Diversão e Arte

Segundo especialistas, hobbies que estimulam a criatividade são uma ótima maneira de melhorar a qualidade de vida

Muitas pessoas se dedicam a atividades como a música, o artesanato e as artes plásticas para fugir do estresse do dia a dia

postado em 23/02/2010 07:00
Diversas pessoas encontram na arte, no artesanato e em outras atividades que requerem o uso da criatividade uma válvula de escape das preocupações do dia a dia. Seja tocar um instrumento musical, pintar, costurar ou bordar, o importante é a pessoa dedicar um tempo para fazer algo que lhe dê satisfação pessoal e estimule a mente. ;O conceito de qualidade de vida está associado ao prazer, então a pessoa deve procurar fazer o que gosta;, afirma a psicóloga Elizabet Campos, 55 anos, que integra o Instituto Brasileiro de Qualidade de Vida (IBQV). Elizabet garante que toda atividade para melhorar os estados físico e mental é bem-vinda.

O médico Marcelo na sala de música que tem em casa: descanso depois do trabalhoLucielena Mugarte, 45 anos, vice-diretora de uma escola pública, faz artesanato há pelo menos 30 anos e acha impossível levar a vida sem um hobby, algo para fugir da rotina ;estressante;. Para ela, todo o processo de fazer acessórios com patchwork (1), técnica de artesanato que mais utiliza atualmente, é divertido. ;Da hora de comprar a revista até a hora de ver o trabalho pronto, sinto muito prazer. Ir à loja, escolher uma peça e as linhas, fazer a combinação das cores, tudo isso é gostoso;, garante.

Para a vice-diretora, ver algo que ela elaborou tomando forma é muito satisfatório. ;Você ver a sua obra ficar pronta é muito legal. Acho que você se sente meio criador, reproduzindo a natureza;, diverte-se. A psicóloga Kelly Gennari ressalta que concretizar projetos artísticos melhora a autoestima das pessoas e exercita a paciência. ;A pessoa acaba passando por todas as fases do aprendizado, dedicando-se e repetindo os movimentos necessários para que a música, o quadro, enfim, a obra seja bem executada. Isso exige disciplina e paciência;, explica. Desse modo, segundo Kelly, os aspectos desenvolvidos com a arte são levados para outros campos da vida.

Que o diga a perfeccionista Lucielena. ;Se precisar, desmancho tudo e faço de novo. Refaço quantas vezes precisar, até ficar como eu quero;, determina. Para ela, o artesanato é diversão e um contraponto ao emprego que possui, por poder atingir aos objetivos perseguidos individualmente. ;No trabalho de professora e vice-diretora, o que eu faço depende dos outros. No artesanato, não. Depende de mim, das minhas escolhas, do meu olhar sobre as coisas;, descreve.

A psicóloga Kelly lembra que, a partir do estímulo da criatividade, a rotina da pessoa é beneficiada. ;A criatividade é a grande arma na solução de problemas. E solucionar problemas também tem a ver com o controle da ansiedade, que é desenvolvido no estudo da arte, do artesanato e de atividades afins.; Elizabet Campos acrescenta que estimular a criatividade traz efeitos positivos à qualidade de vida. ;Para uma pessoa ter qualidade de vida, ela precisa cuidar de todos os aspectos ligados à mesma. Cuidar da saúde mental é um fator importante para isso;, comenta. As duas psicólogas concordam que atividades que envolvem criação aliviam as tensões e diminuem os níveis de estresse.

O administrador de empresas Orlando Moreira, 58 anos, garante que desenvolveu maior capacidade de concentração após se envolver com artes plásticas. Quando se aposentou, em 2006, procurou fazer algo para ocupar o tempo. ;Tive aulas de mosaico (2), mas hoje crio pequenos projetos em casa e os executo. Essa atividade me traz concentração absoluta, porque tenho de focar no que estou fazendo;, descreve. Além de pôr a mão na massa, Orlando é um grande apreciador de artes plásticas. No apartamento onde mora, há cerca de 15 quadros ; dele e de artistas diversos ;, além de mesas, aparadores, máscaras, abajures e itens diversos feitos artesanalmente. ;Moro sozinho e as minhas obras acabam me fazendo companhia;, destaca.

Depois de se aposentar, Orlando encontrou nos mosaicos uma forma de ganhar maior poder de concentração: %u201CMoro sozinho e as minhas obras acabam me fazendo companhiaOrlando já buscou diversos segmentos artísticos para descobrir de qual mais gostava. ;Eu sempre gostei de arte, mas me perguntava quando eu teria a oportunidade de aprender a fazer alguma coisa. Só depois de me aposentar consegui atender esse anseio;, conta. Em 2006, começou a esculpir argila. Após a fase de escultura, teve aulas de mosaico graças à indicação de um amigo. ;Em seguida, engrenei num trabalho de pintura com espátula. Eu quero conhecer todos os segmentos de arte e artesanato. Acho que pintura a óleo seria meu próximo passo nessa navegação;, planeja.

Descanso
É para descansar e sair um pouco da realidade que o médico Marcelo Coura, 37 anos, toca bateria desde a adolescência. Marcelo tira pelo menos uma hora por dia para se dedicar à música e leva o hobby a sério, fazendo aulas com o irmão, Ricardo Coura, baterista profissional. ;O engraçado é que eu que acabei influenciando meu irmão, de 34 anos, a gostar de tocar. Ele virou músico e eu segui a carreira de médico;, recorda. A paixão pelo instrumento, que começou a tocar aos 15 anos após perceber as peculiaridades do som enquanto ouvia rock e heavy metal, fez com que ele comprasse uma bateria e montasse uma sala de música em casa.

Com tanto tempo de conhecimento musical, Marcelo toca não apenas músicas de outras pessoas, mas composições próprias. ;De vez em quando, uso minha sala de música como sala de ensaio. Curto muito tirar um som com os amigos;, ressalta. Segundo o médico, a mulher dele não se incomoda com o hobby barulhento. ;Ela sabe que a hora de tocar é minha;, explica. ;Não tem gente que para relaxar sai para beber, para jogar futebol? Então, o meu descanso é ficar em casa tocando bateria.;

Quando questionados sobre levar o hobby como profissão, Lucielena, Orlando e Marcelo têm opiniões diferentes. ;Já falei com algumas amigas que vou abrir uma banquinha na Feira da Torre de TV futuramente;, diz, rindo, a vice-diretora. ;Por enquanto, é mais uma diversão. Vendo uma coisa ou outra para as minhas amigas, mas não é nada sério;, comenta. Porém, embora ainda não tenha o artesanato como profissão, Lucielena tirou, no mês passado, carteirinha de artesã. Ela esclarece que, se um dia quiser vender em lojas ou expor seus produtos, poderá fazê-lo legalmente, pagando os encargos necessários.

Marcelo, pelo menos por enquanto, não pretende viver de música. ;Até tenho uma banda. Atualmente ela está parada, mas já chegamos a tocar em bares e festas;, recorda. Apesar de estudar música, ter uma banda e uma bateria de qualidade, a profissão de médico se mantém na lista de prioridade. Assim como Marcelo, Orlando se envolve com arte somente por prazer. ;Não tenho interesse em seguir uma carreira artística porque, para fazer bem feito, eu teria que me dedicar plenamente.; Quanto a vender ou presentear amigos com suas obras, o administrador também tem ressalvas. ;Não as vendo nem ofereço para os meus amigos e parentes porque acho que arte é algo muito individual. Só quando bate mesmo, quando a pessoa olha e fala: ;Poxa, gostaria de ter um quadro igual aquele dali;. Aí eu digo: ;Pode levar;;.

1 - Retalhos
Patchwork significa, em inglês, ;trabalho com retalho;. Nessa técnica, unem-se pedaços de tecidos, de formatos e tamanhos variados, para elaborar colchas, bolsas, painéis, cortinas, roupas e outros itens. Registros históricos indicam que o homem faz patchwork desde que aprendeu a tecer. No século 9 a.C., os faraós usavam roupas feitas com essa técnica. Já na Europa, durante a Idade Média, guerreiros usavam vestimentas de patchwork embaixo das armaduras de ferro. No mesmo período, as sobras de tecido emendadas eram transformadas em colchas e tapetes.

2 - Colagem
O mosaico é uma técnica de artes plásticas muito utilizada no período greco-romano. Consiste em colocar fragmentos de peças, chamadas de tesselas, sobre uma determinada superfície. As peças recortadas, quando coladas perto umas das outras, formam efeitos visuais e imagens. Os materiais mais usados no mosaico são a cerâmica e a pastilha de vidro. A palavra mosaico tem origem no vocábulo grego mouse;n, que significa ;próprio das musas;.

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