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Correio Braziliense

Disco anárquico gravado em 1971 por Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada é relançado em CD


postado em 07/03/2010 10:44 / atualizado em 09/03/2010 18:58

Raul Seixas adorava contar a história de que tinha sido expulso da CBS, onde trabalhava como produtor, por causa de um LP muito doido que gravou em 1971, durante uma viagem do chefe aos Estados Unidos. Há quem diga que era papo dele, que teria recebido um convite da Philips e aproveitado o episódio para sair do emprego. O fato é que Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, agora relançado em CD pela Sony Music, foi um grande fracasso de vendas na época e sumiu das lojas rapidinho. Ou, como dizia Raul, “desapareceu misteriosamente do mercado”. E acabou virando um álbum cultuado.

Raul Seixas fez do LP sua maior traquinagem: caótico e vibrante(foto: Arquivo CB/D.A Press )
Raul Seixas fez do LP sua maior traquinagem: caótico e vibrante (foto: Arquivo CB/D.A Press )
Gravado por ele, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada a um custo altíssimo — Raul contava que tinha mandado trazer de São Paulo, num caminhão, até uma harpa egípcia (só para o acorde final de uma música de três minutos) —, Sociedade da Grã-Ordem Kavernista é um disco surpreendente, mesmo agora, quase 40 anos depois de seu lançamento. Com ecos do coletivo Tropicália (1968) e faixas que começam com gracinhas e terminam com ruídos estranhos (na abertura, uma vinheta circense; no encerramento, o som de uma descarga), soa como um manifesto debochado, sarcástico, dos tempos de desbunde e deslumbre. Críticas à sociedade de consumo e aos hippies de butique estão entre as 12 faixas do álbum, quase todas assinadas por Raul e/ou Sampaio (a exceção é Soul tabaroa, de Antonio Carlos e Jocafi). Sim, eles queriam rir naqueles tempos duros de regime militar. Eu acho graça (de Sampaio) começa com uma das vinhetas mais engraçadas. “Alooooô”, diz o cara, meio doidão. “Oi! É o Jorginho Maneiro? É verdade que agora você é hippie?”, pergunta a mocinha do outro lado da linha. A resposta vem lenta: “Podes crer”. Na sequência, Chorinho inconsequente (de Sampaio e Erivaldo Santos), é aberta em tom infantil por Miriam Batucada (1): “Há um hippie bem no meu portão, no meu portão, no meu portão…” Tremendo deboche. “Disco piradão com músicas cafonistas”, nas palavras do cartunista Henfil, Sociedade da Grã Ordem Kavernista já trazia o rock com sotaque nordestino que pouco depois marcaria a estreia solo de Raul, Krig-há, bandolo! (lançado pela Philips em 1973). Não tinha ainda as letras feitas em parceria com Paulo Coelho, mas já fazia um belo passeio pelo rock, o baião e o frevo em faixas ótimas, como Êta vida, Quero ir e Eu vou botar pra ferver. Também mostrava seu samba ácido em Aos trancos e barrancos (“Taí, eu sou um cara que subiu na vida/ Morava no morro e agora moro no Leblon”). Outro grande momento do álbum é um “bolerão bem açougueiro” de Raul (a definição é dele mesmo), Sessão das 10, interpretado pelo baiano Edy Star. (2) Dramática, seresteira, a música é anunciada como uma homenagem aos boêmios da velha guarda: “Ao chegar do interior/ Inocente, puro e besta/ Fui morar em Ipanema/Ver teatro, ver cinema/ Era minha distração/ Foi numa sessão das 10/ Que você me apareceu/ Me ofereceu pipoca/ Eu aceitei e logo em troca/ Contigo me casei”. Impagável. 1 - A moça do samba Miriam Batucada era o nome artístico de Miriam Angela Lavecchia, cantora paulistana que ganhou o apelido por batucar desde menina. Contratada pela TV Record em 1967, ela teve um programa com Ronnie Von nas tardes de sábado. Embora cantasse samba tradicional, era criativa e aberta a inovações como a deste disco de 1971. Aos 47 anos, foi encontrada morta em seu apartamento em São Paulo, 21 dias após ter sofrido um infarto. 2 - O rapaz do glitter Baiano de Juazeiro, Edivaldo Souza assinava só como Edy quando saiu o LP da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista. Depois virou Edy Star e fez sucesso no Rio em espetáculos como Rocky horror show. Raul Seixas o chamava de Edy Bofélia. “Ele é o maior barato, fresquíssimo!”, dizia Raul. Precursor do glam-rock brasileiro, cantor, ator, dançarino e artista plástico, gravou um disco em 1974, Sweet Edy, só com músicas compostas para ele. Em 2009, veio da Espanha, onde mora há mais de 15 anos, para uma homenagem a Raul na Virada Cultural, em São Paulo. Ouça trechos das músicas (do disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista) Aos trancos e barrancos, com Raul Seixas Soul tabaroa, com Miriam Batucada Sessão das 10, com Edy Star

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