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Correio Braziliense

No terceiro disco da carreira, gravado em Brasília, Superguidis sai da adolescência sem abandonar a simplicidade


postado em 18/03/2010 07:00 / atualizado em 18/03/2010 08:38

Fã. A palavra miúda — cobiçadíssima por aspirantes a superstars — ainda soa como um ruído desconfortável para o Superguidis. “Não gosto, acho pretensiosa. Há pessoas que curtem a nossa banda. Mas fãs? É forte”, afirma o vocalista e guitarrista Andrio Maquenzi, 26 anos. Não se trata de mera questão de semântica. Nem de falsa modéstia. Com naturalidade, o quarteto gaúcho dilui a distância que costuma afastar os ídolos dos mortais. “Somos jovens suburbanos que ralam. Pegamos trem lotado para ir à faculdade e ao trabalho. Acho que por isso as pessoas acabam se identificando”, arrisca.

SUPERGUIDIS Terceiro disco da banda gaúcha Superguidis. 11 faixas, com produção de Philippe Seabra. Lançamento: Senhor F Discos/Monstro Discos. Preço médio: R$ 25. ***(foto: Senhor F Discos/Divulgação)
SUPERGUIDIS Terceiro disco da banda gaúcha Superguidis. 11 faixas, com produção de Philippe Seabra. Lançamento: Senhor F Discos/Monstro Discos. Preço médio: R$ 25. *** (foto: Senhor F Discos/Divulgação)
Esse papo franco, sem sinais de pedantismo, explica por que o “círculo de amigos” não para de crescer. Quando o novo álbum da banda vazou na internet, há uma semana, o Superguidis entrou na lista dos assuntos mais concorridos do Twitter (os chamados “trending topics”). De imediato, a torcida espalhou a bolachinha virtual em blogs, que retribuíram com resenhas entusiasmadas. Esse traquejo para comunicar-se de igual para igual com o público — como num chat, ou numa mesa de bar — colabora para um status inquestionável: no circuito independente, eles já são grandes.

O terceiro disco, apelidado simplesmente de Superguidis, comprova essa posição de destaque na cena. Lançado por dois dos selos brasileiros mais representativos — a Monstro Discos, de Goiânia, e a Senhor F Discos, de Brasília —, o projeto não esconde certa ambição. Produzido no Lago Norte por Philippe Seabra (da Plebe Rude) e mixado nos Estados Unidos, envolve a “guiterreira” indie, herdada do rock alternativo dos anos 1990, em arranjos de cordas e versos mais introspectivos. Por mais que a banda tente reduzir as expectativas, o momento é de transição.

Quem os acompanha deve se preparar para mudanças, ainda que sutis. “O disco ficou um pouco diferente do outro, mas foi sem querer. Nos permitimos ser um pouco mais ‘over’, mas nem tanto. Não tem nenhuma filarmônica”, adianta Andrio.

As transformações começaram a aparecer quando o guitarrista Lucas Pocamacha (que escreveu cinco entre as 11 faixas do disco) propôs o uso de um software simulador de cordas, que inspirou a melancolia de Roger Waters, a canção de abertura. “Tentamos sair do óbvio. Faz parte da nossa evolução como compositores”, admite Andrio.

Não é no campo melódico, no entanto, que eles seguem um rumo mais maduro. Sem fazer cenas, versos de canções como Não fosse o bom humor, De mudança e O usual tratam das inseguranças típicas do fim da adolescência. “Escrevemos tudo de um jeito muito espontâneo. Entre um disco e outro, me desgarrei de casa, fui morar com a minha mulher. Chegou a hora de falar sobre essa fase”, explica Andrio. “Houve uma mudança, sim. O que acontece é que todo mundo faz aniversário, né? Todo mundo envelhece. Não me vejo mais fazendo letras meio bobas”, confessa.

Férias
Na labuta por uma sonoridade “gordona, com guitarras sujas e altas”, o Superguidis (formado ainda pelo baixista Diogo Macueidi e pelo baterista Marco Pecker) frequentou por 20 dias o estúdio de Seabra, onde gravaram o álbum anterior. Aproveitaram as férias para fazer a longa viagem de Porto Alegre (e Guaíba, onde parte da banda mora) à capital. “Tratamos Brasília como um segundo lar. É um pouco chato ficar longe da família, mas o clima de isolamento ajuda na hora de gravar”, conta Andrio. “O legal da cena independente é essa descentralização. Vamos fazer show em Rondônia, por exemplo. E nunca estivemos lá”, observa. Seabra turbina a banda: “Tem um amadurecimento nas letras do disco. O Andrio está escrevendo sobre temas como relação a dois, por exemplo. Meu trabalho foi simplesmente dar o maior punch possível a isso. Como o show da banda é muito forte, a ideia foi manter a sonoridade crua e o mais fiel possível”.

Se esse rock ainda soa simples como “um par de tênis furado” (como resume a letra de Aos meus amigos), esbarra no muro alto que separa os independentes das rádios. “O problema são as limitações desse nosso mainstream, que é um pé no saco. O que tentamos é transitar nesses meios sem precisar cortar o cabelo feito emo”, sintetiza Andrio. A ideia de abreviar essa trajetória, aliás, está fora do baralho. “Me vejo seguindo esse caminho por pelo menos mais uns 10 anos. Isso é o que mais gostamos de fazer na vida. Não tem por que largar”, diz. E que o fã-clube (ops!) durma tranquilo.

Crítica ***
Sinceridade a toda prova


Quando o Superguidis resolveu fechar o sorriso e falar sério (no corajoso A amarga sinfonia do superstar, de 2007), houve quem sentisse falta do espírito bem-humorado do álbum de estreia. O que era jovialidade virou aflição. Mas, em vez de tomar o caminho de volta, a banda preferiu olhar para a frente. Isto é: sem trair a própria trajetória (ou engabelar os fãs), eles gravaram mais um disco que se deixa moldar por experiências pessoais. E que, nos melhores momentos, soa como páginas aflitas de diário.

Sinceridade não falta às crônicas de um quarteto que, talvez inspirado pelas confissões brutas de um Kurt Cobain, Dinosaur Jr, Pavement e Foo Fighters são outras referências deste indie rock traduzido para o português), grita as incertezas da “adultescência”. “De repente o medo de morrer sozinho me incomoda mais que o usual”, admitem, em O usual (de Lucas Pocamacha). E fazem alguma graça do desespero em Não fosse o bom humor, de Andrio Maquenzi (“Um psiquiatra cairia bem, não fosse o bom humor”).

É uma pena que essa angústia não tenha afetado as melodias, ainda estagnadas numa fórmula de guitar rock sem muitas surpresas. Mas o Superguidis compensa essa limitação com o pulso de um discurso honesto, espelho imperfeito do cotidiano. E esse é um trunfo que, no indie nacional, quase ninguém tem. (TF)

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