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Correio Braziliense MÚSICA

Brasília entra no roteiro das homenagens aos 200 anos da morte de Haydn


postado em 06/08/2009 08:15 / atualizado em 06/08/2009 08:17

 Haydn Eisenstadt Trio e a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional executaram o Concerto tríplice para trio e orquestra, de Beethoven(foto: Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press)
Haydn Eisenstadt Trio e a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional executaram o Concerto tríplice para trio e orquestra, de Beethoven (foto: Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press)
Se os tempos fossem os de hoje, Wolfgang Amadeus Mozart seria um compositor de Hollywood cheio de Grammys e Joseph Haydn um Nobel de Literatura discreto e recluso. Transpondo para o século 18 era mais ou menos assim: Mozart fez sucesso tremendo desde a infância, primeiro como pianista que divertia as cortes pela pouca idade, depois como um grande compositor de óperas que atraíam a Europa inteira e Haydn ganhou o título de o maior inovador da música clássica e o menos midiático do quarteto fantástico do classicismo que incluía ainda Ludwig van Beethoven e Christoph Gluck. Haydn não teve tal fama, viveu isolado durante anos na corte dos Esterhazy, em Eisenstadt (Áustria), e era muito bem pago para compor e cuidar da execução de toda a música que chegava aos ouvidos dos nobres. “E por isso ele estava apto a inovar”, conclui o pianista Harald Kosik, 39 anos, integrante do Haydn Eisenstadt Trio, a formação austríaca mais dedicada à obra do compositor.

Ao lado da violinista Verena Stourzh e do violoncelista Hannes Gradwohl, Kosik fundou o trio em 1992 convencido de que havia muito trabalho a ser feito por Haydn no final do século 20. A intenção era gravar toda a obra de câmara do compositor. Até agora, o grupo já lançou em disco os 39 trios para piano e a série de 429 Canções escocesas num total de 28 CDs. A perfeição a que se propõe o Eisenstadt é tanta que todas as peças foram gravadas no Haydn Hall, a sala de concertos de Einsenstadt localizada dentro do palácio no qual o compositor costumava trabalhar.

Kosik brinca que não pôde escapar de Haydn porque nasceu numa cidade em que tudo leva o nome do mestre. “Tem a igreja do Haydn, a casa do Haydn, a sala de concertos do Haydn”, brinca o pianista, que está bastante surpreso com o sucesso da música do austríaco nos trópicos. “Onde estivermos as pessoas tocam a música dele, é uma referência, e tocam em estilo muito moderno, muito rápido. Em São Paulo tocamos Haydn e Schubert e depois só se falava em Haydn. As pessoas gostam.”

A turnê do Einsenstadt teve início em janeiro na Europa com a proposta de incluir 50 países até o final do ano para celebrar os 200 anos da morte do compositor. Agosto é o mês da América Latina e, além de Rio de Janeiro e São Paulo, Brasília teve direito a uma passagem relâmpago. Anteontem à noite, acompanhado da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, o trio executou o Concerto tríplice para trio e orquestra, de Beethoven.

Nova turnê
O concerto programado para domingo último na Sala Martins Pena, no qual a programação incluía Haydn, acabou cancelado. A Embaixada da Áustria achou que não havia tempo hábil para divulgar a apresentação e ficou com receio de se deparar com a sala vazia. Mas o Einsenstadt — que também gravou todos os trios para piano de Beethoven, Mozart e Franz Schubert — promete que Brasília será incluída novamente na turnê de 2010. Afinal, ainda há muito trabalho a ser feito em torno de Haydn. E um deles é apresentar ao mundo o resultado do projeto D2H — Dedicated to Haydn, (1)que convidou 18 compositores do mundo inteiro a criar obras inspiradas na música do austríaco.

A iniciativa partiu do esforço de várias instituições integrantes do Haydn 2009, o programa de celebrações do bicentenário na Áustria, e as peças estrearam no Haydn Festival Eisenstadt, em maio último. “Quando foi convidado para trabalhar em Londres, Haydn já era respeitado, mas não falava inglês. Então ele disse ‘minha linguagem é entendida pelo mundo todo’. Esse era nosso mote no projeto. Pedimos para os compositores mandarem essa mensagem de Haydn de volta, vários compositores de vários estilos e idades participaram”, conta Kosik. E é a mensagem que o trio procura divulgar pelo mundo.

1 - O compositor argentino Lalo Schifrin foi o único latino-americano convidado a participar do projeto. Criou um trio para piano inspirado nas dezenas de trios de Haydn. Schifrin também é pianista e maestro, mas seu trabalho é mais conhecido nas telas do cinema. São do argentino as trilhas dos filmes Dirty Harry e Missão impossível.

» Ouça Here awa there awa (XXXIa:257) — Scottish Songs for George Thomson III e do Trio B-Dur XV:20, de Joseph Haydn e interpretados pelo Haydn Trio Eisenstadt com Lorna Anderson (soprano) e Jamie MacDougall (tenor)

» Saiba mais
O pai dos estilos

 Joseph Haydn(foto: Reprodução da internet/pt.wikipedia.org/ wiki/Joseph_Haydn)
Joseph Haydn (foto: Reprodução da internet/pt.wikipedia.org/ wiki/Joseph_Haydn)
Joseph Haydn nasceu em Rohrau (Áustria) em 1732, 24 anos antes de seu conterrâneo Wolfgang Amadeus Mozart e quase quatro décadas antes de Beethoven. Foi, de certa forma, o pai dos estilos musicais que guiariam os dois maiores nomes da música clássica. Contava com apenas 6 anos quando deixou a casa dos pais para estudar música. Cantava em coros e estudava piano e violino. Somente em 1766, aos 34 anos, assumiu o cargo de mestre de capela na corte dos Esterházy, família nobre de muito prestígio que deu ao compositor todas as condições para que viesse a inovar a música erudita.

Naquela época, o estilo barroco começava a ceder espaço para as formas mais clássicas de composição cujas características eram mais clareza, um tema e um acompanhamento, ao contrário das imitações proporcionadas pelo contraponto barroco. Haydn revolucionou a música propondo novas formações como os quartetos e trios, aperfeiçoou a forma da sonata e fez da sinfonia a música volumosa que hoje todos conhecem. Foi o mais prolífico dos compositores do século 18 — escreveu 108 sinfonias e 707 peças de câmara — e abriu espaço para Beethoven e Mozart criarem as obras-primas mais importantes da história da música. Para lembrar o bicentenário da morte de Haydn, a Orquestra Sinfônica incluiu duas peças no programa. Em outubro o maestro Ira Levin rege a Sinfonia nº 103 e, em novembro, Roberto Tibiriçá comanda a orquestra na Sinfonia nº 47.

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Perto da perfeição

A importância e grandiosidade de Haydn são quase incomensuráveis. Ele tomou as formas primitivas de sonatas nos anos 1750 e, durante os anos de quase isolamento a serviço da família dos Esterhazy, desenvolveu o quarteto de cordas, a sinfonia, as sonatas para piano a um ponto de perfeição nunca igualado. Ele plantou as bases para o desenvolvimento futuro de Mozart e Beethoven. Daí o apelido de “papai Haydn”. No entanto, sua música é intrinsecamente tão importante quanto a deles, o que não quer dizer que ele seja apenas um precursor. Entre seus 83 quartetos e 104 sinfonias, sonatas para piano e trios há uma enorme variedade e número grande de obras-primas.

Ele era um famoso compositor de óperas entres os anos 1770 e 1780. Mais tarde, depois de uma incrível série de 12 sinfonias feitas em Londres no início dos anos 1790, compôs seis grandes missas e dois dos maiores e mais populares oratórios já escritos, A criação e As estações, comparáveis somente às obras-primas do gênero escritas por Haendel. Assim como os maiores sucessos de qualquer compositor vivo na história, sua música foi apreciada no século 19 e início do 20 mais pela importância histórica do que pelo mérito. A partir dos anos 1950, no entanto, começamos a ver Haydn como um grande gênio musical e um compositor cuja música, de uma fascinação e variedade infinitas, é fonte contínua de admiração e alegria. Fico contente de que, em Brasília, tocamos mais Haydn que em qualquer outra orquestra do país. Ele é importante para a alma e para o treino de qualquer boa orquestra.

Maestro Ira Levin, regente titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro

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