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Correio Braziliense NO COMANDO DA CARAVELA

O cantor e compositor Wado refaz a ponte entre a África e as Américas em seu quinto disco


postado em 07/11/2009 10:12 / atualizado em 07/11/2009 10:28

Wado já tinha feito shows até em Paris e Berlim, mas ali, no interior de Alagoas, estado onde mora desde pequeno, ele só conseguiu se apresentar este ano, na caravana do Projeto Pixinguinha. Com a premiação da Funarte, no valor de R$ 90 mil, o cantor e compositor fez quatro shows por lá e gravou seu quinto disco, Atlântico negro. Boa parte das músicas - das 11 faixas, oito são inéditas - ele mostra neste sábado (7/11) em Brasília, no palco montado na sede do Ibama, no encerramento da Mostra Nacional Ambiental.

No novo álbum, Wado se aprofunda no afoxé, no samba e no funk e assina parcerias com o escritor Mia Couto(foto: Maíra Villela/Divulgação )
No novo álbum, Wado se aprofunda no afoxé, no samba e no funk e assina parcerias com o escritor Mia Couto (foto: Maíra Villela/Divulgação )
O projeto que lhe rendeu o prêmio da Funarte foi inspirado no conceito "Black Atlantic", termo usado pelo sociólogo inglês Paul Gilroy para as trocas culturais entre a África e as Américas. Em Atlântico negro, Wado, que sempre falou em arte periférica, mergulha mais fundo nos "ritmos terceiro-mundistas", como o afoxé, o samba e o funk (carioca). Juntando sotaques dos dois lados do oceano e referências literárias como o moçambicano Mia Couto, mostra que tudo está conectado, que a grande rede é o Atlântico. "Andei lendo muito Mia Couto, foi outro ponto que trouxe esse encanto pela África", conta Wado, que usou trechos de livros do escritor moçambicano (O último voo do flamingo, A varanda do Frangipani e Terra sonâmbula) em duas faixas do disco, Estrada e Hercílio Luz. "Depois que musiquei os trechos, pensei: 'Lascou, agora vou ter de pedir parceria'. Mas escrevi para a editora dele e ele aceitou muito gentilmente". E são muitas as vozes nesse Atlântico negro. Em Estrada e na faixa título, textos são lidos com sotaque além-mar por Helder Monteiro, estudante da Guiné-Bissau que cursa administração em Alagoas. Em Martelo de Ogum, Wado reúne nos vocais três compositores contemporâneos, os paulistanos Curumin e Romulo Fróes e o alagoano João Paulo (vocalista e guitarrista da banda Mopho), e três cantoras (Fernanda Fassanaro, Vera Marinho e Juliana Barbosa). Gravado em três estúdios de Maceió e mixado por Kassin no Rio e Beto Machado em São Paulo, Atlântico negro é o disco de maior produção do compositor de 32 anos, nascido em Florianópolis e criado na capital alagoana. "Foi a primeira vez que pudemos trabalhar numa infra tão legal, e acho que isso se reflete na qualidade técnica do disco. Era um sonho trabalhar com Kassin, acho que ele e o (Mario) Caldato são os caras mais legais na produção atual no Brasil". Wado lançou em 2001 seu primeiro álbum, O manifesto da arte periférica. O segundo, Cinema auditivo, saiu em 2002; o terceiro, A farsa do samba nublado, em 2004; e o quarto, Terceiro Mundo festivo, em 2008 - este na internet e em formato SMD, assim como Atlântico negro. Músicas dos cinco discos - com ênfase no mais novo - estão no roteiro de hoje, no Ibama. "Está bem divertido", garante Wado, que terá no palco a companhia de João Paulo, do Mopho, como guitarrista da banda. "Tem sido massa fazer shows com ele, que toca muito e tem um timbre de voz bem bonito". CRÍTICA Sem cordão de isolamento Carlos Marcelo Sem cordão de isolamento Carlos Marcelo Preto ou branco? Rock ou axé? Brasil ou África? E por que não ambos se o oceano é o mesmo? Acostumado a transitar entre duas cidades, o catarinense-alagoano Wado quis estabelecer novas fronteiras para sua música, inquieta e pulsante desde o primeiro disco, O manifesto da arte periférica (2001). E conseguiu. Munido de novos e velhos parceiros, fez seu álbum mais diversificado - e também o mais acessível. A mixagem de Kassin e Beto Machado valorizou a ambiência e o resultado é que as músicas fluem sem arestas, quase que emendadas, sem alterações bruscas. A sequência inicial é empolgante: incursões pelo samba, reggaeton e afoxé, acalantadas por coro feminino e letras fáceis de memorizar. Cordão de isolamento poderia inclusive ser um hit dos trios elétricos baianos, não fosse a letra deliciosamente irônica: "Nosso amor é carnaval/ sem cordão de isolamento/ ou apartheid social/sem nenhum regulamento". Depois do suor, a sesta. O disco reduz o pique e adquire tom crepuscular, caso da bela Hercílio Luz ("Quero você na minha utopia"), uma das parcerias com Mia Couto. É quando surge um momento majestoso: a balada Pavão macaco, adornada pelos efeitos psicodélicos da guitarra de João Paulo (Mopho), segue a linhagem nobre de composições anteriores do cantor como Deserto de sal e A linha que cerca o mar. Ao final, se a inclusão do funk carioca Guerra no Iraque soa deslocada e pueril, o equívoco é compensado com a batida eletrônica incorporada à música tradicional nordestina Boa tarde povo. Com referências a Oxóssi, Ogum e outros orixás, sem perder contudo a pegada roqueira, Wado dá um passo à frente na trajetória e ensaia voos ainda mais altos. Já enxergou que ainda há muito a explorar do outro lado da ponte - e nem será preciso queimar as caravelas para chegar lá. Ouça a música Estrada, com Wado MOSTRA NACIONAL AMBIENTAL Neste sábado (7/11), a partir das 17h30, shows de Dudu Maia, Paulinho (com participação do Mel da Terra), grupo Calango Cyber (com o espetáculo Vida de calango), Wado e Quinteto Violado, na Ecovila montada na sede do Ibama (L4 Norte, próximo ao Centro Olímpico da UnB). Entrada franca. Classificação indicativa livre.

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