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Correio Braziliense TEVÊ

Cama de gato investe no politicamente correto


postado em 12/10/2009 11:24

O politicamente correto invade cada vez mais a dramaturgia. Prova disso é a aposta da Globo nas autoras estreantes Duca Rachid e Thelma Guedes. Com supervisão de João Emanuel Carneiro, a dupla apostou na redenção para conduzir Cama de gato, trama que substitui Paraíso no horário das seis. Com ritmo ágil em cenários bem acabados e coerentes com os núcleos, as cenas se desenrolam de forma eletrizante para prender a atenção. No entanto, os personagens, principalmente a mocinha Rose (Camila Pitanga) se tornam enfadonhos por incansavelmente defenderem os preceitos morais, éticas e os valores mais nobres desde o primeiro capítulo.

A partir desse mote didático, de mostrar o caminho certo em diálogos como “um dia você pode estar por baixo e no outro, por cima”, as autoras vêm costurando a trama protagonizada por Marcos Palmeira. Na pele do bem-sucedido Gustavo, Marcos interpreta com certo exagero um homem frio, que enriqueceu e acabou se transformando em empresário arrogante e desprovido de pequenas gentilezas.

De uma hora para outra, uma armadilha planejada por seu melhor amigo, Alcino (Carmo Dalla Vecchia) o coloca sozinho e sem dinheiro no meio do deserto. Nessas ações, as tomadas lembram filmes de aventuras, com imagens aéreas de dunas e produção caprichada. No cenário hostil, o choque de realidade da trama é mostrado como medida drástica para recuperar o bom caráter de Gustavo. Mesmo diante do didatismo explícito das autoras e das lições de moral, a trama tem apelo popular pelos personagens que contornam o núcleo principal. A começar pelo casal Julieta e Ferdinando (Suely Franco e Pedro Paulo Rangel), pais de Gustavo, que a cada diálogo, com atuações afinadas, prometem roubar parte das cenas da trama.

Cria de cria de Dennis Carvalho, Amora Mautner estreia como diretora geral explorando tomadas caprichadas e interessantes takes de dentro de carros. Mas não aposta alto. Prefere se aprofundar numa assinatura de imagens apenas corretas, sem grandes inovações na fotografia. Mostra o que vem aprendendo ao longo dos anos por trás das câmaras — estreou como assistente de direção do Você decide, em 1992.

Na verdade, a novela não é inspirada em nenhuma ideia mirabolante ou inovadora, mas cumpre seu papel de entreter no horário das seis. Após a campestre Paraíso, já era hora mesmo da emissora substituir berrantes e esporas por locações mais contemporâneas. O que entedia, no entanto, são os velhos clichês que já se tornaram óbvios na dramaturgia, como excesso de personagens ouvindo comentários atrás de portas ou seguindo seus pares para dar flagrantes.

No território popularesco da história, alguns personagens se destacam, como o malandro Tião (Aílton Graça), espécie de gigolô da ex-mulher Rose. Como previsível história de gata borralheira, a pobrezinha faxineira da empresa de Gustavo acaba se apaixonando pelo poderoso chefe e mostra que os abismos culturais e sociais podem ser driblados em poucos capítulos, em súbitas lições de moral. Outro lugar-comum da trama é a vilã maquiavélica que tenta dar o golpe para se apropriar da herança do marido. A Intérprete da megera da vez, Paola Oliveira ainda não conseguiu definir o tom de sua personagem pouco carismática. Menos envolvente ainda é a abertura da trama, que estreou com 25 pontos de média e 51% de participação. A canção Pelo avesso, dos Titãs, não combinou com a cansativa e previsível abertura de Hans Donner. Parece mesmo uma cama de gato para a emissora.

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