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Correio Braziliense LITERATURA

Poesia para a alma com Alessandro Uccello

Engenheiro de formação, Alessandro Uccello lança hoje o terceiro livro de poesias, Terapoéticas


postado em 13/12/2009 08:00 / atualizado em 12/12/2009 18:40

A poesia acompanha Alessandro Uccello desde a adolescência. Aos 13 anos, já esboçava seus primeiros versos. Nascido em São Paulo e criado em Brasília, em 1976 e 1980, reuniu sua produção em dois livros artesanais: S.Ó.S. e Horizonte cerrado. Ao longo dos anos, o engenheiro agrônomo e funcionário do Banco Central participou de concursos, saraus, mas demorou até mostrar novamente suas poesias ao público em uma publicação própria — pois textos seus integram várias antologias poéticas. Por conta própria, lançou, em agosto de 2007, Eu com verso, uma seleção que, como adianta a introdução, “é resultado de 30 e tantos anos de conversas \`terapoéticas\`”. E o prefácio é assinado por Elisa Lucinda.

“A gente ficava na dúvida se era talento ou apenas algo que ele gostava de fazer. Tivemos coragem e entregamos pra Elisa. Ela leu, se encantou, se apaixonou pelas poesias. E escreveu o prefácio”, conta Sonia Rosenberg, mulher de Uccello. O novo livro, Terapoética— como transformar problemas em poemas, também ganhou comentários de abertura pelas mãos de Elisa Lucinda. A poesia de Uccello teve repercussão inesperada. Gerson Conrad verteu três poesias em canções e a atriz Maitê Proença, num programa de rádio paulista, disse à locutora que Eu com verso era um dos melhores livros que estava lendo no momento.

Pouco antes de receber elogios de Lucinda, Uccello, 49 anos, foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença que não compromete as capacidades cerebrais, mas danifica os neurônios motores e paralisa os músculos — o físico Stephen Hawking é portador da mesma doença. “Ele respira e digita com dificuldade. Só se comunica por meio de movimentos com as mãos e pelo iPhone, que é onde digita suas memórias e poesias”, relata Sonia, sempre com os olhos fixos nos gestos do marido. Apesar da gravidade do diagnóstico, Uccello não largou a poesia e continou criando como pode, apoiado pela mulher. “Não tem cura, só dá pra administrar os efeitos. É preciso ter uma cabeça incrível, sensacional como a dele, que não teve nenhum momento de grande desespero”, diz ela, casada com o poeta há 13 anos.

Cartilha
O livro seguinte, O pingo e a gota, de 2008, marcou a incursão de Uccello na literatura infantil. Antes de descobrir a doença, o poeta contava, todas as noites, historinhas para Elisa e Laura, 6 e 7 anos, filhas do casal. Impossibilitado de falar com o avanço da doença, passou para o papel os personagens que embalavam o sonho das meninas. A mensagem ecológica de O pingo e a gota chamou a atenção da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que, a partir do livrinho, fez uma cartilha pedagógica para uso de educadores. Uccello lança Terapoética hoje à noite e já pensa nos dois livros infantis que estão em plena produção.

Com o iPhone em punho, o poeta tecla os nomes de Chico Buarque, Elisa Lucinda, Fernando Pessoa, Manoel de Barros e Mário Quintana como seus inspiradores. Mas o que alimenta suas poesias é o cotidiano, os relacionamentos humanos e as coisas que dão sentido à vida. Fitando o marido, Sonia diz que a poesia serve de terapia para os problemas. Aos gestos, ele concorda. “Não é que cada problema origina um poema. A poesia é uma forma de se abstrair do problema”, ela traduz. Não à toa, Sonia identifica traços irônicos e amargos em Terapoética, a propósito dos poemas Legado e Normal. Até 2007, a poesia foi companheira inseparável de Uccello. Desde 2007, tem sido também remédio que não se encontra em nenhuma prescrição médica. -->-->-->

Legado

Qual é o sentido de nossas finitas vidas
senão tornar outras vidas mais bonitas?

Deixar filhos, deixar versos, deixar quadros
deixar filmes, deixar livros, deixar flores
deixar fotos, deixar músicas, deixar pratos
deixar obras, deixar marcos, deixar cores

E então, deixar a vida
deixando na vida mais vida
deixando a vida de quem fica
mais rica e mais bonita

Normal

Deus é justo
e ao ver que eu tinha mais brilho
que a maioria de seus filhos
resolveu me dar um susto
e das minhas costelas
pariu ela*

Deus é justo
e ao ver que eu havia ganho
mais do que o resto do rebanho
resolveu cobrar o custo
e dos meus neurônios
tirou os sonhos

A justiça divina
não visa o bem nem o mal
ela apenas se destina
a enquadrar na curva normal
a felicidade e a infelicidade
da humanidade

Esqueça a mística
Deus é estatística

* ela – esclerose lateral amiotrófica

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