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Correio Braziliense 42º FESTIVAL DE BRASÍLIA

Lula como trunfo


postado em 19/11/2009 08:58

Outra barreira no filme Perdão, mister Fiel — “a da monotonia dos documentários que se restringem a depoimentos” — também foi ultrapassada, com as cenas recriadas por atores como Similião Aurélio, Roberto de Martin, Gê Martu e Alice Stefânia, num recurso similar ao adotado no seu média-metragem A esfinge — Floriano Peixoto. Outros trunfos estão nos depoimentos do presidente Lula (assediado por longos sete meses pela produção), e no ineditismo da participação do ex-militar Marival Chaves. “Pela primeira vez, um ex-sargento — como agente, lotado no DOI-Codi — conta o funcionamento do serviço de inteligência e de como as pessoas ‘eram desaparecidas’”, revela o diretor. A voz do ex-presidente Ernesto Geisel — em gravação cedida pela biógrafa Maria Celina D’Araujo —, que fala sobre Fiel, também é relíquia. “Com o caso, Geisel dispensou o comandante do 2º Exército, Ednardo D’Ávila Mello, no dia seguinte à morte e, meses depois, exonerou Sylvio Frota do Ministério do Exército. Mas, o governo Geisel também é questionado no filme, como o que mais matou comunistas no Brasil”, conta.

Com visão aguçada por pesquisa histórica, Jorge Oliveira — há duas décadas radicado em Brasília — não deixou de lado traços políticos que circundaram a morte de Manoel Fiel Filho. Entram na fita, portanto, aspectos do processo de anistia, posicionamentos divergentes sobre instrumentos da ditadura (entre os quais, os de Lula e do irmão dele, Frei Chico) e a atuação de agentes da CIA, na difusão de métodos de tortura pela América do Sul. “A intervenção dos Estados Unidos acarretou em prejuízo moral, social e até físico para o Brasil. Levanto bandeiras, para que conduzam a discussões”, diz.

Com ou sem prêmio Candango, Jorge Oliveira já alcançou a satisfação: “Depois que comecei a fazer o filme, para minha surpresa agradável, Manoel Fiel Filho passou a ser um personagem da história do Brasil. Com o noticiário feito em torno do filme, o Ministério Público de São Paulo reabriu o processo da morte dele. Todas as pessoas envolvidas com o caso, direta ou indiretamente, serão chamadas a depor. Só isso já é gratificante e paga o fato de ter resgatado a história da morte dele.”

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