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Correio Braziliense

A vez dos compositores eruditos

A cidade é terreno fértil para a produção clássica feita por estudantes e professores, às vezes mesclada com a modernidade do jazz ou da bossa nova


postado em 19/07/2009 08:00 / atualizado em 19/07/2009 13:21

Que Brasília produz rock e choro, todos sabem. Mas a cidade conhecida por aí como celeiro de guitarras e bandolins é também terreno fértil de produção erudita. Afinal, aqui o compositor Claudio Santoro fincou a batuta ao fundar a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional e o Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB), na qual lecionava composição.

Deixou sementes, assim como Jorge Antunes, nome de ponta na música eletroacústica brasileira e professor de composição na UnB desde 1973. Parte da trupe de compositores eruditos contemporâneos da cidade emergiu profundamente marcada pelas ideias plantadas por Santoro, morto em 1989. Alguns foram seus alunos, outros alunos de seus alunos e uns poucos seus colegas.

Muitos podem não ter a influência musical do maestro, mas surgiram na esteira de sua iniciativa em atender à demanda de formação em composição na universidade. Parte, no entanto, bebe em outras fontes, como o popular, ou veio de outras cidades, com outras influências.

 

O certo é que a maioria transita por todos os estilos — jazz, bossa nova, música dodecafônica, classicismo, ritmos latinos ou nacionais —, mas sempre retorna à complexidade da teoria para compor a forma final. O Correio saiu em busca desses compositores para mapear a gama de notações que formam a trilha da produção erudita em Brasília.

 

Sérgio Nogueira, 49 anos
Estilo: erudito, formalista com espaço para neoatonalismos
Atuação: professor de composição na Universidade de Brasília (UnB)
Peças: Prelúdios para piano (gravada em disco de compositores da UnB), Cinco movimentos para orquestra de cordas (vencedora do concurso de composição da Orquestra da Universidade de São Paulo no fim dos anos 1980) e Duetos para violino (gravada pelo Duo Magyar)
» Nogueira foi aluno de Santoro, de quem herdou influências, mas também cita Igor Stravinsky e Béla Bartók, dois revolucionários da música do século 20. “Cada vez mais me sinto inclinado a compor uma música que está a meio caminho entro o erudito e o popular usando a complexidade da música erudita”, conta. “Se for só baseado no erudito, fica isolada, o público é muito restrito.” O sustento de Nogueira vem do ensino. A composição é o respiro do artista, que escreve para os alunos e sob encomenda. “Se um músico te solicita uma peça é porque ele vai tocar. É um modo seguro de ver sua música executada.”

Joel Barbosa, 51 anos
Estilo: erudito, com inserções de música popular e jazz
Atuação: coordenador do núcleo de compositores e arranjadores da EMB e diretor da Orquestra Cristã de Brasília
Peças: Impromptu (apresentado no curso de verão da EMB em 2005), Sie (composição dodecafônica tocada no Auditório Dois Candangos), Introspecção (cuja estreia foi com a Orquestra Sinfônica de Matanzas, em Cuba)
» Quando criança, Barbosa ouvia a mãe escrever arranjos para o coral da igreja e começou a perceber as várias camadas de instrumentos nas músicas. Se encantou. “Me fez perceber a tridimensionalidade do músico. Pensar a coisa, sentir, colocar no papel e ouvir tocar! Legal! Tá na marca do pênalti. É só chutar”, brinca. Ex-aluno de Jorge Antunes, ele descreve a música que compõe como cinza, aveludada, porosa e sensual, sem extremos, sempre circulando entre os muito graves e muito agudos sem nunca chegar às pontas das escalas. Composição, para ele, faz parte do universo de arranjador.

 

- Ouça entrevista com Joel Barbosa e trechos de composições de Conrado Silva (Campo de Batalha) e Sérgio Nogueira (Prelúdio para Piano)

 

Marcus Cohen, 32 anos
Estilo: serial, minimalista
Atuação: clarinetista da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (OSTNCS)
Peças: Três peças orquestrais (tocada pela Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz, em Belém, e gravada em disco da Secretaria da Cultura do Pará), Suíte econômica (tocada pela OSTNCS em 2005 e gravada em disco independente), Andarilho (apresentada pela Filarmônica da Universidade do Missouri, dos EUA, em 2004)
» Cohen começou a compor aos 21 anos por estímulo de professores. Formado em Belém, ingressou na OSTNCS em 2005 e suas peças já fizeram parte do repertório da própria orquestra. Atento para a música paraense, escreveu as Três peças orquestrais inspirado pela descoberta de canções inéditas do compositor paraense Waldemar Henrique. O estilo lembra o impressionismo francês, mas Cohen transita por searas variadas. “Minha música é uma representação da produção musical de século 20. Minhas peças giram em torno do atonalismo, do neoclassicismo, do serialismo.”

Conrado Silva, 89 anos
Estilo: eletroacústico
Atuação: professor de composição na UnB
Peças: Espaços habitados (ópera eletroacústica encenada no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, em 1992), Celebração (para coro e sintetizador, apresentada em 1973 na Catedral), Brinquedos (apresentada no Museu de Arte de Brasília, em 1971, e em São Paulo, Peru e Montevidéu)
» Nascido no Uruguai, Conrado está em Brasília há 39 anos. Ajudou a montar o laboratório de eletroacústica da UnB em parceria com Santoro e Jorge Antunes e escreveu mais de 70 composições, a maioria eletroacústica. Hoje, lamenta a timidez dessa área na universidade. “Ninguém leciona música eletroacústica porque a maior parte dos alunos de composição quer música popular. Isso cria um ciclo. Como não se oferece, a pessoa não conhece. E como não conhece, não pede.” O hábito de escutar música eletroacústica em salas de concerto praticamente não existe no Brasil. Conrado costuma apresentar suas obras em festivais dedicados ao gênero ou como acompanhamento de peças de teatro ou dança.

Kátia Almeida, 48 anos
Estilo: baseado na narrativa
Atuação: professora da Escola de Música de Brasília (EMB), fundadora da Orquestra de Senhoritas
Peças: Singelo (escrita para Orquestra de Senhoritas), O vento (para tuba e piano, composta a pedido de um amigo), Suíte infantil (conjunto de 12 peças), Fantasia (variações sobre Peixe vivo feitas para a inauguração do Memorial JK)
» Para Kátia, a composição não é a montagem de um quebra-cabeças de sonoridades mas a arrumação de ideias pré-existentes. Suas peças nascem de imagens e, por isso, são quase narrativas sonoras. “Meu processo é muito visual. As ideias vêm e procuro descrevê-las”, conta a compositora, que é também arranjadora. “Arranjo também é uma espécie de composição, você tem que inventar frases e melodias inteiras.”

Marco Aurélio (Marco AB Coutinho), 57 anos
Estilo: moderno e ritmado
Atuação: professor aposentado da EMB
Peças: Lux eterna e O magnum misterium (gravadas pelo Madrigal de Brasília), Quarteto nº 1 (gravado pelo Quarteto Varadinum, na Romênia), Três danças folclóricas sul-americanas
» Autodidata, Marco Aurélio já compôs um total de 165 obras. A maioria integrou repertórios na Romênia, onde participa com frequência do Festival de Música Clássica Brasileira. “Aqui, dificuldade é o pessoal se interessar por tocar. Sempre dizem que é muito difícil. Na Romênia, ninguém mais quer saber de Beethoven ou Mozart, eles querem ver o músico vivo.” Marco Aurélio não recorre a nenhum compositor para falar de suas referências. “Não tenho nenhuma influência. Minha música é moderna, com muito ritmo e alguns temas brasileiros”, diz o compositor, que trabalha numa ópera encomendada pelo Teatro da Ópera Húngara, na Romênia.

Rodrigo Lima, 33 anos
Estilo: dissonante, contemporâneo
Atuação: professor de composição na Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim
Peças: Quinteto para sopros nº 2 (premiado no 6º Festival de Música Instrumental Brasileira), Nomos (premiada no Concurso Nacional Camargo Guarnieri de Composição), Matizes (premiada no 17º Prêmio Jovens Compositores em Madri)
» Ex-aluno de Jorge Antunes e Sérgio Nogueira, Lima começou a compor por necessidade intelectual em 1999. Desde então, suas obras foram tocadas em festivais e até pela Osesp, a orquestra mais importante do país. Em 2008, foi compositor residente do 5º Fórum Internacional de Jovens Compositores (França). “Ouço diversos gêneros de música e aprendo muito com todos eles. Adoro moda de viola, jazz, compositores contemporâneos europeus. Meu trabalho é resultado dessa diversidade”, diz o músico, que pretende voltar a morar em Brasília.

Francisca Aquino, 53 anos
Estilo: erudito e popular
Atuação: professora da EMB e pianista de duo com o contrabaixista Ricardo Vasconcelos
Peças: Gosto de Brasil (partitura publicada pela editora Ludwin Music e gravada pelo Duo Ludmila Vinecka e Elza Gushikem), Sweet suite (menção honrosa no Concurso Internacional de Composição da International Society of Bassists).
» Francisca foi aluna de Camargo Guarnieri na Universidade Federal de Goiás, onde fez parte da formação. O contato explica a proximidade com o ritmo popular. “Esses dois universos se interpenetram. Ernesto Nazareth é erudito ou popular?”, questiona Francisca, que gravou disco de arranjos do mestre do choro e compôs a primeira valsa aos 7 anos. “Dei de presente para meus pais e não mais escrevi até 1999. Nesse ano, obedecendo a impulso absolutamente irresistível, isolei-me em Santa Teresa (Rio) e comecei a escrever.”
 

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