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Correio Braziliense CULTURA POPULAR

Bois levantam a poeira na Funarte


postado em 24/08/2009 08:59 / atualizado em 24/08/2009 09:06

Já eram 20h quando um grupo de homens reluzia em volta da fogueira. Com roupas em cetim colorido, miçangas e fitas, eles se amontoavam em volta dela. Nem tinha tanto frio que pedisse o fogo. Mas os pandeirões, sim. “Colocamos o instrumento perto da chama para esticar o couro. Pra ficar afinado pra gente tocar”, disse um deles, músico do Boi de Seu Teodoro.

Dez minutos depois, subiu ao palco o “dono do boi”, o maranhense que trouxe o folguedo de lá para o cerrado. Teodoro Freire, de 88 anos, recebeu abraços dos mestres de sua terra e abriu os festejos em sua homenagem. Uma festa de gente que, sentada nas cadeiras, ficou atônita com o espetáculo. Os de pé rodaram a saia, bateram o pé. Levantaram mesmo a poeira da capital federal.

O grupo de Seu Teodoro abriu o Encontro de Bumba-meu-boi: homenagem(foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press)
O grupo de Seu Teodoro abriu o Encontro de Bumba-meu-boi: homenagem (foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press)
O 1º Encontro de Bumba-meu-boi, em homenagem ao mestre Seu Teodoro, encheu de cor e batuque o gramado do Complexo Cultural da Funarte. Em clima de festa junina, com bandeirinhas suspensas, comidas típicas, jovens, famílias e crianças, o evento reuniu neste fim de semana grupos tradicionais do Maranhão e do Piauí. E trouxe gente dos quatro cantos do Distrito Federal para reviver suas origens, rever a manifestação cultural nordestina ou conhecer a tradição.

“Eu só tinha visto isso de relance pela televisão. Isso é Brasil. Temos o carnaval, o samba e o boi. As roupas, os ritmos, a história. É tudo de arrepiar”, disse o advogado Márcio Souza Aguiar, de 30 anos. “Em 2005, fui ao Maranhão e conheci essa festa. Toquei até a matraca. Quando soube que teria aqui, decidi que viria matar a saudade”, contou a servidora pública Marta Regina, 40 anos.

No sábado, sete grupos se apresentaram. Em todos, o brilho e o colorido de fitas, penachos (o que mudava eram as cores e o formato das roupas e adornos), fruto da mestiçagem negra, índia e branca. E as batidas das zabumbas, pandeirões e matracas marcando o ritmo. Houve atraso de uma hora. A chuva ameaçou. Chegou a pingar e só. Nada que desanimasse o povo.

Antes das apresentações, o hino nacional foi tocado para Seu Teodoro. “Estou achando isso tudo uma beleza. Mas precisa ter outro no ano que vem. Todo ano”, provocava ele, elegante, de terno cinza, gravata vermelha e chapéu de palha.

Às 20h15, o boi de Seu Teodoro — que desde 2004 é bem cultural e imaterial do DF — começou o folguedo. Enquanto o enredo da brincadeira se desenvolvia (em torno da história de um boi roubado por funcionário de uma fazenda para satisfazer o desejo da mulher grávida, que quer comer a língua do animal), o mestre e a mulher, Maria Sena, permaneceram no palco. Foram mais de 40 minutos de dança.

Em seguida, cerca de 100 integrantes do Boi da Maioba (MA), grupo que existe há 112 anos, subiram ao palco. Atores, trovadores e cantadores tiraram o público das cadeiras. Depois vieram, noite adentro, os também famosos bois de Axixá (MA), Imperador da Ilha (PI), da Liberdade (MA) e Barrica (MA). A festa se prolongou na tarde de ontem com mais bois, Mestre Zé do Pife e as Juvelinas e o Tambor de Crioula de São Benedito (MA).

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