O artista massacrado pela indústria cultural. A imaginação fértil no roteiro do videoclipe. A sedução do corpo em movimento. O mundo da música seria outro se um certo Michael Joseph Jackson não houvesse personificado, na intimidade e na exposição, o mito da estrela pop. A obra, porém, não é simples fator na construção da persona. Em 10 de agosto de 2009, Off the wall completará 30 anos. Apenas um clássico de carreira tão superlativa quanto o título de Rei do Pop.
[SAIBAMAIS]Não fosse o quinto álbum solo de Jackson, Off the wall seria o big bang de império construído sob as bases do sucesso do grupo vocal Jackson 5. Até então, o público ainda se lembrava de Jackson como um garoto que havia encantado o planeta com a voz fina e afinada em discos solo como Ben (1972). Um prodígio de linhagem de talento nato. No terceiro, Forever, Michael (1975), ainda se observava Jackson um jovem ainda atrelado ao formato familiar.
Off the wall vendeu 15 milhões. Bateu quatro vezes o topo da Billboard. Ao promover um saboroso encontro entre a dance e a soul music, redefiniu a cara do pop para os anos 1980. Se hoje a indústria fonográfica sofre para arrancar vendagens que alcancem de 50 a 100 mil, em 1982, Thriller instigou o mercado a desejar somatórios gigantescos. O disco, de batidas fortes e guitarras empostadas, tem estimativas que chegam à marca de 104 milhões de cópias. Um artista adulto e amadurecido provava que caminhava bem ; até melhor ; com as próprias pernas.
E que pernas! Elvis enlouqueceu com sua pélvis dourada. Movimento de um branquelo que quebrava tabus e permitia excitação feminina visível e descontrolada. Michael Jackson foi além: botou a mão ;naquilo;. A sexualidade enrustida, como com Elvis, transbordou em um público sedento pela combustão explosiva. A moonwalk (passo de lua) sacramentou a virada no jeito de se apresentar diante de uma plateia. Entrava em cena o espetáculo da música pop.
Bad, de 1987, novamente acentuou a vocação. De caso com a estética do rock, ele apostou numa postura máscula. Nada ordinário, Jackson fez do palco escola para as rodas de break. Preparou os shows como se fossem peças de teatro ; com cenário e figurino. O terninho de calça apertada e jaquetas em estilo militar mudavam de cor de acordo com as novas fases, cada vez mais visíveis.
Filme de terror
O videoclipe de Thriller levou a classe artística a pensar além do básico. O filminho despertou no público vontade de consumir mais do que uma banda ou um artista estáticos em frente à TV. A Music Television, que nasceu em 1981, fez sentido a partir da exibição de um Jackson nada bonzinho (e bem vampiresco) três semanas antes do Natal de 1983.
Mais: Thriller (o disco) ainda ofereceu outros marcos nessa maneira diferente de produzir videoclipes ; com histórias de começo, meio e fim ; como Billie Jean e Beat it. Antes, Don;t stop ;til get enough, de Off the wall, já estilizava o glamour do popstar de brilhos e paetês.
Jackson não inventou a celebridade solidária. Mas em 1985, quando se juntou com Lionel Richie e uma penca de artistas para o megassucesso We are the world, em prol das crianças carentes da África, maculou o isolamento do artista-gênio. Incitou a vergonha entre os seres de um Olimpo capaz de fazer a caixa registradora gritar repetidamente. Herói entre as celebridades do século 21, Bono só faz sentido porque antes Jackson levou a classe artística a pensar além do próximo disco. E hoje, com o mercado fonográfico em ritmo de falência, os videoclipes perdendo espaço na tevê e a fabricação e decadência de estrelas do pop, sua morte soa quase como provocação.