Publicidade

Correio Braziliense

Leia resenha e trecho do livro Os monstros


postado em 17/01/2010 11:40 / atualizado em 17/01/2010 11:55

Esqueça aqueles contos de fada que conhecemos desde os tempos de criança, pois o mundo infantil criado pelo escritor norte-americano Dave Eggers é sombrio – e real. Não que seja algo chato, fantasioso demais. O que Dave faz é mostrar que a mente de um pequenino suporta muito mais que princesas, cavaleiros e jovens indefesos. E é justamente deixando a mente de uma criança fluir que ele conquista pais e filhos no livro Os monstros.

Inspirado diretamente no infantil Onde vivem os monstros (1963), de Maurice Sendak, e baseado no roteiro do filme homônimo de Spike Jonze, a obra chega ao mercado brasileiro por meio da editora Companhia das Letras e com tradução de Fernanda Abreu.

Ao vestir sua fantasia de lobo no quarto e sair “uivando” pela casa, Max (o personagem central) não sabe o que está por acontecer. Depois de mais um conflito com a família, ele decide vagar sem destino. Quando sobe num barco a remo, o garoto embarca em um mundo que jamais teria imaginado. Ao saltar numa ilha depois de horas navegando sem rumo no mar, encontra um grupo de monstros que deixaria qualquer adulto com medo. Não Max, que pela atitude corajosa se declara rei para os novos companheiros. O garoto, agora coroado, transforma o local num verdadeiro parque de diversões – e cheio de bagunça.

Aí entra o grande diferencial de Eggers em relação à obra original. No pequeno livro de Sendak, tudo isso (ou quase) acontece sem que Max saia de casa. O quarto do garoto é o local onde nascem plantas, árvores e animais. Com isso, a fantasia se faz mais presente na obra original. Em Os monstros, porém, o autor transforma os grandalhões Carol, Katherine, Douglas, Judith, Alexander, Ira e o Touro em seres reais, que se emocionam, sofrem e, à maneira deles, raciocinam. Ao optar por esse caminho, Dave Eggers dá um caráter menos fantasioso e mais verdadeiro à obra.

O talento do escritor, que quando criança não teve uma boa relação com o livro de Sendak, está em fazer com que o leitor reconheça nos monstros laços de humanidade. No “reinado” de Max, surgem guerras, ciúmes, amor. Tudo isso colocado de maneira inteligente por Eggers, autor do romance O que é o quê (também lançado pela Companhia das Letras) e fundador da editora independente McSweeney’s.

TRECHO DO LIVRO

"Quando Max e Carol voltaram para o local onde antes ficavam as casas dos monstros, Max pôde ver o resultado da farra da noite anterior. Havia ruínas por toda parte. Árvores e galhos carbonizados. Imensos brancos no chão. E todas as suas casas-ninhos estavam tão destruídas, pisoteadas no chão, que mal era possível reconhecê-las.

Os outros monstros estavam reunidos em meio à devastação, alguns andando de um lado para o outro, outros de braços cruzados, todos com ar impaciente. Não havia sinal de Katherine. Ira mastigava nervosamente o braço de Judith e, quando todos viram Max e Carol descendo a colina na direção deles, Ira afastou os dentes do braço dela para falar. – Onde vocês estavam? Nós ficamos aqui esperando. Sozinhos".

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade