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Correio Braziliense

No baile de Lafayette

Conhecido por gravar com Roberto Carlos nos anos 1960 e 1970, tecladista lança disco de músicas da jovem guarda em parceria com nomes do cenário alternativo carioca


postado em 24/01/2010 07:02 / atualizado em 24/01/2010 15:28

Certo dia de 2004, Gabriel Thomaz, guitarrista da banda carioca Autoramas, foi até um shopping de Niterói com o objetivo de encontrar o tecladista Lafayette. Gabriel soube que o músico — conhecido por ter sido o organista dos discos de Roberto Carlos e de diversos cantores, cantoras e grupos da jovem guarda — se apresentava semanalmente no local. A ideia, a princípio, era pegar alguns autógrafos, mas Gabriel aproveitou a ocasião e convidou o ídolo para aparecer em um ensaio dos Tremendões, banda dele com alguns amigos, dedicada justamente ao repertório da jovem guarda. Estava plantada a semente de Lafayette & Os Tremendões — cujo primeiro disco, As 15 super quentes de…, acaba de ser lançado.

"Nunca tinha participado de uma banda que não fosse a minha. Mas logo no primeiro ensaio eu gostei muito do pessoal e topei tocar com eles", lembra Lafa, como é chamado pela turma. Naquele mesmo ano, o grupo fez sua estreia nos palcos. "As lembranças do nosso primeiro show, em dezembro de 2004, no Teatro Odisseia, são eternas", comenta, emocionado, André Nervoso, outro guitarrista e vocalista dos Tremendões. A banda, aliás, é um verdadeiro quem-é-quem do cenário alternativo do Rio. Completam o time o guitarrista Renato Martins (Canastra), o baixista Melvin (Carbona), o baterista Marcelo Callado (ex-Canastra e hoje no Do Amor e Banda Cê) e a cantora Érika Martins.

Banda Lafayette e os Tremendões(foto: Divulgação/Vivo Open Air )
Banda Lafayette e os Tremendões (foto: Divulgação/Vivo Open Air )
Das 15 faixas do disco, 13 são da época da jovem guarda, entre hits e músicas não tão conhecidas. Completam a seleção o clássico erótico Je t’aime… moi non plus (1969), de Serge Gainsbourg, e Força estranha, composição de Caetano Veloso gravada por Roberto Carlos em 1978. Com exceção da música francesa e de Eu e você, dos Brazilian Bitles, todas já tinham sido registradas pelo tecladista — ou em suas gravações originais ou nas versões instrumentais dos discos Lafayette apresenta os sucessos.

Nove das músicas são originárias do repertório de Roberto Carlos. Nenhuma, no entanto, é de autoria do cantor — que não costuma liberar suas composições para regravações. "Quero aproveitar pra desmentir essa história de que o Rei daria uma música inédita para nós. Isso é apenas um boato", esclarece Gabriel Thomaz. "Fiquei meio sem ação com essa história. Na hora, pensei: ‘Puxa, se isso realmente fosse verdade, por que fomos os últimos a saber?’ ", acrescenta Nervoso.

As 15 super quentes de Lafayette & Os Tremendões
é um retrato fiel do que o grupo é ao vivo. Os arranjos são próximos das gravações originais, mas sem a intenção de soar retrô, dando uma cara contemporânea a músicas como Você não serve pra mim, Do outro lado da cidade, Vou botar pra quebrar, Não há dinheiro que pague e Pare o casamento. Um baile dançante reverente, mas com um pouco da identidade de seus participantes.

AS 15 SUPER QUENTES DE LAFAYETTE & OS TREMENDÕES
Disco de estreia de Lafayette & Os Tremendões. 15 faixas. Lançamento Rob Digital. Preço médio: R$ 25.



Perfil//

Lafayette, pai de uma sonoridade

Lafayette Coelho Vargas Limp nasceu em 1943, no Rio de Janeiro. Em 1964, foi convidado por Erasmo Carlos para gravar piano em uma música. No estúdio, encontrou um órgão Hammond e começou a brincar com o instrumento. O cantor gostou do que ouviu e, em vez de piano, Lafayette acabou gravando órgão. Roberto Carlos também gostou do resultado e convidou o músico para gravar com ele, em 1965. No mesmo ano, Lafayette começou a participar dos discos de outros artistas da jovem guarda e iniciou a série Lafayette apresenta os sucessos, que rendeu mais de 30 LPs, todos com versões instrumentais de hits do momento. Com seu grupo, ele tocou pelo Brasil e pelo exterior. O tecladista parou de gravar discos nos anos 1980, mas nunca se afastou da música, se apresentando ao vivo em bailes e shoppings. Em 2004, estreou a parceria com Os Tremendões. E no ano passado, formou a Lafayette Big Band, dedicada à música latina pop.



Três perguntas para Lafayette

Você ainda tem contato com Roberto Carlos?

É muito difícil ter contato com o Roberto, a vida dele é muito atribulada. Encontro, de vez em quando, o Erasmo ou a Wanderléa. A última vez que vi o Roberto foi há 10, talvez 15 anos.

Os discos antigos do Roberto não têm uma ficha técnica muito clara. Você é o responsável por todos os órgãos desses álbuns? Quem tocava nos seus discos?

Gravei todos os pianos e órgãos — e até cravo — dos discos dele de 1965 até meados dos anos 1970, quando ele começou a gravar em Nova York. Nos meus discos, participavam músicos da minha própria banda, que me acompanhava ao vivo e, eventualmente, integrantes do Renato e seus Blue Caps.

Você criou o característico som de órgão Hammond presente nos discos da jovem guarda. Ainda usa esse instrumento?

Não tenho mais um hammond. É um instrumento grande, difícil de transportar. Uso agora um órgão da Tokai, uma fabricante brasileira que consegue o mesmo som. Infelizmente, eu ainda não tinha esse órgão para a gravação com Os Tremendões. Usamos um teclado simulando efeito de hammond, mas, infelizmente, o técnico do disco não conseguiu exatamente o som que eu queria. Curiosamente, quando fui participar do CD do cantor Otto, gravei num Hammond que foi meu e hoje em dia está em um estúdio do Rio de Janeiro.

Entrevista// Gabriel Thomaz e Nervoso

Gabriel Thomaz, dos Autoramas, e Nervoso comentam o trabalho na banda Lafayette & Os Tremendões

O disco não soa vintage, pelo contrário, soa como uma produção contemporânea. Gostaria que vocês comentassem essa opção sonora.

Gabriel Thomaz
— Está registrado no CD o que a banda sempre foi. Os timbres vintage é que são bem modernos hoje em dia. Lafayette sempre esteve à frente do seu tempo. O CD tem nossa pegada, não teria como soar de outro jeito.

Nervoso
— Acho que o Felipe (Rodarte, produtor do disco) conseguiu transmitir com fidelidade o que a banda representa para ele no palco. Creio que o resultado, nessas circunstâncias, não poderia ser diferente ou melhor. No fim, a banda se comportou bem por não ter pipocado no estúdio durante o período de mixagem. Projeto bom é projeto concluído.

Regravar uma música de Roberto e Erasmo não é simples. Vocês cogitaram conseguir autorização para alguma música de autoria do Rei? Qual a música(s) "dos sonhos" do Roberto para vocês, aquela(s) que mais gostariam de gravar?

Gabriel
— Pois é, quero aproveitar pra desmentir essa história de que o Rei daria uma música inédita pra nós. Isso é apenas um boato. A música que eu gostaria de gravar, sem dúvida, é Quero que vá tudo pro inferno. Mas acho que o negócio é bem complicado... Por isso falo para as pessoas irem no nosso show, tocamos todas as músicas que o Rei não gosta mais, mas que o Lafayette gosta.

Nervoso
— Realmente, fiquei meio sem ação com essa história do boato sobre a música inédita que o Roberto ficou de nos enviar. Na hora, pensei: "Puxa, se isso realmente fosse verdade, por que fomos os últimos a saber?". Enfim, bola pra frente. Além de … Inferno, gostaria muito de gravar As canções que você fez pra mim ou Como é grande o meu amor por você.

Todos no grupo têm seus projetos musicais. É complicado conciliar a agenda para tocar com o Lafa?

Gabriel
— Muito complicado, melhor nem falarmos sobre isso, quero paz na minha vida.

Nervoso
— Opa lelê.

Como foram os encontros iniciais com o Lafa? Vocês perceberam que ele embarcou logo na ideia de montar o grupo com vocês ou ficou meio ressabiado a princípio?

Gabriel
— Ficou bem desconfiado no início. Mas no primeiro ensaio ele levou dois seguranças que se amarraram no som e falaram benzão da gente pro Lafa. O primeiro show também foi bem determinante, o Lafa ficou muito animado com a reação da galera.

Nervoso
— Foi o Gabriel quem fez essa produção. Eu só sei que fiquei muito feliz em conhecer o maestro e as lembranças do nosso primeiro show, em dezembro de 2004, no Teatro Odisseia, são eternas.

Todos vocês se conhecem de longa data, ou seja, o relacionamento tem uma outra intimidade. Como fica a relação com o Lafa nesse contexto? Como é cair na estrada com um músico mais velho — e, no caso dele, mais recatado, discreto?

Gabriel
— Ele só fica rindo o tempo todo das besteiras que a gente fala. Dá altas gargalhadas. Recentemente, após uma piada sobre Joelma e Chimbinha, ele ficou até sem fôlego.

Nervoso
— Já vi o Lafa enxugar lágrimas de tanto rir, mas, por outro lado, é interessante ouvir as centenas de histórias e lembranças da época, num momento de maior aproximação e sobriedade. Sem dúvida, é uma relação inconstante e enriquecedora.

Em todos os shows que vi de vocês, o público era essencialmente jovem. O pessoal da "velha guarda" também compare às apresentações vez ou outra?

Gabriel
— Comparece, o Lafayette tem muitas fãs da geração dele no Brasil inteiro. Numa apresentação em Belém, foi fofo ver um grupo de senhoras na frente do palco gritando: "Ete, ete, ete, mostra o órgão, Lafayette!"

Nervoso
— Sempre. Às vezes penso que o público dessa faixa etária poderia ser maior. Tenho a nítida impressão de que muitos não acreditam que o "nosso Lafayette" é o mesmo Lafayette daquela época remota.

Vocês pensam em gravar um disco com o Lafa nos moldes dos volumes da série Lafayette apresenta os sucessos, ou seja, um CD instrumental? Qual seria o repertório?

Gabriel
— Eu gostaria muito, mas alguém tem que bancar essa ideia. No nosso repertório, temos algumas instrumentais, bem ao estilo Lafayette. Nesse CD que lançamos, gravamos Je t'aime...moi non plus exatamente pra ter uma música no formato clássico do Lafa. E é uma música que ele nunca tinha gravado.

Nervoso
— O Gabriel já deu essa sugestão há tempos. Sempre curti a ideia. Inclusive a de incluir instrumentais inéditas autorais. Quem sabe…

O disco demorou um tempo para sair. Por que esse delay?

Gabriel
— Nesses últimos anos, muita gente se interessou em lançar nosso CD, mas sempre íamos lá, fazíamos reuniões, e o negócio não se concretizava. Isso atrasou um pouco o lance, sim. Temos que agradecer muito à galera do estúdio Soma, que abraçou o projeto, tornando o lançamento possível. O disco foi feito sem pressa, com muito carinho. A gravação durou mais de um ano e eles fizeram tudo o que a gente pediu.

Nervoso
— Já encaro de forma natural, sempre levando em conta todas as circunstâncias em torno da história. Além do Estúdio Soma, agradeço muito ao nosso empresário, Geraldinho Magalhães, pelo carinho e pela fé que deposita na turma.

Com o lançamento do disco, o grupo completa um ciclo. Quais os próximos planos para Lafayette & Os Tremendões?

Gabriel
— Temos muitas ideias, mas eu gostaria mesmo de, num próximo lançamento, fazer uma homenagem ainda mais explícita ao Tremendão.

Nervoso
— Shows estão sempre nos nossos planos.

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