Diversão e Arte

Entrevista - Gonçalo Júnior, autor do livro O mocinhodo Brasil - A história de fenômeno editorial chamado Tex

postado em 07/07/2009 08:01

Principal referência brasileira no estudo das HQs na atualidade, o jornalista baiano (radicado em São Paulo) Gonçalo Júnior é conhecido pela pesquisa minuciosa. Ele é autor, por exemplo, do essencial A guerra dos gibis (Cia. das Letras, 2004), sobre a chegada e as primeiras cinco décadas das histórias em quadrinhos no Brasil. Seus mais recentes livros são O mocinho do Brasil - A história de fenômeno editorial chamado Tex, sobre a trajetória no Brasil do caubói italiano mais famoso dos quadrinhos, e Vida traçada - um perfil de Flavio Colin que, como o nome sugere, aborda vida e obra do roteirista e desenhista carioca Flavio Colin (1930-2002).

Quais foram as informações mais difíceis de conseguir ou de confirmar a veracidade para o livro do Tex?
O livro, na verdade, foi escrito em 2002 para um álbum que saiu pela Opera Graphica no mesmo ano. Na época, a idéia era comemorar os 50 anos de Tex no Brasil. Mas, na minha pesquisa, descobri que o herói tinha chegado ao país um ano antes, pela editora RGE, de Roberto Marinho. Assim, saiu meio esquisito: 51 anos comemorados como se fossem 50. Na época, os dois maiores desafios foram ter acesso à coleção completa da revista Júnior (nas qual as primeiras aventuras do herói foram publicadas no Brasil) e entrevistar alguém que tivesse participado de sua produção na década de 1950. Consegui os dois propósitos. Entrevistei Getúlio Delphim, que fez inúmeras capas da revista. Essa edição da Opera, por critérios editoriais da empresa, saiu com apenas 20%, ou menos, do que eu havia escrito.

É possível traçar um perfil do leitor de Tex?
Antigamente, dizia-se que o leitor de Tex era o sujeito de pouca instrução, mal remunerado, que mora, em sua maioria, na periferia das grandes cidades ou no interior. Wagner Augusto, editor de Ken Parker (caubói italiano mais sofisticado que Tex) no Brasil, convenceu-me que não. O mailing de compradores dele tem uma maioria formada por médicos, engenheiros, arquitetos e outros profissionais mais qualificados financeira e profissionalmente. O leitor de Ken Parker, no geral, gosta de Tex. Portanto, prefiro dizer que o fã do herói é o sujeito que adora faroeste em todas as suas formas de expressão ; filmes, livros, gibis etc.

Quanto tempo passou trabalhando no livro do Tex?
Devo ter levado uns seis meses na primeira versão. E passei mais quatro revisando e atualizando a nova edição.

Quais você considera as principais informações de seu livro e por quê?
Este livro é uma provocação minha aos prepotentes e arrogantes metidos a entendidos de quadrinhos no Brasil. São os caras que consideram Tex um subproduto descartável, algo consumido por leitores pouco letrados. Quem disse isso não passa de um babaca arrogante e preconceituoso. E como tem tipinhos assim no meio dos quadrinhos. E como tem! Ora, Tex é melhor e mais divertido do que a maioria dos super-heróis produzidos atualmente. Eu queria cutucar esses caras: ;olha aí, aquele herói que vocês tanto desprezam é ótimo e se constitui um fenômeno editorial no Brasil;. Portanto, acho que esses são os dois aspectos mais importantes da obra.

Para quem quer começar a ler o Tex, qual o melhor caminho? Quais das várias publicações mensais do herói é a melhor porta de entrada?
Eu começaria pelas edições históricas, mais volumosas, com historias completas. Depois, iria para a Tex Coleção, que publica o herói cronologicamente.

E das edições antigas, quais valem a pena procurar?
É uma característica editorial de Tex, inclusive na Itália, a republicação das melhores e mais antigas historias. Assim, é fácil encontrar material de qualidade no que está sendo republicado, sem quebrar a cabeça ou ser explorado por donos de sebos. A não ser que se queira ter as coleções completas.

Você considera seu livro sobre o Flavio Colin mais um perfil que uma biografia propriamente dita. Você faz planos de, futuramente, escrever um livro maior sobre ele?
[SAIBAMAIS]Eu adoraria. Este livro tem formato e características específicas para a edição que saiu porque se trata de uma obra pensada para a editora do meu querido amigo Henrique Magalhães, da editora Marca de Fantasia, conhecida por fazer livros impecáveis, porém no processo bem artesanal. Eu havia prometido um livro a ele porque somos grandes amigos, começamos juntos fazendo fanzines na década de 1980. Era um sonho ter um livro pela editora dele. Tanto que eu sugeri a obra. A partir disso, sabia das limitações editoriais quanto ao volume de texto e número de páginas e ilustrações. Aí, procurei seguir esses preceitos. Tenho material sim para fazer um volume bem maior. Tenho o maior orgulho do resultado, acho que ficou redondo.

Você diz que Colin é um dos maiores da HQ de todos os tempo. Por que o considera dessa forma?
Colin, (Júlio) Shimamoto e (Cláudio) Seto são os maiores artistas de quadrinhos do Brasil em todos os tempos por causa de sua completude como artistas: vanguarda, talento, visão de mercado, domínio da técnica narrativa dos quadrinhos, comprometimento com a arte e paixão pelo que faz. Poucos se aproximam deles, tanto da nova quanto da velha geração. Colin, em especial, vivia intensamente essa arte, o que o levou a fazer boa parte das poucas obras-primas que temos nos quadrinhos. Agora, gostar do traço dele é uma outra discussão. Alguns resistem por causa do seu estilo personalíssimo e desvinculado a modismos das mais diferentes épocas.

Os últimos anos viram algumas publicações de Colin. Acredita que ele já teve o merecido reconhecimento? Se não, acredita que, pelo menos, ele vem recebendo mais apreço por parte dos leitores mais novos, que não conheciam seu trabalho dos anos 1970, 1980?
Colin é uma unanimidade entre quem ama quadrinhos e os respeita como arte. E a garotada também curte muito o que ele fazia. E o que ele fazia estava voltado para esse público, em especial, embora seu propósito fosse chegar à essência dos quadrinhos como entretenimento de massa. Ele conseguia isso com o terror, que fazia para sobreviver. Aliás, tudo que fazia virava clássico. E, por mais sofisticado que fosse, nunca deixava cair o nível.

Quais as principais obras de Colin e por quê?
É a pergunta mais difícil desta entrevista. Eu citaria tudo que ele fez de terror na década de 1960 para a Outubro e a D-Arte nos anos de 1980. Ou as aventuras dos heróis radiofônicos e televisivos O Anjo e Vigilante Rodoviário. Mas lembraria dos quadrinhos de sexo da Graficar ou a série Vizunga, para a Folha de São Paulo. Só que lembraria dos quadrinhos gauchescos que criou para a cooperativa de Brizola, entre 1961 e 1964. Bom, não poderia esquecer tudo que criou sobre as lendas do folclore brasileiro ; muitas foram publicadas recentemente. Enfim, é por isso que afirmo ser ele um dos maiores autores do mundo de todos os tempos, entende?

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