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Correio Braziliense

Veja íntegra da entrevista com Julia Bax


postado em 17/02/2010 08:00


Quando e como começou o seu interesse por histórias em quadrinhos? Nesta época, o que você lia?
Desde bem pequena lia historias em quadrinhos. Acho que me alfabetizei por meio delas na verdade. Como toda criança brasileira, lia muito a Turma da Mônica. Também Disney e Asterix.


Sempre pensou em se tornar desenhista de quadrinhos?
O interesse em desenhar (além daquele interesse automático que toda criança tem) veio quando comecei a ler quadrinhos de super-herói. Foi só nesse momento que me dei conta da figura do desenhista. Nos comics não existe o "model sheet" — cada artista tem a sua própria versão para aquele personagem, e isso me chamou a atenção. Percebi que existia essa profissão, "desenhista". Daquele momento em diante comecei a desenhar persistentemente e continuo até hoje.


Quando e como começou a sua trajetória nos quadrinhos? Em quais títulos já trabalhou?
Comecei fazendo uma historia de 12 paginas para o álbum do personagem Quebra-Queixo, criado por Marcelo Campos. Foi publicado pela Editora Devir. Depois disso publiquei também na revista KAOS, duas historias curtas. Fiz coisas também para os Estados Unidos: algumas edições para as editoras Boom Studios (Planetary Brigade), Marvel Comics (X-Men First Class) e Devil's Due (Voltron). Recentemente dei uma pausa e tenho feito bastante ilustração. Mas os trabalhos com quadrinhos também aparecem. Fiz, por exemplo, umas historias educativas pra um projeto da UNESCO e também uma HQ para o suplemento FolhaTeen do jornal Folha de São Paulo.


E quando você percebeu que poderia viver de sua produção de HQs? E por falar nisso, qual a sua formação acadêmica?
Bom, demorou um tempo até eu conseguir ganhar dinheiro com HQs. Quando comecei a fazer trabalhos para os Estados Unidos foi que comecei a me sustentar com isso. Foi em 2005, se não me engano. Mas é um trajeto longo até a qualidade do seu trabalho poder competir minimamente com artistas do mundo inteiro querendo entrar nessa. Minha formação acadêmica é em Economia. Nada a ver! Me formei em 2007 na FEA-USP. Adoro Economia por sinal. Só que prefiro trabalhar como ilustradora.


Saber desenhar e saber fazer quadrinhos são coisas diferentes. Como foi o seu aprendizado para fazer quadrinhos?
Além de ler, estudar e assistir filmes, tem que produzir historias. O que mais se vê como problema pra quem começa é achar que desenhar um personagem bonito no meio de um papel branco vai servir pra alguma coisa. Parece que existe uma preguiça em criar um ambiente pra esse personagem. E pra quadrinhos isso é fundamental! Também a questão da narrativa. Como contar a historia de um quadro pro outro? O que mostrar? O que colocar? Qual câmera escolher pra passar a sensação desejada? Isso tudo é como ser um pouco diretor de um filme. Eu, como todo mundo, comecei querendo desenhar só um Wolverine bonito no meio da folha de papel. Com o tempo, aprendi que é preciso muito mais do que isso pra fazer uma historia em quadrinhos. Com o incentivo de outros profissionais, comecei a estudar essas outras coisas e meu trabalho foi melhorando. Fazer um curso na área pode ser uma grande ajuda, como, por exemplo, o curso de Desenho e HQ da Quanta Academia de Artes, onde estudei e depois me tornei professora até me mudar pra França.


Muitas meninas não lêem quadrinhos porque as temáticas das HQs são, geralmente, masculinas — em especial as HQs americanas. Você acredita que isso justifica o número reduzido de meninas leitoras e, consequentemente, produzindo HQs? Poderia comentar este assunto?
Especificamente dentro do mercado de super-heróis, isso vale. Só que, como fui descobrir mais tarde, esse mercado é só uma parte do que se produz de HQ no mundo. Aqui na França temos muitas autoras mulheres. E autoras de grande sucesso. Uma que chegou até nós no Brasil foi a Marjane Satrapi, com Persépolis. Que é lindo por sinal. E mesmo nos Estados Unidos existem muitas mulheres produzindo HQ, só que não super-heróis! Como no Brasil durante muito tempo a única coisa de HQ adulta que tínhamos era Marvel e DC, dá mesmo essa impressão. Mas em editoras estilo a Tokyopop — que produz um tipo de mangá americano — temos muitas artistas e roteiristas mulheres. E leitoras, lógico.


Você acredita que o mangá ajudou a trazer mais meninas para os quadrinhos? Por que?
Com certeza, no Brasil podemos dizer que sim. Acho que por uma questão simples de interesse. Existem mangás com assuntos que interessam a maioria das meninas. Logo, elas compram! É a única maneira de trazer o publico. Produzir coisas que ele esteja interessado em comprar!


Qual o seu conselho para as meninas que querem começar a fazer quadrinhos? E para aquelas que ainda não lêem quadrinhos?
Bom, meu conselho vale para todos — não acho que exista conselho especifico pra mulheres, assim como em outras profissões. E esse conselho é muito simples: produzir o máximo possível. Existe um mínimo de horas que uma pessoa tem que dedicar para conseguir chegar a um nível profissional, assim como para aprender um instrumento musical. Não adianta ter talento se não dedicar as horas ao treino. É ai que muitos talentosos param e os dedicados avançam! É mais importante ser "teimoso" do que talentoso. Outra coisa: se for pedir conselhos a um profissional, escute-os! Não arranje desculpas para os defeitos no seu desenho. Engula a critica e corrija-os!


Com o que você está trabalhando atualmente? A sua ida para a França tem a ver com trabalho?
Atualmente tenho feito bastante ilustração. Para revistas e livros didáticos principalmente. Mas também tenho meus projetos! Inclusive de HQ, que estou desenvolvendo. Não quero adiantar nada, até dar certo. Tenho também projetos de livros infantis que quero tocar. É bastante coisa, mas espero dar conta. Minha vinda pra França tem sim a ver com o trabalho. A França é um grande mercado de HQ, ilustração, animação, games, e tudo que tem a ver com entretenimento. E um grande berço de grandes artistas tanto em séculos passados como agora. Vim tentar beber da "água benta" aqui e melhorar meu trabalho. E também fazer contatos e quem sabe publicar alguma coisa por aqui.


Qual tem sido o feedback para o seu trabalho?
Tenho recebido um feedback positivo, mas sei que artistas "bons" a França produz aos milhares. Sem contar os espanhóis, italianos, portugueses que vêm pra cá brigar por uma vaga no mercado. Então sei que tenho que dar tudo de mim pra driblar a concorrência e conseguir qualquer coisa por aqui.

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