Diversão e Arte

Com apenas 33 anos, compositor Rodrigo Lima acumula prêmios e admiradores pelo mundo

Nahima Maciel
postado em 10/11/2009 08:00 / atualizado em 22/09/2020 14:32

Rodrigo: Rodrigo Lima nasceu em Guarulhos, cresceu em Goiânia e é filho de sergipanos. Tocou bateria na noite até comprar um piano com o couvert arrematado nos bares. Antes, fez umas aulas de flauta para ter noção de harmonia e descobriu, aos pouquinhos, o mundo da música erudita. A salada musical deu caldo e, depois de concluir que não seria um novo Tom Jobim, o rapaz tomou o rumo da erudição. ;Deu no que deu;, comenta o goiano Estércio Marquez Cunha, primeiro professor de harmonia de Lima, que convenceu o rapaz de que aulas particulares eram pouco para ele e seu futuro era mesmo na universidade.

O que deu é que Rodrigo Lima virou compositor de música erudita. E dos bons. A riqueza rítmica e melódica de suas peças encantou o maestro Ira Levin, que incluiu a obra Matizes no repertório que a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro toca hoje à noite acompanhada do solista Davson de Souza (flauta).

Aos 33 anos, depois de surpreender os professores do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB), onde fez o bacharelado, ele acumula prêmios em concursos de composição e encomendas internacionais que o alçaram a um dos mais jovens compositores de destaque da música erudita brasileira.

Em 2005, depois de vencer o Concurso Nacional Camargo Guarnieri com a obra sinfônica Nomos, Lima sentiu que estava no caminho certo. No ano seguinte foi a vez do prêmio espanhol Francisco Guerrero Martin para jovens compositores e do 3; Prêmio Internacional Iberoamericano Rodolfo Halffter de Composição do México. Este ano, voltou do Festival de Inverno de Campos do Jordão com o 1; Prêmio Camargo Guarnieri de Composição.

O resultado é que as peças de Lima passaram a integrar repertórios de conjuntos de câmara na Europa e América Latina e renderam um convite para fazer parte da Fundação do Autor, entidade espanhola hoje responsável pela edição de 10 de suas mais de 40 composições. Como consequência, as obras de Lima passaram a ser tocadas em todo o território europeu ; onde a sede por jovens compositores é bem maior que brasileira e costuma ser saciada com produção abundante e de qualidade. Se o currículo não convencer, basta escutar a fala do próprio Lima.

 

Ouça trecho de "Matizes", composição de Rodrigo Lima

 

Sotaque
Contido, mas preciso, com sotaque que vai de uma leve entonação nordestina a um sutil cantado goiano, ele lembra que para chegar às sonoridades delicadas e complexas das peças premiadas passou pela música brasileira e europeia com a mesma dedicação. ;Escuto muita coisa ao mesmo tempo, de moda de viola a coisas do repertório europeu, seja clássico ou contemporâneo. Jobim foi uma figura importante, quando comecei queria fazer o que ele fez e vi que era impossível. O resultado é que a parte melódica da música brasileira tem uma grande influência na minha música e isso inclui Hermeto Paschoal, Quinteto Violado, mas também Edgar Var;se, Luciano Berrio, Ligeti, Boulez.;

Mas se engana quem esperar de Lima uma música claramente nacional. A brasilidade do compositor é sutil e não está exposta aos ouvidos desatentos. ;É uma música com fortes elementos da música da década de 1950 e 1960 européia, com elementos de serialismo e elaboração estrutural intensa. Só que tem uma consciência rítmica impressionante. Isso faz com que a música dele tenha uma vitalidade no gestual muito grande. o que o diferencia dos compositores jovens. A música do Rodrigo se distingue por causa do aspecto rítmico;, avisa o compositor Sílvio Ferraz, diretor pedagógico da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), que convidou Lima para dar aulas na instituição e criou para ele uma disciplina antes inexistente. ;Ele ficou encarregado de prática de composição musical histórica. Só uma pessoa com o perfil dele permitiria que a gente tivesse esse curso.;

 

Ouça trecho de "Quinteto para sopros n; 2", composição de Rodrigo Lima

 

Santoro
Estudar em Brasília, o compositor admite, orientou e moldou sua forma de criar. ;O curso tem uma tradição, uma história com Claudio Santoro e uma força na arte da composição maior que em Goiânia. Acho que foi a melhor pedida. O Santoro criou esse núcleo de composição muito forte e formou outros compositores, então se criou uma história.

Sempre ligado à música moderna na Europa, ele trouxe muita informação.; Sérgio Nogueira, professor e espécie de tutor do compositor na UnB, acredita que a produção de Lima pode ser uma expressão de novos caminhos na música erudita contemporânea brasileira. ;A situação que a gente vive é meio difusa e não se encontrou um novo caminho dentro do estilo. Alguns usam sintetizadores, outros vão por uma linguagem mais tradicional. Mas o que Rodrigo está fazendo aponta para o que pode ser uma nova vertente da nossa música.;

O programa
Além de Rodrigo Lima, a orquestra reservou espaço para dois músicos locais: Zoltan Paulinye (violinista), com a peça Ipê sorrindo, e Fernando Morais (trompista), com Texturas 2. O maestro convidado Osvaldo Colarusso rege também as Bachianas brasileiras n;1 (Villa-Lobos), Seis peças para orquestra (A. Webern) e Parade (Erik Satie).

 

Confira trechos do ensaio da orquestra para obras de Fernando Morais

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