Chacoalhando geral (de boné branco, com três dançarinos, em ode setentista, e efeito de lantejoulas
nas vestes), o seu Francisco, motorista da UnB, foi quem, sob o codinome Queen, abriu o Show Nota
10, domingo à noite, no Riacho Fundo I. ;O The Funk Brothers é isso: viemos de Ceilândia, do Riacho
Fundo e da Candangolândia para mostrar a cultura funk que a gente nunca esquece;, disse o dublador,
entre outros, de James Brown. O grupo, formado em 1983, foi apenas o aperitivo para a apresentação
da Banda Olodum, que entrou três horas depois do previsto no evento duplamente beneficente: a)
exaltando os feitos de jovens artistas que despontam numa obra de reintegração social; b) os shows,
como anunciado no palco, eram ;0800, pra comunidade.; Três mil pessoas, algumas munidas de dois
quilos de donativos, atenderam ao chamado para as atividades próximas ao Terminal Rodoviário.
Frutos, como a doação de R$ 40 mil (saídos do cachê do Olodum), foram colhidos, a partir da
iniciativa da cineasta e agitadora cultural Núbia Santana. Depois de passar fome no ;sertãozão;
pernambucano, ainda na infância de carvoeira, ela abraçou o compromisso de, independentemente do
governo, impulsionar o projeto. ;Quando fiz o documentário Pra ficar de boa, mostrei um menor que
admite um homicídio, depois da troca de uma bicicleta por um videogame, em seguida trocado por uma
arma. Indo atrás dele, ouvi de um amigo que, se não ajudasse ele a arrumar um trampo, ele voltaria
pro crime. Nosso projeto, com transformação pela arte, parece utópico, mas tá dando certo;, comenta
Núbia.
Oportunidade tem sido a palavra-chave para 15 jovens, entre eles, o estudante Esron Lamounier, 21
anos. ;Poucas pessoas fazem por nós algo diferente do que a sociedade, que só faz ignorar. Agora,
minha perspectiva é de crescer na vida e ser normal, como cidadão;, disse Esron, depois de duas
passagens pela Papuda. ;Ocupamos a cabeça desses adolescentes que estão se garantido e procurando um
espaço;, comentou o contramestre Molejo, discípulo do Mestre Cobra, à frente do Centro Cultural e
Social Grito de Liberdade, com aulas de capoeira em 22 cidades dos arredores do DF.
Orgulho negro
Outras atrações do show Nota 10 foram a dupla Jhonny e Rahony, o Boi do Mestre Teodoro e
Mambembricantes, com celebração de festejos populares. Posto para escanteio, pela entrada dos 19
músicos do Olodum e pelo adiantado da hora, o grupo A muringa (do Gama) reclamou da organização.
;Minha única tristeza é a falta de respeito com o artista;, disse o vocalista Antenor Paraíso.
Entre os ;negões que choraram, emocionados; com uma sessão de Pra ficar de boa, testemunhada pela
diretora Núbia Santana, o vocalista do Olodum Lucas di Fiori, nos bastidores do show, lembrou da
integração dele ao grupo, aos 9 anos de idade. ;O Olodum me deu a possibilidade de conhecer países,
músicas e culturas. Quero repassar essa oportunidade a outras pessoas. O ideal do Olodum é de
igualdade, já que o povo negro é um povo sofredor;, comentou. Morador do Plano Piloto, o produtor
cultural Moredison Cordeiro, um carioca há cinco meses morador da capital, engrossou a plateia,
entusiasmado pela ;demonstração de validação da arte negra em Brasília;.
Com a intenção de ampliar o projeto de Núbia Santana para Salvador, onde 300 crianças já são
atendidas pela Escola Olodum (no Pelourinho), outros vocalistas do Olodum se manifestaram. ;Em
Salvador, mesmo com uma população de 80% de afrodescendentes, ainda existe muito preconceito. O
Olodum cria uma espécie de força e de estímulo, sem nunca repassar qualquer mensagem negativa;,
disse Nadjane Souza. Mateus Vidal, em repertório que trouxe as antigas Alegria geral, Requebra e
Avisa lá, garantiu a inclusão da nova canção Guia Olodum ;que reforça aspectos sociais a favor da
igualdade;.
Ouça trechos das entrevistas com os vocalistas
da Banda Olodum, Lucas di Fiori, Nadjane Souza e Mateus Vidal