eles, parceria nessa hora é tudo. “Não teria Manoela e Murilo tão bem, se eu não tivesse o meu marido me apoiando em tudo, em todas as horas”, garante a administradora.

De segunda viagem

Amauri Diniz divide com Paula Larissa os cuidados com Mariana e Davi(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Amauri Diniz divide com Paula Larissa os cuidados com Mariana e Davi (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Davi, de 7 meses, é o segundo filho do bancário Amauri Diniz, 47. A primeira foi Mariana, 7. Ser pai de segunda viagem é mais fácil, mas não significa estar livre de inseguranças. Ele participou dos dois partos, mesmo “não aguentando” ver sangue. Já tinha combinado com a mulher, a dentista Paula Larissa Diniz, 35: “Aonde levassem o bebê, eu iria atrás. Fomos à salinha, onde limpam, cortam o resto do cordão umbilical”. No nascimento de Davi, o corte foi feito por ele. No de Mariana, a emoção tomou conta e, nervoso, não conseguiu.

As tarefas com Mariana sempre foram divididas. “Aqui não é questão de ajuda, mas de divisão de responsabilidade”, difere Amauri. Com o segundo filho, não seria diferente. Apesar da experiência prévia com a filha, Amauri teve mais uma ajuda: um curso de paternidade responsável, oferecido pelo Sindicato dos Bancários. Dividido em uma parte on-line e uma presencial, o certificado lhe garantia uma extensão de 15 dias na licença-paternidade. “Nós sempre temos o que aprender e também a ensinar para outros pais. Eles batiam na tecla de que a licença era para cuidar e não para folgar”, explica.

Se depois do nascimento da primogênita, o casal foi da maternidade para a casa da sogra, onde permaneceu por 15 dias; no segundo filho, foram direto para casa. Menos nervosos, mais experientes e cheios de amor, eles se viraram na companhia um do outro. “Ser pai é uma experiência maravilhosa. É um amor totalmente diferente, que não se sente por ninguém”, emociona-se.

Licença estendida
Há cerca de dois anos, o Sindicato dos Bancários, em convenção nacional, conseguiu a mudança da licença-paternidade de cinco dias para 20. Para ter alguma garantia de que os pais tirariam dias a mais para, de fato, cuidar do recém-nascido, a extensão foi condicionada à participação dos pais em um curso de paternidade participativa oferecido pelo sindicato. “Fizemos um convênio com o SUS e com o BRB Saúde e conseguimos que viessem obstetras e enfermeiras especializadas para ensinar”, conta Teresa Cristina Mata Pujals, secretária de formação do órgão.