Irlam Rocha Lima
postado em 12/03/2010 08:12
Dinho Ouro Preto ainda se incomoda com as lembranças da madrugada de 1º de novembro de 2009, quando caiu do palco durante um show em Patos de Minas. "Acho um saco continuar falando do meu acidente, mas não tenho como evitar. As consequências continuam presentes na minha vida", escreveu, no blog do Capital Inicial. Os fãs do vocalista, portanto, devem se preparar para conviver por mais algum tempo com o trauma recente do ídolo. No novo álbum da banda, as sequelas físicas do vocalista, 45 anos, inspiram músicas como Ressurreição, Melhor e Vivendo e aprendendo. "Tudo o que acontece comigo acaba aparecendo nas minhas canções", admite, na primeira entrevista ao Correio desde o episódio dramático que despertou uma nova fase - mais cuidadosa, acima de tudo - no cotidiano de um dos roqueiros mais populares do país.
No período de um mês que passou internado no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde superou um quadro leve de traumatismo craniano, Dinho refletiu sobre a família, os amigos e o futuro do Capital Inicial, que retorna em formato totalmente remodelado, "mais cru" e, segundo o compositor, intenso. A temporada de recuperação, no entanto, se revelou penosa. Com a voz fragilizada, desacostumada à rotina de turnês, aceitou (duramente) a ideia de gravar apenas uma canção por dia -costumava bater a marca das três músicas a cada sessão. Depois da queda - que fraturou três costelas, trincou seis vértebras e machucou os rins, a cabeça, os dentes e o queixo do músico -, apareceu em janeiro no São Paulo Fashion Week e, em fevereiro, participou de um programa da Globo News em homenagem a Renato Russo. Em abril, pretende retornar ao circuito de shows. Com certa parcimônia. "Para ser franco, não tenho muito controle sobre o que acontece no palco. Eu me entrego", reconhece.
Após o acidente, o que mudou no seu cotidiano?
O mês inteiro de novembro passado ainda é nebuloso pra mim. Tomei remédios numa escala industrial até o fim de janeiro. Mas, eventualmente, fui melhorando. Embora o processo de superação ainda não tenha acabado, posso dizer que, fisicamente, o acidente ficou para trás. Minha recuperação exigiu determinação e paciência, e em vários momentos percebi uma obsessão da minha parte. Fiz fisioterapia com regularidade e obstinação. Talvez o perigo de uma situação como essa é você se ver completamente e unicamente envolvido com o seu trauma. Não me entenda mal, sei que em vários casos isso se justifica e até se faz necessário. Mas eu precisava olhar para o futuro, pensar que aquilo um dia seria deixado para trás.
Você refletiu sobre alguma atitude especificamente?
Passei muito tempo reavaliando minha vida, minhas amizades e minha carreira. Eu atravessei os últimos 12 anos nas estradas e nos aeroportos do Brasil com o Capital. E, mesmo um acidente não sendo a melhor maneira de forçar férias, eu precisava parar um pouco. Tenho a sorte de ter uma família muito próxima e presente, e aproveitei cada minuto saciando minha saudade acumulada. Não era uma preocupação, era uma fonte de alegria no meio da dor. Mas foram as coisas mais presentes (nesse período): recuperação e família.
Quando você começou a planejar o retorno à banda?
Acho que assim que a dor passou. Eu sou meio maníaco obsessivo compulsivo. Então faço uma pequena correção na resposta anterior: recuperação, família e Capital.
No seu blog, você anuncia grandes transformações para o Capital Inicial em 2010. Quais são os planos?
Um acidente pode ser transformador. Eu tenho a impressão que essa experiência me deu coragem. Coragem para enfrentar desafios. Estou disposto a encarar as dificuldades inerentes à mudança. E não serã o poucas - elas vão envolver tudo. Primeiro nós procuramos um novo produtor. Trabalhamos com um cara chamado David Corcos. Nós o procuramos para deixar nosso som "mais cru". O Capital não deu as costas aos fãs ou à sua história, mas achamos que temos mais vigor ao vivo, e tentamos capturar isso no disco novo. Acho que faz tempo que não produzíamos algo assim.
Os shows também mudam?
Muda o conceito. Apostávamos deliberadamente num clima anos 1970, meio Kiss ou AC/DC. Na nova turnê, vamos tentar nos entender com a tecnologia. Como consequência, teremos novos cenógrafos. Passamos a nos empresariar. A arte e as fotos da capa vão ser entregues a novos artistas. Passamos a apostar definitivamente na internet como nosso principal meio de comunicação. Mudamos o relacionamento com a gravadora. E há outras coisas, ainda em desenvolvimento, que as pessoas verão com o tempo.
O acidente foi decisivo na decisão sobre essas mudanças?
Sim. Não quero cuspir no prato em que comi, então muitos fundamentos (do Capital Inicial) continuam inalterados. Continuamos sendo uma banda de Brasíliia cujo lema é a simplicidade. Quero que qualquer garoto possa tocar nossas músicas. Não quero fazer letras herméticas, quero me fazer entender. No novo disco, os fãs vão nos reconhecer. Mas eu quero me reaproximar da banda. Voltar a trabalhar em grupo. Eu sei que parece óbvio, mas nos últimos trabalhos eu aparecia com tudo pronto e dizia: "É isso, vamos gravar." Pretendo que todos participem mais e, com isso, tragam entusiasmo.
Você pensa em mudar sua atitude no palco?
Tomar mais cuidado, com certeza. Mas no palco nós literalmente nos entregamos. Para ser franco, não tenho muito controle sobre o que acontece. Mesmo com o risco de um acidente, acho que a espontaneidade é uma virtude do Capital.
Qual é a proposta do novo trabalho?
Já terminamos (o disco). Eu gostaria que ele fosse percebido como uma volta às origens, pelo fato de não ter muita produção.
Todas as músicas são suas, em parceria com o Alvin L?
Uma grande parte sim, mas o Yves (Passarel, guitarrista) também participou. Também compus com o irmão dele, o Pitt. E o Robledo (Silva), nosso tecladista, fez uma música superbacana.
Os últimos acontecimentos revigoraram o compositor Dinho Ouro Preto?
Eu tô num momento meio "raízes". Tenho voltado a ouvir muitas bandas que eu ouvia com 13 ou 14 anos. Muito Led (Zeppelin), Queen e Aerosmith. Tudo o que eu parei de ouvir com o punk. Se bem que também tenho ouvido muito Clash. Gosto de bandas novas ou quase novas, como White Stripes e Muse, mas o passado ainda me parece insuperado. Como compositor fico atento ao que está acontecendo, mas muita coisa me parece releitura. Acho que tudo na minha vida acaba aparecendo nas minhas canções, e algo tão intenso quanto meu acidente vai estar presente também. Esse episódio todo me deixou mais reflexivo e, por consequência, as letras do disco novo estão um pouco mais introvertidas também.
Pretende passar mais tempo em casa, descansando?
Sim. Volto para a estrada em abril, mas já estou com saudades de casa. Eu amo tocar e tenho a sorte e o privilégio de viver de música. Quero poder continuar minha carreira: fazer shows e discos. Me acostumei a ser um nômade, mas esses meses em casa foram transformadores. Quero fazer turnês mais curtas.
Como é tocar para um público que ouve bandas adolescentes como NXZero e Fresno?
Temos a sorte de ver o nosso público se renovando. Não queremos viver do nosso passado, e sim dos discos novos. Acho que se você se concentrar no futuro, vai ser percebido como um artista vivo que tem algo a dizer, a apresentar. Você tem que olhar sempre pra frente. É como aquela história bíblica, olhou pra trás virou uma estátua de sal. E nos comunicamos com esse público com naturalidade, afinal somos adolescentes faz muito tempo... muito mais tempo que eles.
Qual é o papel do Capital no rock em 2010?
Acho gozado, mas estamos virando um a espécie de banda "clássica". Parece pretensioso, mas quando você consegue ficar tanto tempo com a cabeça acima d/'água, você acaba entrando para outra categoria. No Brasil, bandas não costumam chegam até esse momento, em geral terminam antes. É uma novidade com poucos precedentes - Os Mutantes e outros poucos. Eu tenho a impressão de que, no Brasil, muitos músicos acabam se afastando do rock. Ficam mais românticos ou populares. Parece que rock é um momento da adolescência, um momento que eventualmente passa quando eles crescem.
E isso acontece com outros gêneros musicais?
É curioso, mas não. O cara que faz MPB, faz MPB para a vida toda. O cara que faz jazz, faz jazz para a vida toda. No entanto, com o rock, em algum momento parece que o sujeito desencana. Acha desapropriado ou pueril. No exterior, é comum ver bandas seguindo a carreira por décadas. Mesmo sem fazer mais sucesso, mesmo sem tocar mais no rádio, mesmo sem aparecer mais na tevê, eles continuam. Rock brasileiro é minha vida. É quase uma causa; uma causa à qual dediquei décadas. Comecei a ouvir rock com 12 anos e não tenho a mais remota intenção de parar.