Diversão e Arte

Juquinha já foi Rei

Realizada a partir de pesquisa de Athos Eischler, edição esmerada recupera todas as histórias do primeiro herói dos quadrinhos brasileiros, desenhado por J. Carlos

Severino Francisco
postado em 07/01/2010 07:01
Em 1955, o poeta Carlos Drummond de Andrade publicou, no Correio da Manhã, uma bela crônica evocando a célebre revista Tico-Tico, que animou a imaginação de várias gerações de crianças brasileiras, proporcionando aos meninos do começo do século 20 a possibilidade de, segundo o poeta, viver uma espécie de segunda vida para "fugir à condição escrava de falsos marinheiros, trajados dominicalmente com o uniforme, porém sem navio, que nos subtraísse ao poderio dos pais, dos tios e da escola". A certa altura, Drummond exalta o personagem Chiquinho, importado dos Estados Unidos, também publicado na revista Tico-Tico, e descarta Juquinha, o primeiro herói brasileiro das histórias em quadrinhos, registrando apenas que "não pegou".

Memórias d%u2019O Tico-Tico Juquinha,Giby e Miss Schocking, de J. Carlos. Pesquisa e texto de Athos Eischler Cardoso/Edições Senado Federal. Preço: R$ 70A menção de Drummond condenou Juquinha a um longo esquecimento. Na passagem do centenário da revista Tico-Tico, em 2005, foram publicadas duas alentadas obras para celebrar a data. Juquinha só mereceu duas ou três míseras linhas. Mas, graças a tenacidade do pesquisador brasiliense Athos Eischler, a justiça acaba de ser reparada com uma edição de arte, pelo Senado Federal, que contempla todas as histórias de Juquinha, Giby e Miss Shocking, desenhadas por J. Carlos (1), na revista Tico-Tico. Juquinha é um garoto encapetado; Giby é o amigo negro e principal vítima; Miss Shocking é uma ciosa professora.

Esse material estava perdido, porém existe uma coleção da Biblioteca Nacional e outros raros exemplares nas mãos dos colecionadores: "Nós conseguimos reproduzir todas as histórias do Juquinha. Trouxemos para o Senado e escaneamos tudo".

Athos realizou uma dissertação de mestrado na Universidade de Brasília (UnB) sobre o tema da literatura de massa em fascículos, que começou em 1910 com Sherlock Holmes, se desdobrou em Buffalo Bill e desembocou nas traduções da Editora Vecchi, que fazia versões dos clássicos populares. "Sempre gostei de quadrinhos. Acompanhei o surgimento do quadrinho brasileiro em 1934. Era uma coisa superpopular, publicada em três ou quatro edições por semana. As principais eram o Gibi, o Suplemento Juvenil, o Globo Mirim", destaca.

Em 2002, Athos lançou, pela mesma Editora Senado, uma outra preciosidade: Nhô-Quim e Zé Caipora, de autoria do desenhista Agostini, a primeira história em quadrinhos publicada no Brasil: "Foi uma sorte", conta Athos. "Um amigo tinha uma coleção completa da Revista Ilustrada, em que Agostini publicava as tirinhas de Nhô-quim".

Ele contesta a versão de que o Chiquinho teria sido o primeiro herói brasileiro das histórias em quadrinhos. Esgrime o argumento de que não foi efetivamente desenvolvido como criação brasileira: "O Chiquinho era um personagem das histórias em quadrinhos americanas, copiado no Brasil em papel de seda. O Juquinha começou a ser publicado em 1907, durou até 1913 e já estava superando o Chiquinho no gosto do público. O pessoal da academia tem de fazer penitência por ter referendado a versão de Carlos Drummond, pois ele estava errado. O Juquinha fez tanto sucesso que até hoje existe o personagem do menino que faz perguntas capciosas para os pais ou os professores".

Giby
O pesquisador alinha outras alegações: Drummond só tinha três anos de idade quando o Juquinha apareceu na revista Tico-Tico pela primeira vez. Em 1907, J. Carlos deixou a revista e passou a trabalhar na revista A Careta. Mas o personagem do Juquinha era tão forte que ele acabou criando outro personagem para contracenar, batizado de Giby, o primeiro herói afro-brasileiro: "Só que o Juquinha judia muito do Giby", admite Athos. "Se eu deixasse de mencionar este detalhe, as pessoas me acusariam de racista."

Athos lembra que J. Carlos foi um dos maiores ilustradores do mundo. Walt Disney o convidou para trabalhar nos seus estúdios, mas ele se recusou, pois gostava muito do Brasil . O personagem Zé Carioca teria sido inspirado no personagem de um papagaio desenhado por Jota Carlos: "Está na hora de jogar o J. Carlos para cima".


Mestre do traço
J. Carlos é considerado um dos maiores artistas gráficos do Brasil. Ele era carioca, nasceu em 18 de junho de 1884. Deixou como legado uma vasta produção, trabalhando nas mais importantes revistas brasileiras de sua época. O seu traço fui muito influenciado pelo estilo art nouveau, marcado pelas linhas curvas, a elegância e o detalhismo na composições de personagens e ambientes. Começou a desenhar o personagem Juquinha, o primeiro herói brasileiro dos quadrinhos, na revista Tico-Tico, em 1906. Teve também atuação destacada na revista Careta, a partir de 1907. J. Carlos morreu no Rio de Janeiro em 1; de outubro de 1950.

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