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Correio Braziliense QUADRINHOS

Entrevista com o roteirista André Diniz, autor da história em quadrinhos 7 vidas


postado em 13/09/2009 07:00 / atualizado em 12/09/2009 10:21

Imagino que a respostas seja “sim” mas, você realmente fez terapia de vidas passadas? O que você achou do processo — quero dizer, além do que está na HQ? Acredita que se fizesse a terapia outra vez, suas vidas anteriores seriam as mesmas? Recomenda esse tipo de terapia para outras pessoas?
Claro! Quem dera eu ter criatividade pra inventar tudo aquilo... Foi uma experiência fantástica e riquíssima e recomendo a qualquer um, mesmo quem não acredita em vidas passadas. Pois mesmo que tudo seja fruto do inconsciente, em nada muda essa jornada de autoconhecimento que são as sessões de regressão. Acredito que, caso eu retome a regressão um dia, serei conduzido a vidas mais antigas, que era o caminho que as últimas sessões estavam tomando. Mas eram “lembranças” distantes demais, e como senti que as sete vidas já vistas que relato no livro se completavam muito bem, não creio que eu retome as regressões.

Você tentou manter a HQ o mais biográfica possível? O quanto isso pode limitar sua liberdade de criação?
Faz parte do jogo de um escritor ou roteirista romancear e florear um pouco — ou muito — a realidade para que um fato real gere um livro ou um filme interessantes. No caso da história desse livro, porém, posso te assegurar que tudo o que conto foi 99% assim, e não haveria problema algum em romancear mais. Só que tudo foi tão interessante exatamente da forma que aconteceu que o livro só perderia se eu mudasse alguma coisa. Mesmo cenas que vi e que não diziam nada, fiz questão de narrar. Também o que se passou na minha vida pessoal naquele momento, a perda de uma gravidez e uma nova gravidez surgindo nas mesmíssimas circunstâncias que a primeira, formaram uma linda analogia ao tema do livro, que são as vidas que vêm e que vão, e que voltam. As únicas adaptações que fiz foi mostrar cada vida sendo vista em uma única sessão, enquanto eu as via, na verdade, ao longo de duas ou três sessões diferentes; e também tive que criar diálogos onde haviam lembranças de cenas e de fatos, mas não exatamente de falas. Mas foi só isso, não mudei sequer a ordem em que tudo aconteceu.

Por que você escolheu o Antônio Eder para os desenhos? Como funciona a parceria de vocês?
O Antonio Eder é parceiro antigo e amigo pessoal, e a comunicação entre nós dois é perfeita, e a nossa forma de pensar é bem parecida. Mas isso não seria motivo para essa parceria se não fosse o talento dele e o fato do desenho dele encaixar-se como uma luva no tom que eu queria dar à HQ.

O Brasil tem muito mais bons desenhistas do que roteiristas de quadrinhos. Como você vê essa questão?
Talvez um autor sinta-se mais atraído pela linguagem dos quadrinhos para poder desenhar do que para poder escrever. Daí, acaba que muitos desenhistas talentosíssimos querem textos como pretexto para poderem desenhar. O autor que escreve mas não desenha, em sua maioria, ou vai para a literatura ou para cinema ou tevê. Mesmo no meu caso, eu escrevo roteiro para outros, mas desenho também. Nos últimos anos, trabalhei muito mais o meu lado roteirista que o desenhista, mas desde o ano passado estou mudando isso. As minhas próximas obras, algumas já com editora, terão roteiro e desenhos meus. E trabalho no momento em algo que nunca fiz: desenhar o roteiro de outro — de outra, no caso: da roteirista Jacqueline Martins.

Qual o seu trabalho “formal”, seu ganha pão?
Hoje, me dedico só ao meu trabalho autoral, por incrível que pareça. Na maior parte, quadrinhos, mas também escrevo e ilustro livros infantis e juvenis.

Quanto tempo de desenvolvimento do roteiro? E quanto tempo o Antônio levou para desenhar tudo?
Escrevi o roteiro ao longo de alguns meses, e o Antonio levou três anos para concluir os desenhos. Mas não foram três anos contínuos, nesse meio tempo ele teve que interromper a produção para se dedicar a outros trabalhos, incluindo ilustrar outras cinco HQs minhas, produzidas para a editora Escala Educacional. Ao longo desses três anos, também retrabalhei em alguns aspectos do roteiro. O final do livro, então, só foi escrito uns dois anos depois.

Quando sai seu próxima HQ? Alguma em desenvolvimento?
Tenho dois álbuns já concluídos que saem até o primeiro semestre do ano que vem, e um em fase de conclusão, sem falar de um quarto que já comecei a roteirizar. Todos os três têm desenhos meus. Dos dois concluídos, um trata da jornada de três escravos e um branco fugitivo em busca de um quilombo utópico, cuja existência é incerta. O outro é a adaptação do poema A cachoeira de Paulo Afonso, de Castro Alves. Em fase de conclusão está uma HQ que tem o Rio de Janeiro do início do século 20 como cenário, às vésperas e durante a Revolta da Vacina. O roteiro em produção é a biografia de um morador do Morro da Providência, um dos morros mais violentos e de história mais rica no Rio de Janeiro.

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