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Jornalista Benício Medeiros evoca a queda do jornal Última hora

Um dos grandes personagens do jornalismo no Brasil, o jornalista Samuel Wainer foi o responsável por iniciativas ousadas. Uma delas foi a criação do jornal Última Hora, no Rio de Janeiro, durante os anos getulistas. Bancado financeiramente pelo presidente, a publicação foi talvez a primeira no país direcionada para as classes populares e criou escola ao apresentar um design moderno. Repórter de início de carreira (ou foca no jargão da profissão), Benicio Medeiros, agora com 63 anos, trabalhou no jornal durante o último ano de funcionamento da publicação quando o império imaginado por Wainer já não se sustentava mais. Boas ou ruins, as lembranças de 40 anos atrás couberam em 215 páginas do livro A rotativa parou! - Os últimos dias da Última Hora de Samuel Wainer, lançado agora pela Editora Civilização. Narrado em primeira pessoa, antítese da objetividade e imparcialidade do jornalismo, o livro é o testamento de um passado romântico e engajado da profissão. "O jornalismo que se fazia no Brasil, quase se confundia com a literatura. Existiam as figuras do intelectual, dos poetas, dos escritores dentro das redações e isso era motivo de prestígio. Quando comecei, havia a valorização das pessoas que escreviam bem. Hoje, não basta saber escrever, o profissional de jornalismo tem de dominar também as tecnologias da informação", compara Medeiros. Baseado no Rio, o jornal chegou a ter sucursais em São Paulo e no Nordeste, mas sua existência foi sufocada pelo assédio dos militares do golpe de 1964. Além da censura de conteúdo, os militares promoveram uma retaliação econômica à empresa. "Quando se anunciou a venda do jornal, em abril de 1971, e a rotativa da UH parou de vez, o impacto foi geral entre os funcionários. É que no fundo de cada consciência, subsistia a esperança de que Samuel, com sua decantada esperteza, pudesse contornar a grande crise. Dessa vez, no entanto, não houve jeito", constata Medeiros. Leitura obrigatória para estudantes e profissionais da área, porém, o livro notabiliza-se pelas histórias humanas. "Minha intenção não era fazer a biografia do Wainer, mas sim contar um pouco da história da UH, contextualizar as minhas lembranças para não ficarem jogadas a esmo", revela o autor. A história de derrotas e vitórias da Última Hora e de seu criador são melhor resumidas na epígrafe do livro do repórter veterano. "Contemplando meu percurso, constato ter vivido uma experiência humana completa ao cumprir uma trajetória que me permitiu conhecer a ascensão, a glória e a queda" escreveu Wainer na autobiografia Minha razão de viver.