Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Revelação aos 86 anos, tocadora de pífano paraibana faz o público dançar no Museu da República

A casa de taipa da agricultora Isabel Marques da Silva caiu em 1979. Sem ter para onde ir, subiu a serra no Cariri paraibano e fez de uma gruta a morada para si e os três filhos. Viúva, morou lá por 25 anos. Para espantar o desânimo e acalentar as crianças, tinha como companhia um velho pífano, flauta feita de bambu. E foi esse instrumento companheiro de luta que fez Zabé sair da loca lá na Paraíba e tocar no Museu da República em noite de gala.

Zabé da Loca, como é conhecida, ainda mora no Cariri, mas no assentamento Santa Catarina, perto de Monteiro (PB). Com o ;pife; agarrado, toca na roça, nas novenas. Há 14 anos, ;acharam; Zabé, gravaram um CD com ela. E mais outro. Aos 86 anos, ganhou, como revelação, o Prêmio da Música Brasileira, no início do mês, no Rio de Janeiro . Quarta-feira, Zabé se apresentou para a plateia brasiliense.

De saia na altura do joelho, paletó de linho branco, lenços na cabeça e no pescoço, sandálias de couro, Zabé recebe a reportagem do Correio antes de subir ao palco do museu. Sorridente, com um olhar sempre carinhoso, conta um pouco da vida: ;Um irmão me ensinou (a tocar) com 7 anos, em Pernambuco, onde nasci. Aí fui tocar nas festas com ele;, diz ela, que já não escuta tão bem.

Eis que o multi-instrumentista carioca (e padrinho da tocadora de pífano) Carlos Malta surge no camarim com uma garrafinha de cachaça. O sorriso daquela senhora não cabe na boca. Dá um belo gole. E volta a falar da vida. ;Eu achava bom morar na loca. Não tinha casa. Na loca, não chovia dentro, não entrava bicho. Eu toco pífano porque é o jeito. Eu gosto. Eu viajo por aí, faço show. Não ligo pra nada não;, emenda.

Lenda
;É uma figura, é uma lenda. Com ela, convivo com arte e alegria. Pode estar tudo ruim, ela sempre vive todos os dias feliz. Mas é assim: enquanto todos estão roendo as unhas, Zabé não tá nem aí;, conta a vizinha e companheira de banda Josivani Caiano Silva, 30. ;Mas é danada. Quando a gente fica muito tempo no Cariri, ela pergunta: ;Quando vai ter outra viagem pra gente?;;, ri Josivani.

[SAIBAMAIS]20h50. Hora do show. Zabé se junta a Carlos Malta e, no corredor do museu, esquentam-se com forró, ao ritmo do pífano, zabumba, tambor e pratos de metal. Os oito músicos entram em fileira no auditório. O público, tímido, levanta para recebê-los, observa. As 150 pessoas da plateia ficam atônitas logo nos primeiro sopros. ;Ó eu aqui de novo!”, solta Zabé. O povo cai na risada e relaxa.

O grupo toca clássicos como Asa branca, Só quero um xodó, Baião da meia noite, Fogueira de São João. Zabé berra de novo: ;Queima!”, para animar os músicos e o público. A plateia, ainda presa às cadeiras, se alvoroça. ;O bom é que a onda de ;pifar; está começando aqui, no coração do Brasil com esse encontro;, diz Malta, que dirigiu o último CD da artista popular, Bom todo ; Zabé da caverna para o mundo, que rendeu o prêmio máximo da música brasileira.

Em seguida, o DJ carioca MAM se junta a eles e o som de raiz se mistura com a batida eletrônica. ;Conheci MAM tocando minhas músicas e de Zabé numa pista de dança;, anuncia Malta. Agora, os três experimentam a música urbana com o som regional do pífano e da flauta indígena. O povo se remexe nas cadeiras com a releitura de Tupyzinho (Carlos Malta).

Zabé nem aí. Só acompanha, como se achasse tudo normal. Mas quando o show acaba, começa a festa. O trio se junta aos outros músicos da banda nordestina e, ao pé do palco, consegue, finalmente, chamar para junto o público, que agora dança e canta longe das comportadas cadeiras. Já passa das 23h. E Zabé bate o pé. E toca seu ;pife;.

; Eu fui...

;Eu vi Zabé na televisão. Mas ao vivo foi demais. A presença dela é indescritível. E gostei muito da mistura que fizeram no palco, de música eletrônica e regional. Uma pena que o show não foi em um espaço onde as pessoas ficassem em pé, para dançar;
Vanessa Lima Silva, 33 anos, servidora pública

;Eu conhecia o Carlos Malta. E achei bom demais ele com Zabé no palco. A música dela, com o pífano, é uma coisa regional, de uma camada social pobre. É como o rap e o hip hop, que agora atingem uma classe mais alta. Viraram até cult;
Daniel Costa, 25 anos, produtor e DJ

;Já havia ido ao show de Zabé e fiquei encantada. Eu gosto muito de forró, mas quando ela toca pífano a energia é completamente diferente. É mais regional. Não dá para ficar sentada e não dançar;
Desireé Silva, 24 anos, engenheira florestal