Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Artigo de Francisco Marques dos Santos sobre a festa, publicado em 1941 no Anuário do Museu Imperial

Francisco Marques dos Santos
Historiador e ex-diretor do Museu Imperial
O artigo foi publicado no Anuário do Museu Imperial, 1941, v.2,p.49-90.


Efetuou-se a 9 de novembro de 1889 com extraordinária pompa o baile oferecido no Palácio da Guarda-Moria, na Ilha Fiscal, pelo presidente do conselho de Ministros, visconde de Ouro Preto, à oficialidade do couraçado chileno Almirante Cochrane.
[SAIBAMAIS]
Excetuadas as visitas feitas pelo imperante e príncipes ao vaso de guerra chileno e o banquete oferecido à sua oficialidade por dom Pedro Augusto, o baile da Ilha Fiscal foi a mais solene manifestação oficial de apreço tributada ao governo do Chile pelo governo imperial, após as inúmeras demonstrações de simpatia prestadas à nação amiga, por todas as corporações e povo da capital do império, durante o largo estágio do Almirante Cochrane na Guanabara.

A fim de realizar esse baile com tão grande e desusado brilho, o governo louvou-se no gosto artístico e solicitude de seus delegados, que se desempenharam galhardamente na organização da festa mais esplendorosa e memorável nos fastos da nossa majestosa baía de Guanabara.

Os encômios tributados ao conselheiro barão de Sampaio Viana, inspetor da alfândega e ao, comendador Adolfo Fortunato Hasselmann, guarda-mor, organizadores do baile, ficam aquém do afã e dos prodígios de atividade que os dois cavalheiros realizaram.

Desde pela manhã daquele sábado famoso, os olhares interrogavam a tranqüilidade azul do céu, fitando-a amorosamente como numa íntima súplica, pedindo-lhe que ornasse a noite de estrelas, deixando para depois da festa as nuvens ameaçadoras, desfeitas na noite anterior em aguaceiro importuno. Veio, afinal, um sol amarelo de verão, constante e quente, acompanhando a marcha do dia que ia passando, promissoramente.
Às duas da tarde, ao começar o movimento dos bairros nobres, principiou a marcha das carruagens para a cidade e a enchente nos bondes ; do gárrulo bando que vinha tratar das encomendas delicadas, protestando desconfiança da memória, das notas e principalmente do bom gosto dos pais e dos maridos. Crescia na Rua do Ouvidor a onda multicor dos vestidos e dos chapéus e muita gente perdeu nas transações feitas nesse dia, na Casa Wellicamp, na Casa Guimarães, no Palais Royal, na Casa Mercier, na Combacau, no Barbosa & Freitas, na Mme. Roche, no Formosinho, na Casa Doll, no Pinho, no Preço Fixo, na Notre Dame, no Schmidt e no Chesneaux ; tudo quanto ganhou nas transações da Rua da Alfândega.

Acabou mais cedo que de costume o movimento no centro: era preciso voltar para casa, esperar pela modista e pelo cabeleireiro. Felizes os que conseguiram um cabeleireiro! Houve gente que, para tê-lo, fez penteado de baile às 9 horas da manhã; e para autenticar esta afirmativa, basta dizer que o habilíssimo Alfredo, da Casa Schmidt, saiu em tílburi às oito e meia da manhã e voltou para casa às dez da noite!

Nos barbeiros era igual o movimento: um pobre homem que quisesse simplesmente fazer a barba, tinha de esperar a vez, com a resignação de quem não podia protestar contra nada, até que se acabasse o trabalho dos ferros quentes na feitura das pastinhas com que a elegância masculina, dos dezoito aos vinte e poucos anos, se apresentava então, cheia de bazófia e de cosmético, na conquista dos salões, metida em colarinhos pontiagudos e desferindo olhares de galã através de binóculos sem grau
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O povo fazia uma verdadeira procissão, desde o Largo de São Francisco até o largo do Paço, constantemente renovada pelos contingentes fornecidos pelos bondes de Botafogo, de Vila Isabel, de São Cristóvão, da Praia Formosa, da Lapa e do Riachuelo, de todas as linhas enfim, porque cada uma das 500 mil pessoas do Rio de Janeiro que não teve um convite para o baile da Ilha Fiscal, tornara-se um inimigo encarniçado, ou do barão de Sampaio Viana, ou do comendador Hasselmann.
No largo do Paço, mais de seiscentos carros engrossavam constantemente a massa de povo que procurava as barcas e enfileiravam-se, depois, até a Rua da Misericórdia. Seis grandes arcos e dois candelabros de gás iluminavam a ponte flutuante e a estação, onde tocava uma banda de música.

Às capas riquíssimas de seda e arminho acotovelavam os sobretudos leves; as rendas das mantilhas mal ocultavam os penteados, de que escapavam fulgores de jóias rutilantes.

As luzes do gás tiravam milhares de chispas dos brilhantes preciosos e do ouro das fardas bordadas e caíam sobre os chapéus armados e bonés militares. Aí começava a formação dos grupos; onde, de repente, surgiu a princesa imperial, com magnífico vestido preto bordado a ouro, conversando com uma dama de sua casa. Perto, S. M. a imperatriz, S. M. o imperador, o conde d;Eu, o príncipe d. Pedro Augusto, os camaristas e veadores. Quatro senadores e dois oficiais de alta patente completavam esse grupo, olhado avidamente por muitos outros, em alguns dos quais bem se percebia a comoção dessa aproximação primeira.

A conversa geral protestava contra a demora da barca que não chegava. Para se distraírem, alguns cavalheiros contavam que o panorama que dali se destacava, era Veneza pura; outros falavam sobre a subscrição do Banco do Brasil; um lembrava que àquela hora, em São Paulo, Bartolomasi estava provavelmente na premi;re do SCHIAVO, a fazer saudades de De Ana. Naquele espaço limitado havia pelo menos cem senhoras.

Na baía cruzavam de um lado e de outro, com lanternas pendentes, lanchas e bóias. A barca que se aproximava, com profusa iluminação de copos de cores, focos de luz vermelha e azul, centenas de lanternas enfileiradas lateralmente de proa a popa, parecia uma ilha fantástica, flutuando docemente, abrindo caminho sobre águas prateadas, deixando um sulco fosforecente, uma deslumbrante esteira misteriosa.

Ao longo destacava-se, nos contornos mínimos, a figura gótica da ilha, com as esguias torres rompendo o espaço, com milhares de luzes, envolvida na gaze de um azul claríssimo, produzida pelos focos iluminativos assestados contra ela pelo Almirante Cochrane e pelos outros navios de guerra, notadamente o Riachuelo e o Aquidaban. A face que se divisava da ponte de embarque, era a lateral da ilha; a barca seguia nessa direção, fazia a volta e aproava para a frente, ficando então entre esta e o Orion (navio da AIfândega), também iluminado.

À proporção que a gente se aproximava, o olhar, já afeito ao esplendor, começava a distinguir os menores detalhes da construção, as figuras movediças dos cavalheiros e das senhoras, cada lanterna, cada copo de cor, cada lâmpada elétrica. Era de um maravilhoso efeito o pavilhão da entrada, onde foram armadas inúmeras pequenas mesas, nas quais as taças de champanhe refletiam em tons caprichosos os milhares de luzes. No pavilhão da ceia, as duas mesas armadas em ferradura ostentavam o riquíssimo serviço da Casa Pascoal: nas cabeceiras do lado do mar, dois enormes pavões estendiam a aberta cauda multicor, abrangendo o espaço dos seis primeiros talheres; seguiam-se alternadamente peças inteiras de caça e peixe, entre as quais ficavam enormes castelos armados em açúcar, de mais de metro de altura, em cujos torreões as bandeiras chilena e brasileira guardavam delicadíssimos bombons. Em frente a cada talher havia nove copos de diferentes feitios, três brancos e seis de cor. De espaço a espaço, erguia-se, ora uma jarra com flores, ora uma urna, ora um candelabro de prata. Mais de oitenta criados faziam o serviço nesta sala, cuja mesa custara o trabalho de quarenta e oito cozinheiros durante três dias consecutivos; os chefes do serviço estavam na pequena sala reservada à família imperial, ao Iado e na qual o presidente do Conselho ergueu a saudação ao Chile.
Mais longe, no pátio, viam-se centenas de pessoas, umas passeando de um para outro lado, outras sentadas, umas saindo e outros entrando para os salões. Ouvia-se o som da orquestra numerosa, tocando nos terraços laterais e através das janelas abertas, viam-se os pares que passavam no penoso exercício da dança, penoso naquela acumulação de gente. Efetivamente, nessa festa esplêndida, cuja magnificência esteve além de toda a previsão, apesar de ser um baile, a dança foi um incidente. Nos planos superiores pouca gente havia; alguns animaram-se a subir até o salão de honra.

Às oito horas da noite, no cais Pharoux, principalmente e em outro cais donde podia ser vista a Ilha Fiscal, era extraordinária a aglomeração de curiosos, ávidos de apreciar os efeitos da iluminação e o transporte dos convidados para a esplendorosa festa.

A iluminação da ilha refletia-se sobre as águas em luzes multicores e o holofote do alto da torre, de uma intensidade de 60.000 velas, espadanava jorros de luz, batendo em cheio nos edifícios da Praça Dom Pedro lI, Igreja do Carmo, Capela Imperial e embebiam-se na Rua do Ouvidor, vistos até do Largo de São Francisco de Paula. Realçava tudo isto a luz pálida da lua, que às vezes ofuscava-se entre densas nuvens para dar maior deslumbramento àquela cena.

Os couraçados brasileiros e o couraçado chileno cruzavam as luzes dos seus grandes focos elétricos, a iluminarem a baía.

Até a meia-noite a multidão foi sempre crescente, enchendo toda a linha do cais desde a doca do mercado até o Arsenal de Guerra.

Os convidados embarcavam no cais Pharoux, repleto de povo, iluminado e ornamentado, bem como a ponte Ferry, com os seus arcos e candelabros de gás de 19 bicos cada um e bosque artisticamente disposto, onde tocava durante o embarque dos convidados a banda de música do corpo policial do Rio de Janeiro em grande uniforme.

O transporte era feito pela barca Primeira, que fizera tantas viagens entre o Pharoux e a ilha, quantas foram precisas, iniciando o seu afã às oito e meia horas.
Foram tomadas todas as cautelas para o mais seguro e cômodo desembarque, com o auxílio de uma prancha móvel atapetada, de corrimões acolchoados e impelida por 12 marinheiros.

Em frente ao cais de desembarque destacava-se um lindo bosque; nas paredes do torreão, via-se de um lado um belo quadro alegórico, simbolizando a recepção do Cochrane, por ninfas e golfinhos saindo da Guanabara e oferecendo ramos de fores aos marinheiros chilenos. Do outro lado, um painel com episódio da história chilena.

O Pavilhão da entrada

Corrido em quase toda a extensão do cais, era como que uma sucessão de pavilhões, em que as cores da bandeira chilena alternavam-se simetricamente, nas paredes e no teto.

Para o lado esquerdo, ao primeiro lance do palácio da Guarda-Moria, estava o pequeno salão destinado ao toucador das senhoras. Tudo o que havia de mais apurada elegância quer em relação aos móveis, quer em relação às alfaias, ali encontraram as gentis fluminenses.
Uma das portas dessa sala abria para os salões de baile.
No primeiro, as paredes sumiam-se sob os festões de flores naturais e palmas. No teto corriam festões de rosas artificiais, de onde refletiam grandes focos de luz elétrica. Ao alto, coroas de flores artificiais rematava a ornamentação, por sobre troféus de bandeiras brasileiras e chilenas, entrelaçadas.
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Mais um passo e entrava-se no segundo salão de dança. Na brancura das paredes sobressaíam em relevo duas grandes âncoras, uma toda de rosas, outra simulando aço polido, tendo uma flor a desabrochar em cada extremo.

A essa sala seguiam-se os dois grandes salões de dança. Sobre a porta da entrada de cada um, elevavam-se em magníficas cópias a óleo, os retratos dos almirantes Cochrane e Grenfell, de autoria do pintor Artur Novak. Entre as linhas perpendiculares de festões de flores, por sob as bandeiras chilenas e brasileiras entrelaçadas, refletindo a iluminação elétrica, altos espelhos de guarnição de pelúcia carmesim alinhavam-se paralelamente, ao longo da sala. O soalho desaparecia sob o finíssimo tapete vermelho. Portas e janelas ostentavam preciosas cortinas.
Na outra ala do palácio, três outros salões de dança estavam ornamentados da mesma forma, só divergindo na mobília.

Tanto nessa sala, como na outra, entre o segundo salão e o grande, achava-se armado um bufê especial.

Salão da ceia

Ao lado esquerdo do pavilhão de desembarque, no extremo da ilha, foram armadas duas mesas em forma de ferradura, conforme já vimos.

Em homenagem ao Chile, no lado direito do salão, em escudos das cores azul e encarnada, achavam-se inscritos os nomes dos presidentes e seus principais homens de letras e ciências, desde 1818; ao lado esquerdo, em escudos idênticos, os nomes dos navios da esquadra chilena. Destacava-se na ornamentação desse salão outros adornos com as cores chilena e grande profusão de lâmpadas elétricas, além de muitos candelabros com velas.

A sala reservada à família imperial e em cujas portas havia muitas cortinas estava ricamente mobiliada, luxuosamente ornada e profusamente iluminada
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Os coretos para as orquestras do baile foram levantados nos ângulos das duas alas do edifício e no terraço, transformado em bosque; tocou durante toda a noite a banda de música dos menores do Arsenal de Guerra.
Além destas salas, são dignas de citar a de toilette de S. M. a imperatriz, com móveis alcatifados de vermelho e ouro, jardineiras japonesas cheias de ramos de violetas, flores que também juncavam o tapete; a do jogo, com oito mesas para voltarete; o salão nobre no primeiro andar, com as suas poltronas e tamboretes de ébano, foi simplesmente ornamentado de pavilhões chilenos e brasileiros, pendentes das colunas e iluminado a globos foscos de luz elétrica.

O transporte de convidados, em sua maioria, fez-se na barca Primeira e em lanchas da Alfândega: aquela cruzava ao largo e estas navegavam pelo canal interior que, desde o Pharoux até a ilha, achava-se assinalado por uma linha curva formada de batelões iluminados a giorno.

Da meia-noite em diante, a barca partia de meia em meia-hora, em demanda do cais Pharoux, conduzindo os convidados que ainda chegavam ou se retiravam.
A barca Primeira, fora ornada com pinturas e bandeiras das cores chilenas e brasileiras e iluminada a giorno. De cada bordo estendiam-se linhas de lampiões venezianos multicores de grande efeito, vendo-se as letras C e B engenhosamente arranjadas com pequenos copos de cores.

Interiormente estava alcatifada e iluminada com lanternas e candelabros. No centro havia sido preparado um único camarim, com grande candelabro de prata, para a família imperial.
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Às oito horas principiaram a chegar os convidados, cujo número crescia a todo o instante.

A primeira leva de convidados aportou à ilha, conduzida pela barca Primeira. A impressão ao desembarcar foi de imensa surpresa. A ornamentação e iluminação da ilha, a giorno e as lâmpadas elétricas de vários sistemas eram surpreendentes

005. Os convidados que chegaram pela última barca tiveram a mesma sensação porque o encantamento será de todos os tempos indescritível, quer pelo panorama delicioso da baía em noite clara, quer pela fascinação da ilha iluminada à luz elétrica, lanternas venezianas, copinhos de cores, realçando os penachos, os chapéus armados, os vestidos de baile, os brilhantes, as espadas, as pulseiras, os penteados, os decotes, o olhar das morenas e o porte airoso das louras...

Pouco antes de dez horas chegou à estação Ferry a família imperial. S. M. o imperador fardado de almirante, o príncipe d. Pedro Augusto vestido de casaca, trazendo a grã-cruz do Cruzeiro.

SS. AA. a princesa imperial e seu esposo conde d;Eu, embarcaram às 10 e um quarto. S. A. trajava casaca.
Pouco antes haviam seguido para a ilha a oficialidade da Guarda Nacional da Corte em grande gala, assim como os oficiais da Marinha e do Exército.
Os ministros que embarcaram primeiro foram os srs. conselheiro Cândido de Oliveira e barão de Ladário.
Abrigados por enormes toldos, nos terraços do norte, estavam dispostos vários bufês e do lado do oeste enormes mesas para a ceia, ornadas com suntuosidade. Internamente, bufês para senhoras e um separado, para a família imperial.

Todo o serviço foi da Casa Pascoal, dirigido pelos seus proprietários e servido por 150 empregados.
No alto da torre tocava a banda de música do Arsenal de Guerra e aos lados dos dois principais salões de dança, duas orquestras compostas dos melhores professores e dirigidas pelos profissionais Joaquim de Carvalho e José de Oliveira.

SS. MM. imperiais e Sua Alteza o príncipe D. Pedro Augusto chegaram às 10 horas e foram recebidos ao som do Hino Nacional, por uma comissão de senhoras, pelo presidente do Conselho de Ministros, comendador Hasselmann, barão de Javari, conde de Figueiredo, comendador Rodrigues de Oliveira e outros.
Acompanhavam SS. MM. o conselheiro barão de Sampaio Viana, vários membros do ministério e inúmeras pessoas gradas.

SS. MM. foram encaminhados para o salão do lado sul, onde tomaram assento e onde já se achavam reunidos o sr. Vilamil, ministro da república do Chile, o segundo secretário da legação chilena, o conde (cônsul do Chile) e condessa da Estrela, vários membros do corpo diplomático estrangeiro, oficiais de mar e terra, senhoras e cavalheiros da mais alta sociedade fluminense.

O capitão de mar e guerra dom Constantino Bannen, comandante do Almirante Cochrane e mais oficiais do couraçado chileno, chegaram à ilha pouco depois de SS. MM. imperiais, numa lancha a vapor.

Os oficiais do couraçado Almirante Cochrane foram recebidos pelo presidente do Conselho de Ministros, barão de Sampaio Viana, comendador Hasselmann e Estado-Maior da Guarda Nacional.

Em volta da ilha, barcas iluminadas, chalupas a vapor, escaleres apinhados de famílias paravam a pequena distância, admirando o esplendor das iluminações, das toilettes, das músicas e dos revérberos multicores nas serenas águas da baía, revérberos aos quais se juntavam os poderosos jatos luminosos elétricos dos holofotes da ilha, do couraçado chileno e dos couraçados brasileiros.

Sua Alteza a princesa imperial e Sua Alteza o sr. conde d;Eu fizeram entrada no salão às onze horas.

O Baile

Dado o sinal da primeira quadrilha, as contradanças começaram nos dois grandes salões às onze horas em ponto.

As danças foram dirigidas pelos srs. barão de Maia Monteiro, dr. Miguel Arcanjo de Paula Lima, Luís da Gama Berquó, Raul de Sampaio Viana, dr. José Pinto de Souza Dantas e José de Figueiredo.

A Primeira, no seu incessante vai e vem, apinhava ainda quando à uma hora da madrugada aportava à ilha e não será exagero computar em número superior a quatro mil os convidados que tomaram parte nesse baile memorável.

Tudo quanto se distinguia em posição elevada, política, diplomacia, magistratura, exército, armada, ciência, imprensa, belas artes, comércio, letras e indústrias, lá se achava brilhantemente representado.

À uma e meia da madrugada, SS. MM. e AA. imperiais tomaram lugar na mesa da ceia que lhes fora preparada, no pavilhão para esse fim construído e em compartimento contíguo parte dos convidados, em duas grandes mesas de forma semi-oval.

Ao servir-se o champanhe, foram corridos os reposteiros que dividiam as duas salas.

O visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho, ao champanhe, em eloqüentes palavras, ergueu o brinde, recordando os serviços prestados pelo almirante Cochrane ao Chile e ao Brasil, a amizade das duas nações sempre constante e demonstrada em diversas circunstâncias, lembrando os progressos e engrandecimento do Chile, que ocupava posição respeitada entre as nações cultas, referindo-se à índole generosa do povo chileno, acentuando o seu constante empenho na manutenção da paz, honrando o patriotismo e o valor dos cidadãos daquela república; disse que aquela demonstração não era só do governo, era do povo brasileiro cujos sentimentos de fraternal amizade interpretava naquele instante, devendo acrescentar que não era só a amizade que a determinara, mas também a gratidão pelo acolhimento e obséquios prestados aos nossos compatriotas quando aportavam ao solo chileno.

Dirigindo-se depois, nos termos mais afetuosos, ao ministro, comandante e oficiais chilenos, concluiu levantando um viva ao Chile.

Este viva foi entusiasticamente correspondido subindo ao ar uma grande girândola e dando a fortaleza de Villegaignon uma salva de 21 tiros.

O sr. Manuel Vilamil Blanco, ministro do Chile, respondendo ao visconde de Ouro Preto, disse que um sentimento que enchia o seu coração e que esse sentimento, também de todo o povo chileno, era a gratidão. Reconhecido a tantas, tão afetuosas e honrosas demonstrações feitas ao seu país, tendo ouvido, pela voz autorizada do presidente do Conselho, os mais lisonjeiros conceitos, assegurava que o Chile sentia-se feliz e orgulhoso com a amizade que em longo período o unia ao Brasil.

Só em último extremo, disse o ministro, quando esgotados todos os recursos e se tornasse imprescindível a defesa de sua honra e de seus direitos, recorreria o Chile às armas porque o seu empenho era a paz, pois reconhecia que só com ela prosperavam e engrandeciam os povos.

Recordando o longo período de paz que tinha gozado o Brasil, graças ao valioso concurso do chefe da nação que a eIa se tinha consagrado dia por dia, hora por hora, minuto por minuto e sentindo-se feliz e orgulhoso pelas demonstrações feitas ao seu país, levantava um viva à prosperidade do Brasil e a S. M. o imperador.
Ao comandante e oficiais chilenos, alvos das maiores atenções por parte das senhoras e cavalheiros presentes, foram dirigidas diversas saudações por pessoas que com eles se achavam e não podendo reproduzi-las, referimo-nos às dos conselheiro Diana, ministro de Estrangeiros e Duarte de Azevedo.

O comandante Bannen respondeu às duas saudações, em uma alocução na qual reiterava os seus protestos de gratidão pelas repetidas atenções feitas ao seu país, externando a mais lisonjeira opinião sobre as instituições, governo e povo brasileiros, fazendo o elogio do seu progresso e adiantamento, apreciado por ele e seus oficiais nas visitas feitas aos estabelecimentos de natureza diversa.

Retirados dos pavilhões da ceia os primeiros convivas, foi a lauta mesa consecutivamente renovada e servida aos demais convidados

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Às duas horas da manhã, estavam as danças no seu entrain e em volta da ilha e no cais da cidade ainda avultavam os curiosos.

SS. MM. e AA. imperiais conservaram-se no palácio fiscal até às três horas da madrugada, retirando-se então com as mesmas formalidades com que foram recebidos, S. A. o príncipe dom Pedro Augusto, que tinha ido com SS. MM., demorou-se ainda algum tempo.
Ao comandante Bannen ofereceu S. M. o imperador o episódio de Claura, por ele traduzido, do poema Araucania. Essa oferta muito lisonjeou ao comandante, que agradeceu reconhecido de tanta bondade e distinção.

Até às cinco horas da manhã vinham em regresso os convidados na barca iluminada. Longas filas de carruagens ainda se postavam no cais Pharoux.
Pesadas nuvens pardacentas envolviam a atmosfera. Fora, não obstante, realizada a última festa da monarquia. O encantamento daquele sábado velou o indício da borrasca em perspectiva; ela viria depois dos esplendores da festa maravilhosa, anunciar uma outra aurora e acordar-nos de um sonho fantástico.
Que sonho! Que encerramento para um ciclo de ouro foi aquele baile que ainda nos assombra com o seu esplendor grandioso!