Um dos cartões-postais de Brasília, a Concha Acústica está há dois anos totalmente abandonada. O mato ocupa o palco que antes era frequentado por grandes nomes da música brasileira. Um rápido passeio pelo espaço de 8, 4 mil metros quadrados é mais do que suficiente para ver as calçadas de pedras portuguesas quebradas, os bancos cheios de capim e fiação elétrica destruída. Nas paredes do palco, rachaduras enormes. Ao redor da área, a situação é ainda pior, com quiosques depredados por vândalos. Para se ter uma ideia do tamanho do descaso do poder público com o espaço, a última reforma completa realizada no lugar, aberto em 1969, ocorreu há 12 anos. Mais ou menos o mesmo período de tempo que o Projeto Orla, esboço de revitalização do local, está engavetado.
O espaço até tinha sido cogitado como um dos possíveis cenários para a gravação de um DVD, mas devido a precariedade do lugar, o grupo desistiu. A opção agora é a Ermida Dom Bosco. "O problema é que a especulação imobiliária já tomou conta do local", denuncia o cantor.
Ex-guitarrista da banda Natiruts, Kiko Péres é outro artista da cidade que lamenta a deterioração do ponto de encontro emblemático da capital federal. Além de ter sido atração no espaço como membro da antiga banda, em 1997, teve oportunidade de acompanhar apresentações memoráveis. "Não esqueço do show da Rita Lee", recorda. "É triste a gente ver um lugar tão bom para show ficar largado assim. Sem falar que é um lugar privilegiado por estar à beira do lago", destaca.
Ouça a entrevista com Philippe Seabra sobre o estado crítico da Concha Acústica.
; Espaço alternativo
Um dos responsáveis pela parte de comunicação do Porão do Rock, que teve suas duas primeiras edições realizadas na Concha Acústica, o produtor musical e jornalista Marcos Pinheiro diz que o espaço poderia ser melhor aproveitado, num grande point alternativo. "Colocamos 40 mil pessoas nas duas primeiras edições", lembra. "E não saímos de lá pelo fato do local estar deteriorado. O festival cresceu e a gente precisava de um lugar que fosse maior, mais central. Poderia ter evento todo final de semana ali, e não precisaria necessariamente ser organizado pelo governo. Mas que o local tivesse uma condição adequada para que os produtores sempre promovessem shows ali", defende.
Segundo o secretário de Obras, Márcio Machado, a licitação para o início das obras de recuperação já foi aprovada. "As obras de revitalização urbanística foi licitada e estamos aguardando agora recurso orçamentário para contratar. A expectativa é de que dentro de 60 dias teremos condições para fazer isso", promete. "A parte de urbanização está a cargo do GDF, orçada em R$ 5 milhões. A revitalização urbanística está a cargo do GDF, orçada em R$ 5 milhões. Os empreendimentos são da iniciativa privada", antecipa.
; Revitalização
Idealizado em 1996, o Projeto Orla visa dar vida às margens do Lago Paranoá com a criação de 11 pólos culturais que democratizariam o acesso ao espelho d;água. A Concha Acústica está inserida no terceiro pólo. A princípio, a ideia seria a construção de píeres, hotéis, restaurantes, bares, museus, cinemas, centros tecnológicos e quiosques. Mas até agora pouca coisa saiu do papel. Dos 11 setores, o único que deu certo foi o Pontão do Lago Sul, inaugurado em 2000.
Ouça entrevista com o secretário de Obras do DF, Márcio Machado
; Memória
Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, o local foi inaugurado em 1969, bem antes da abertura do Teatro Nacional. Quem avista o lugar hoje abandonado, nem imagina que ali já foi um dos pontos de encontros mais agitados da cidade, com grande concentração de pessoas. Uma das atrações do espaço, logo após sua criação, foi o antológico show de Roberto Carlos, em 1971. Na cidade, para lançar o álbum Roberto Carlos, o rei emocionou os 10 mil fãs que lotaram o espaço ao som de Detalhes, o hit da época.
Três anos depois, o espaço seria palco de um casamento hippie. Como a vida cultural da cidade ainda era tímida, o encontro acabou se tornando um grande acontecimento. Nos anos 1980 e 1990, artistas como Arnaldo Antunes, Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Nando Reis e bandas como Capital Inicial e Pato Fu, marcaram presença num dos principais cartões-postais da cidade.
Ainda em 1998, a Concha Acústica abrigou a primeira edição do Porão do Rock, reunindo mais de 10 mil pessoas. No ano seguinte, um público três vezes maior assistiu, extasiado, a volta da banda Plebe Rude. Outro festival abrigado pelo espaço, em 2005, foi o É Claro que é Rock, trazendo como principal atração a banda britânica Placebo. Dois anos depois foi a vez dos argentinos do Gothan Project emocionarem os brasilienses. O grupo brasiliense Zaktar, constituído por músicos com necessidades especiais, fez o último show da Concha antes de sua interdição pela Secretaria de Obras.