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Correio Braziliense SONHO EM OBRAS

Há mais de 20 anos Jota Pingo tenta construir centro cultural para o Jardim Botânico e São Sebastião


postado em 26/08/2009 08:00 / atualizado em 26/08/2009 08:03

Jota Pingo:
Jota Pingo: "A região é totalmente desprovida de dispositivos culturais. É um lugar que tem tudo para dar certo" (foto: Paulo H. Carvalho/CB/D.A Press )
Incansável, há mais de duas décadas o ator, roteirista, dramaturgo, diretor teatral e agitador cultural Jota Pingo (1), 63 anos, alimenta o sonho de construir, no Jardim Botânico, próximo à Escola Fazendária, um centro cultural que abrigue vários projetos de arte e educação. O espaço tem nome: Mercado Cultural Piloto. A ideia da ambiciosa empreitada nasceu em 1988, após a compra, na região, de um terreno de 1,7 mil metros quadrados. Ali, trabalhando dentro de estrutura labiríntica, ele ergueu numa área de 225m2, um espaço que abriga um amplo cine teatro — com o sugestivo nome de Grande Otelo —, uma galeria equipada com reserva técnica e lanchonete, um ateliê, além de lugar destinado para a instalação de uma rádio e TV comunitárias.

“Não temos muita grana, mas as coisas vão andando”, admite Pingo, que deu uma cara totalmente underground ao espaço utilizando materiais alternativos catados do lixo ou do ferro velho. Uma prova de seu talento anárquico pode ser conferido num enorme paredão construído a partir de janelas de ônibus. “Isso foi uma doação que recebemos, sou eu que bolo essas ‘loucuras’, mas muita coisa ainda precisa ser feita por aqui”, continua o artista, que, com a ajuda do filhos e do irmão Paulo César Pereio (2), mantém em atividade, na Rua Treze de Maio, em São Paulo, outro espaço cultural, o Bar Teatro Saracura.

Por aqui, tenta chamar atenção das autoridades públicas sobre a importância da iniciativa, ou seja, da criação do espaço, promovendo hoje, a partir das 17h30, um encontro entre políticos preocupados com a cultura da cidade e a classe artística. O objetivo, segundo Pingo, radicado em Brasília desde 1977, é reivindicar apoio dos governantes no que diz respeito às propostas culturais na região. Participam do evento do lado cultural importantes nomes da cidade como mestre Teodoro (do bumba-meu-boi), o tradicional grupo musical Liga Tripa, a companhia circense Udi Grudi, o reggaeman Renato Matos, o maestro Guilherme Vaz, integrantes do bloco Pacotão, além de várias artistas de São Sebastião. A entrada é franca.

“O intuito é discutir a possibilidade de verbas para produções culturais, além, claro, de pedir uma grana para o próprio espaço”, admite, com um sorriso largo, Pingo, que há mais de 20 anos tenta finalizar obras no lugar. “O espaço é muito bom e deveria ser melhor aproveitado pela comunidade, até porque a região é totalmente desprovida de dispositivos culturais. É um lugar que tem tudo para dar certo”, observa Luciano Porto, um dos integrantes do Udi Grudi. “Ele (Pingo) é um santo guerreiro, um guerreiro louco que consegue fazer essas loucuras”, brinca.

Com o que tem, e como pode, Jota Pingo dá vida ao centro realizando atividades sociais, como capoeira ou promovendo apresentações ocasionais de artistas que prestigiam o local. É uma peregrinação e demonstração de amor à arte e à cultura só comparados com outro JP da cidade, o mecânico José Perdiz (3), responsável pelo Teatro Oficina Perdiz (708/709 Norte). “As portas desse centro cultural sempre estarão abertas à comunidade, a qualquer artista que quiser expor o seu trabalho”, convoca.

1 - Militância
Pseudônimo de Carlos Augusto de Campos Velho, Jota Pingo é um dos nomes chaves da cultura brasiliense. Irmão do também ator Paulo César Pereio, está radicado na cidade há três décadas, onde teve militante participação na cena teatral da cidade, à frente de espetáculos como Uma tragédia atual, exibido no Teatro Galpão em 1982. Desde 1988 o artista luta para concretizar um espaço cultural no Jardim Botânico. Atualmente trabalha no roteiro de um longa-metragem que pretende rodar na Bahia. A história é baseada num artigo do jornalista Gilberto Dimenstein.


2 - Irreverência
Um dos rostos mais conhecidos do cinema brasileiro, o gaúcho Pereio construiu a carreira de ator, assim como o irmão, no Rio de Janeiro e São Paulo. Conhecido pela irreverência e corrosiva ironia, emprestou seu talento debochado em várias produções do Cinema Novo, Cinema Marginal e Pornochanchadas. Atualmente apresenta no Canal Brasil o programa de entrevistas Sem frescura.

3 - Oficina
O mecânico José Perdiz é o proprietário do Teatro Oficina do Perdiz, há mais de 20 anos, importante palco da cena cultural da cidade. Localizado na 708/709 Norte, o espaço serve de oficina mecânica pela parte de manhã e teatro à noite. Nos últimos seis anos o inusitado lugar quase teve suas portas fechadas por conta da especulação imobiliária.

» Ouça entrevista com Jota Pingo

» Principais atrações

Udi Grudi
Está entre os mais antigos grupos de circo teatro contemporâneo do país. O coletivo, criado em Brasília em 1982, norteia o trabalho pelo desenvolvimento de espetáculos originais tendo como matéria-prima a figura do clown, a música e o teatro experimental.

Seu Teodoro
Nascido no Maranhão, mas radicado em Brasília desde os anos 1960, o folclorista Seu Teodoro é um dos principais nomes da cultura maranhense do país, guardião da cultura do bumba-meu-boi.

Pacotão
Um dos blocos de carnaval mais tradicional da cidade, o Pacotão foi criado em 1978 por quatro jornalistas. O nome foi inspirado no Pacote de Abril, um conjunto de leis outorgado em abril de 1977 pelo regime militar. Nascido de forma despretensiosa, hoje o bloco carnavalesco costuma levar mais de 4 mil pessoas às ruas durante o carnaval.

Liga Tripa
Criado durante um sarau na UnB, o Liga Tripa é um dos grupos mais importantes da história musical de Brasília.

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