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Correio Braziliense

Mulheres que se destacaram tocando instrumentos considerados "masculinos" provam que talento independe de sexo


postado em 22/07/2009 07:45 / atualizado em 22/07/2009 07:56

A música tem a essência feminina. Não só na delicadeza da sua sonoridade ou no fervor da emoção, mas sobretudo na etimologia. Sua origem remete ao grego “a arte das musas”. Musas como Luciana, Walesca, Zoraima e tantas outras. Mulheres que se destacaram nesse meio por um diferencial: tocam instrumentos estereotipados como masculinos.

Daniela volta à cidade para três noites no Clube do Choro(foto: Clau Pomp/Divulgação)
Daniela volta à cidade para três noites no Clube do Choro (foto: Clau Pomp/Divulgação)
“O mercado está se abrindo, a sociedade está mudando. Não existe mais a máxima de que mulher tem que tocar só piano, violino. Mesmo em instrumentos considerados ‘masculinos’ como a tuba, a trompa ou a percussão, é possível encontrar grandes artistas mulheres. Ainda são poucas, mas, as poucas que têm, dão show”, assegura o trombonista e chefe do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB), Alciomar Oliveira.

A carioca Daniela Spielmann, que se apresenta esta semana no Clube do Choro é um desses casos. Quando tinha 16 anos, assistiu a um show do saxofonista Milton Guedes. Se encantou pelo instrumento. Hoje é uma das referências no país quando o assunto é sax. “O fato de eu tocar saxofone não tira a minha feminilidade. O instrumento é apenas uma forma de expressão de sentimento. Isso independe de sexo”, acredita.

Mas mesmo assim, há muitas instrumentistas que estão cansadas de ouvir: “Ah, mas até que você toca direitinho, né... “Não é que você tem talento!” “Acham que pelo fato de eu ser mulher, não vou dar conta do recado. Ainda tem muito disso”, garante a trompista Walesca Santa Cruz, 34 anos. Pianista quando criança, ela teve que abandonar o instrumento devido a uma tendinite. “Nunca vou me esquecer quando o médico disse: ‘Por que você não toca flauta?’ Como se fosse fácil largar o piano, em que eu estudei durante 10 anos”, lembra. Mas o fato é que a música a chamava e ela acabou sendo “escolhida”, como gosta de destacar, pela trompa, instrumento musical de sopro da família dos metais.

“Na época em que fui estudar na Escola de Música não havia nenhuma trompista. Hoje tem, mas ainda são poucas. Comecei a me encantar porque o instrumento exigia mais de mim em termos de sonoridade, de ouvido. Além do mais, o piano é fixo, não se pode levar para qualquer lugar. A trompa permite essa mobilidade de levar para onde quero e tocar aonde quero”, conta ela, que faz parte de um quinteto de sopros e ainda integra a banda do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, há 13 anos.

Aliás, Walesca é uma das quatro mulheres que fazem parte da banda da corporação. Além dela, há duas flautistas e a amiga Luciana Oliveira, 34 anos, que toca bateria e percussão. A paixão pela “batida perfeita” surgiu na época da adolescência. “Todo mundo queria ter uma banda de rock e o fato de só homens tocarem bateria, me incentivou ainda mais”, revela Luciana, que vira e mexe escuta: “ Bateria não é coisa para mulher”.

No entanto, a artista garante não se importar com os comentários alheios e, hoje, além de tocar bumbo, prato, entre outros instrumentos de percussão nos Bombeiros, também se apresenta em shows e eventos como baterista. “O único problema é que costumo ser sempre a primeira a chegar e a última a sair das apresentações. Porque tem que montar, desmontar, e isso dá um certo trabalho. Mas o fato de ser mulher não me limita a tocar melhor ou pior do que qualquer homem. O talento, a dedicação; é isso que conta na vida de qualquer músico”, ressalta.

Pequena notável
Quem vê a pequena Zoraima Alenfel, 52 anos, com seu 1,56m de altura, carregando para cima e para baixo aquele “ monstro”, como ela mesmo intitulava o instrumento quando criança, não acredita que ela é uma das primeiras contrabaixistas do país. O som grave, a melodia e a própria beleza do contrabaixo a encantaram de primeira. “Costumo dizer que o escolhi porque tenho mania de grandeza”, brinca a artista. O fato é que um contrabaixo costuma medir entre 1,70m e 1,80m e pesar de 8kg a até 15kg. Mas acha que isso a assusta? Nem um pouco. “Tem gente que me pergunta como consigo tocar um instrumento que é maior do que eu. Mas isso é o de menos. Ele é pesado, grande, mas a gente se acostuma, tem técnica”, revela.

Zoraima, que é egípcia e veio ainda menina para o Brasil, costuma fazer todo um aquecimento físico antes de se apresentar, como alongamentos. O fato de ter sido atleta, a auxilia na hora de tocar. No entanto, ressalta que o resultado sonoro do contrabaixo independe da força física, apesar de ele exigir um certo preparo físico. “Montar, levar, carregar. Isso faz parte do instrumento. Você sofre um pouco com a coluna, eu mesmo estou com uma inflamação no nervo ciático por causa do contrabaixo. Mas faz parte da nossa rotina. É só se cuidar. E isso atinge contrabaixistas do sexo masculino e feminino. E independente disso, quero tocar contrabaixo até os 150 anos”, destaca.

» Ouça gravação da contrabaixista Zoraima Alenfel na Orquestra Sinfonietta Rio


» O raro sax de Daniela Spielmann

Irlam Rocha Lima 

 Luciana (E), Walesca e Zoraima: instrumentistas que quebraram o tabu(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Luciana (E), Walesca e Zoraima: instrumentistas que quebraram o tabu (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Ela é mais conhecida como integrante da Altas Horas, banda que nas madrugadas de domingo se apresenta no programa comandado por Serginho Groisman, na TV Globo. Rara saxofonista brasileira, a carioca Daniela Spielmann é um talento instrumental a serviço da MPB — em especial do choro.

No Altas horas, Daniela e suas companheiras de grupo tocam para animar a plateia em rápidos sets na abertura e no encerramento dos quadros. “O trabalho no programa é importante por nos dar visibilidade e pela possibilidade que cada um de nós da banda tem de criar arranjos para os temas, basicamente de pop rock, que tocamos”, afirma.

Presença constante nos projetos do Clube do Choro (“Já estive aí sete vezes!”), a saxofonista está de volta nesta semana. De hoje a sexta-feira, às 21h45, acompanhada pelo pianista e tecladista mineiro-brasiliense Renato Vasconcellos, ela faz show pelo projeto Dorival para Sempre Caymmi. “É sempre uma felicidade quando recebo convite do Reco do Bandolim (presidente da entidade), porque sei que vou tocar num lugar que tem compromisso com a música instrumental de qualidade, e para plateia especial, bem informada, atenta e respeitosa”, derrama-se.

Daniela considera uma honra estar no projeto que homenageia Dorival Caymmi. “Em rodas de samba ou em gafieiras onde toco no Rio, sempre surge a oportunidade de passear pela obra do mestre. E é sempre prazeroso interpretar Doralice, Vatapá e O que é que a baiana tem?, por exemplo”, conta. “Ouço Caymmi desde criança e é um dos compositores da MPB que mais admiro.”

As três músicas citadas pela instrumentista estarão no roteiro do show que fará no Clube do Choro. A elas se junta Morena do mar, sugerida por João Lyra, violonista que costuma acompanhar Nana Caymmi. “Aceitei a sugestão ha hora, pois trata-se de uma das mais belas canções de Caymmi”, comenta, entusiasmada.

No show, Daniela também vai mostrar temas autorais. “Quase todos são dedicados a pessoas de que gosto muito, que gravei em discos com a pianista Sheila Zaguri, o pianista e saxofonista Mário Séve e o Rabo de Lagartixa,(1), grupo de choro do qual faço parte há mais de 10 anos”. No repertório não faltarão choros clássicos como Um a zero (Pixinguinha), Assanhados e Noites cariocas (Jacob do Bandolim), além de Um tom para Jobim, de Sivuca. “Tudo vai ser bem amarrado depois do ensaio que farei com o Renato, músico talentoso e criativo que vai acrescentar muito ao show”, elogia.

DANIELA SPIELMANN E RENATO VASCONCELLOS
De hoje a sexta-feira, às 21h45, no Clube do Choro (Eixo Monumental, ao lado do Centro de Convenções Ulysses Guimarães). Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Informações: 3224-0599. Não recomendado para menores de 14 anos.

1 - RABO DE LAGARTIXA
Formado nos anos 1990 por jovens instrumentistas, o Rabo de Lagartixa estreou em disco em 1998, incluindo composições de autores consagrados, como Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim. Atualmente, o grupo está no estúdio da gravadora Biscoito Fino, no Rio, preparando um CD totalmente dedicado à obra de Heitor Villa-Lobos. As gravações foram interrompidas nesta semana por causa dos shows da saxofonista no Clube do Choro.

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