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Correio Braziliense ENTREVISTA

A música sanguínea e honesta de Ligiana


postado em 17/10/2009 07:00 / atualizado em 18/10/2009 15:19

(foto: Sebastian Dolidon/Divulgação)
(foto: Sebastian Dolidon/Divulgação)
Brasiliense de espírito inquieto e pés de cigana, Ligiana está lançando o primeiro disco, o independente De amor e mar. Cantora, compositora e musicóloga, 31 anos, ela fez o álbum aos poucos, em estúdios de Brasília, São Paulo e Paris. O repertório, no entanto, veio rápido, e criterioso. As 11 faixas foram logo se encaixando: as canções dela (Onda e Queda por um samba, esta em parceria com o pai, Celso Araújo); as referências de toda a vida (Se, de Tom Zé; Só se não for brasileiro nessa hora, dos Novos Baianos; Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio); um afro-samba de Baden Powell e Vinicius de Moraes (Canto do Caboclo Pedra Preta); uma música de Philippe Baden Powel (Festa no olhar); um samba de Cartola (Consideração) e outro de Batatinha (Conselheiro); o choro de Abel Ferreira com letra de Celso Araújo (Chorando baixinho); o samba-exaltação de Luiz Peixoto e José Maria de Abreu que o pai descobriu ouvindo rádio (Pandeiro do Brasil). Na entrevista a seguir, Ligiana fala sobre o disco de estreia e suas andanças pelo mundo.


"Música sanguínea e honesta" é a frase que você colocou no cantinho do encarte do CD. É uma boa definição para o seu trabalho?
Foi uma brincadeira, porque eu escrevia as vezes no meu Facebook que estava à procura de uma música sanguínea e honesta. O designer que fez a parte gráfica do disco gostava muito dessa frase, usava no flyer dos shows. Mas, realmente, tem a ver com uma busca minha, porque me incomoda na música aquela coisa blasé, de tristeza, sabe? Sou muito do sangue, muito passional. O que eu gosto de ouvir e a música que procuro fazer é mais da paixão do que da frieza. E a honestidade, para mim, é o fator principal de uma arte bem realizada. Usei as duas palavras instintivamente e isso acabou virando meio que um lema.


De amor e mar foi gravado em Paris, São Paulo e Brasília, em 2007 e 2008. Foi feito aos poucos, mesmo?
Foi gravado quase todo de forma compacta. A gravação foi rápida em São Paulo, Brasília e Paris. A feitura do disco é que foi demorando, a parte de mixagem, a gente acabou mudando algumas coisas, tirando dali, botando aqui. O processo foi meio longo porque é um disco independente, né? Dependia de pessoas, de dinheiro, de colaborações… Foi preciso um pouco de paciência. E eu estava escrevendo também um doutorado ao mesmo tempo, minha vida era um pouco atribulada na França.


Você terminou esse doutorado?
Defendi em setembro do ano passado. É sobre as velhas damas de leite cômicas na ópera veneziana do século 17. Comecei meus estudos como cantora lírica, estudei canto lírico em Brasília. Depois fui para a Holanda estudar música barroca, e de lá fui para a Itália fazer musicologia. Me interessava por pesquisa, a coisa mais histórica mesmo. Como sempre me interessei por papéis secundários, esse tema veio à tona… e também pela ligação entre música popular e música erudita — no caso, a música e o teatro, porque a tese se dedica muito à dramaturgia musical.


Quando você começou a compor?
Comecei tarde. Esse processo da música antiga foi se esvaindo de certa forma, eu fui deixando o canto barroco um pouco de lado. No período em que eu estava na Itália foi quando comecei a cantar música popular brasileira. Até por um questão de dinheiro, fazia isso nos bares. Não tinha intenção de levar isso a fundo. Embora adorasse fazer, não me via cantando isso profissionalmente. Quando fui para a França é que a coisa se concretizou, porque lá havia músicos num nível mais alto do que os que eu tinha encontrado na Itália. Foi na França que comecei a compor. Fazendo música lá, a composicão veio automaticamente. E o fator compositora foi decisivo para a ideia de gravar o disco. Saber que eu tinha algo a dizer, de meu, foi mais interessante do que me ver como intérprete. Então, quando eu já tinha essas músicas, e as pessoas achavam interessantes, falei: "Ah, é o momento de gravar".


Foi difícil definir o repertório do disco?
Quando a gente concebeu o todo do disco, ele veio bem estruturado. Quando digo a gente, digo eu e os produtores (Alfredo Bello e Fernando Cavaco). Foi simples encontrar o repertório, porque havia duas músicas minhas que tinham que entrar (A onda e Queda por um samba), eu tinha que gravar Tom Zé, porque sou muito fã dele, Novos Baianos também… Havia coisas que eram meio óbvias para mim, coisas que faziam parte da minha vivência musical. Então não foi muuita busca, sabe? Tenho, em abundância, repertório que gostaria de cantar, e coisas minhas. Agora, tenho cada vez mais composições.


Alfredo Bello, você conheceu em Brasília. E Fernando Cavaco?
Eu já trabalhava com Fernando Cavaco, a gente tinha um regional de samba em Paris. Fernando tem uma banda que faz bastante shows na França, a Orquestra do Fubá. E ele me chamou para trabalhar junto, tinha vontade de produzir um disco de alguém, então a gente juntou o útil ao agradável. E ele era muito fã do Alfredo Bello, que eu conheci em Brasília, quando eu tinha uns 15 anos e ele era dos Cachorros das Cachorras. A gente fez faculdade na mesma época, eu, ele e Hamilton de Holanda.


Quem mais fazia parte dessa turma da UnB?
Nessa geração tinha a gente e toda aquela turma que canta em musicais em São Paulo. Uma turma de meninos e meninas absurdos de bons e que hoje são os melhores cantores de musicais em São Paulo. Quando falo para o pessoal que cantei com o Saulo (Vasconcelos), que a gente fez Don Giovanni na faculdade, as pessoas falam: "Oh! O Saulo é um dos mais requisitados do Brasil". Outro da turma era Fred Silveira, que está fazendo Avenida Q agora. Engraçado, mesmo com um departamento de música tão caótico, algumas pessoas acabaram vingando.


Voltando ao disco, como foi o trabalho? Você fez uma parte na França com Fernando Cavaco e outra no Brasil com Alfredo Bello?
Fernando e eu estávamos vindo para o Brasil de férias e a gente combinou de gravar alguma coisa com Alfredo, ainda que sem a intenção de fazer um disco. Aí ele começou a viajar num disco, com tais pessoas… entre elas, Tom Zé, lógico, que era nosso sonho. Para mim, Tom Zé é um dos cinco gênios da música brasileira. Ele é uma coooisa, uma espécie de mago, tem um olhar de bruxinho. Quando ele me viu, me abraçou e disse: ‘Minha filha…". Foi lindo, e de uma generosidade…


Você sempre ouviu Tom Zé? E o que ele achou de cantar Sérgio Sampaio (Eu quero é botar meu bloco na rua)?
Lembro do Tom Zé cantando no Bom Demais, eu de pijama assistindo ao show. E Sérgio Sampaio ficou hospedado na casa da minha tia, Cristina Roberto, por muito tempo. Foi num período em que ele estava no ostracismo, bem duro pra ele. Ela o acolheu em casa.


Por isso a vontade de gravá-lo?
Queria muito alguma coisa do Sérgio Sampaio, fiquei na dúvida sobre qual música só por algumas horas. Logo veio a certeza de que tinha que gravar o Bloco, que, pra mim, é uma musica política. E eu queria muito que o Tom Zé participasse, até pela referência política, histórica, ideológica. Quando Tom Zé topou, tive mais certeza de que tinha que ser essa música. Porque Tom Zé também ficou muito tempo no ostracismo, e faz oposição muito forte até hoje. Ele não cede, é um artista que não faz concessões.


E a música tem até um serrote tocado por Fernando Alves Pinto…
Nando é uma amizade também de Paris, já tinha me falado que tocava serrote. Eu estava nos primeiros dias de gravação do disco em São Paulo, aí fui ao Rio e encontrei ele às seis da manhã no aeroporto. Contei que estava gravando um disco e ele perguntou: "Você não quer colocar um serrote, não?" Achei o máximo. Serrote tem uma sonoridade de teremim, é um instrumento eletroacústico maravilhoso. Nando toca serrote com o arco.


E a ideia de gravar Batatinha (Conselheiro) e Cartola (Consideração)?
Foram indicações familiares. Tenho uma prima (Morena, filha da Cristina) e uma tia (Ana Lúcia) que são loucas por samba. Porque minha família ouve muito música boa, sempre escutou coisas boas, sabe? Ana Lúcia, essa tia, é uma sambista de coração, foi aluna do Hamilton… Foi ela quem sugeriu Cartola. A mesma coisa aconteceu com o Batatinha, foi a Morena quem me mostrou.


Novos Baianos também era uma referência familiar?
Só se não for brasileiro nessa hora era a música que eu ouvia no carro, indo para as férias na Bahia. Não tinha como não gravar. E fiquei muito feliz que os dois (Moraes Moreira e Luiz Galvão, os autores) acolheram muito bem o arranjo maluquinho que a gente fez. É uma musica superdoce, tem a coisa da infância brasileira, do menino deixar a vida pela bola, é muito louco isso, né? Adoro ela.


E Philippe Baden Powell?
Foi um amigo em comum, o Natalino Neto, quem me apresentou ao Philippe Baden. Natalino é amigo do Hamilton, toca baixo no Canto do Caboclo Pedra Preta, e me abriu muitas portas. Quando conheci Philippe, a gente se adorou de cara. Tenho adoração pelo pai dele e vi nele uma personalidade musical diferente da do pai. A primeira coisa que ele tocou pra mim foi Festa no olhar e fiquei com ela na cabeça. Acho essa música linda, supernovelável, super Manoel Carlos (risos). Quando o chamei para o disco, sabia que queria cantar uma do pai dele, um afro-samba do Baden e do Vinicius, e queria aquela dele, Festa no olhar, que a gente gravou em Paris. Phillipe Baden foi um encontro iluminado na minha vida. Na verdade, esse disco é cercado de encontros iluminados.


Inclusive com seu pai (o jornalista Celso Araújo), não?
Meu pai permeia muito o disco. Além de ter essa parceria comigo (Queda por um samba), ele foi a pessoa que descobriu Pandeiro do Brasil, samba-exaltação que é uma joia rara, que ninguém no país conhece. E ele descobriu de forma cômica. Uma vez, estava ouvindo rádio no Rio de Janeiro e ouviu essa música tocar. Ligou para a rádio imediatamente e pediu: "Pelo amor de deus, põe essa música no ar de novo. Eles tocaram mais uma vez e ele gravou com um gravadorzinho daqueles de fita, sabe? Gravou da caixa de som da casa dele. E a única gravação que a gente tinha dessa música era essa, bem tosca, em que a gente escutava até ele apertando o "rec" do gravador. A gente não conseguiu achar nem em vinil, é uma pérola rara, mesmo. Nos shows, todo mundo adora, parece que ela renasceu.


Queda por um samba também foi feita de um jeito engraçado, não?
Foi, sim. Fiz a música, liguei pra ele e cantei pelo telefone. Alias, tudo que eu faço, ligo, canto por telefone pra ele. Tenho essa dependência, não mostro para ninguém antes de mostrar pra ele. E ele terrível, né? (risos) E é crítico por profissão. As pessoas falam: "Ligiana, cuidado com seu pai, ele pode ser cruel!" (risos) Mas acho ótimo ter um pai sanguíneo e honesto. E ultimamente ele tem até aprovado bastante, viu?


Mas você ligou para ele e cantou a música, sem letra?
Foi assim: "Ah, pai, fiz essa melodia, mas não tenho letra…" Aí cantei por telefone e ele gravou do outro lado com o mesmo gravadorzinho que tinha gravado Pandeiro do Brasil anos antes. Eu ia cantando e ele ia repetindo do outro lado para gravar. Porque ele agora tem internet em casa, mas na época não tinha. Isso foi em 2007, compus Queda por um samba antes de gravar o disco. Ele fez a letra e me mandou. Encaixou perfeitamente, ficou com jeitão de samba clássico.


E Chorando baixinho é uma letra que ele fez para o choro de Abel Ferreira…
Ele tem várias letras para chorinho, coisas maravilhosas, composições muito legais. Essa do Abel Ferreira, ele sempre cantava pra mim e eu quis gravar. E quis gravar com o melhor, com Hamilton de Holanda. Foi uma parceria maravilhosa, a gente se emocionou muito no estúdio. Chegou uma hora que ele deu o acorde, eu comecei a cantar e vi que ele não entrava mais. Aí vi que ele estava chorando. Porque é uma letra muito sanguínea e honesta, né? (risos)


Você acompanhava seu pai nos shows do Akneton?
Ah, demais. Cantei com o Akneton quando era criança, morria de vergonha. Naquele show do Batman, eu cantei de Batgirl (risos). Eu já tinha muito agudo naquela época, já tinha uma voz que subia muito fácil, e ele me botava para fazer umas loucuras no palco com ele.


Sua mãe, Ana Costa, é médica… A figura da cultura na família materna era a irmã dela, Cristina Roberto?
Minha mãe é médica e é a produtora por trás dos produtores. Passa muito tempo ao telefone, me mandando fazer coisas (risos). Minha segunda mãe é a tia Cristina, que até estava em São Paulo quando nasci. Fui feita em Brasília, gestada no Xingu e nasci em São Paulo, mas sou totalmente brasiliense e tenho muito orgulho disso. Vim para Brasília com alguns meses, mal respirei esse ar de São Paulo quando era criança. Não sou paulista, sou brasiliense. E tenho uma relação muito forte com tia Cristina, que tem um jeito único de cantar. Ela tem uma técnica que inventou, parecendo a Elza Soares, aquela voz superdifícil de fazer. E ela tem uma coisa forte da poesia, embora tenha virado dona de bufê chique.


Você chegou a pegar os shows do Bom Demais, o bar que Cristina tinha na Asa Norte?
Peguei muito do Bom Demais, as nossas festas de criança, minhas e de minhas primas, eram no Bom Demais. Lembro da Cássia cantando lá, Tom Zé, Akneton, Adriano Faquini…


Você se considera uma pessoa de sorte?
Eu tenho muita sorte, mas também vou muito atrás da sorte. Sempre fui atrás das coisas, elas não bateram à minha porta, não. Inclusive quando fui fazer doutorado, tinha que ir muito a Veneza, pesquisar os manuscritos e tal. O pessoal da biblioteca pegava meu documento e falava: "Nossa, uma brasileira morando em Paris e trabalhando em Veneza… Que coisa, hein?". Eu ria: "Gente, eu cavei tudo isso, não foi ninguém que me deu de presente". Lógico que em muitos momentos eu bato na porta e a vida abre ou não os caminhos. Quando abre, agradeço e sigo o caminho. Se não, vou pra outro. Minha estrada tem sido assim.


E os caminhos foram muitos até agora… Você morou na Holanda, na Itália, na França…
Primeiro fiz um intercâmbio na Italia, quando tinha 17 anos. Fiquei um ano lá, estudando, fazendo canto lírico também. Depois voltei para o Brasil, fiz a faculdade inteira, me formei em cantor lírico na UnB com a Denise Tavares. Aí fui pra Holanda. Porque nessa época da Unb eu fazia muito curso de verão, curso de inverno de música antiga, e num desses um professor do Conservatório Real de Haia gostou de mim e me levou pra lá. Isso foi em 2001. Passei dois anos nesse conservatório, mas sofri muito, era muito rígido. Saí da Holanda com moral baixa, achando que nunca ia cantar na vida.


De lá você foi para a Itália?
Tive uma passagem de cinco meses na Espanha, porque minha mãe estava morando em Barcelona, e depois fui para a Itália, pensando em fazer musicologia, porque me interessava por pesquisa. Foi legal, era uma faculdade importante numa cidade pequena, Cremona. Me concentrei muito na pesquisa. Fiquei uns três na Itália e aí fui para Paris, a cidade dos sonhos, um lugar que eu queria muito chegar nesse percurso europeu. Porque eu sabia que era um lugar que acolhia bem a world music, nao só a brasileira, mas a africana, e eu tinha muita vontade de conhecer esse universo. Dizia que o que eu mais gostava de Paris era a África (risos). Mas nem tanto, também amo os parisienses. Enfim, lá conheci muitos músicos do Cabo Verde, da África em geral, de outros países da América do Sul. Paris é um centro de efervescência dessa cena, da música do mundo. O doutorado coroou essa experiencia europeia.


Você voltou ao Brasil depois de defender a tese e foi direto para São Paulo?
É, estou morando em São Paulo, não sei por quanto tempo. Nunca sei aonde o vento leva. Porque sou de raiz brasileira, mas do mundo, né?

Ouça a música Queda por um samba

Assista ao videoclipe de Onda

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