Publicidade

Correio Braziliense

Músicas transformam-se em contos


postado em 27/03/2010 11:03 / atualizado em 27/03/2010 11:08

O escritor Henrique Rodrigues ouve Legião Urbana desde criança. Milhares de vezes, enquanto caminhava ou dirigia para o trabalho ouvindo as músicas da banda, sentiu vontade de escrever contos inspirados nas letras das canções. Um dia comentou a ideia com um amigo e, em resposta, ouviu um “eu também”. Os dois escolheram suas música preferidas e produziram os primeiros contos. E contaram a outros amigos que responderam com mais textos.

De conto em conto, Rodrigues juntou uma coleção. Precisou estancar a onda porque não parava de receber sugestões. Quando viu que dava um livro, já tinha nas mãos 20 textos inspirados nas canções da Legião. “Tudo sem pretensão nenhuma, todo mundo foi se entusiasmando e tinha um grupo grande quando pensei ‘isso vai dar rock’. Comentei com a Record e, por sorte, o Sérgio França (coordenador editorial da Record) era fã da Legião. Minha ideia inicial era uns 12 autores e o livro ficou com 20. Até hoje um monte de gente me aborda”, destaca. Poeta e autor de livros infanto-juvenis, Rodrigues conta que já foi até cobrado de fazer projeto semelhante com as canções de Cazuza para lembrar os 20 anos da morte do cantor. “De repente se colar, a gente pode até pensar.”

Como se não houvesse amanhã será lançado na próxima semana em São Paulo e tem tudo para “colar”. A receita é mesmo ler e ouvir ao mesmo tempo, como sugere o organizador do livro na introdução. Há um ajuste bizarro entre as músicas e os textos. Como se tivessem sido escritos milimetricamente encaixados nas canções. Todos os 20 contos levam no título o nome da música escolhida pelo autor. No índice, Rodrigues separou tudo por disco. Há textos inspirados nas letras de Legião urbana, Dois, Que país é este , As quatro estações, V, Descobrimento do Brasil, Tempestade ou O livro dos dias e Uma outra estação. Alguns contos, caso de Ainda é cedo, de Nereu Afonso, não chegam a citar diretamente a música, mas utilizam frases e versos escritos por Renato Russo. Outros são a própria história contada na letra e esses são os textos mais comoventes do conjunto.

A liberdade foi um ponto de partida estabelecido por Rodrigues, mas a força narrativa das letras da Legião muitas vezes se impõem. Ouvir as canções e ler ao mesmo tempo leva o leitor a esbarrar, dezenas de vezes, nas palavras cantadas por Russo. Na versão de Rosana Caiado Ferreira, Eduardo e Mônica não estão se encontrando e sim se separando. “E o mundo provou que não para só porque Eduardo e Mônica estão se divorciando”, escreve a autora. E no Tempo perdido de Tatiana Salem Levy o vácuo entre passado e presente reúne Lúcia e André, militantes na luta contra a ditadura. Ela sobrevivente, ele desaparecido. A partir da letra da música Tatiana traça o destino de seus personagens.

Sucesso
O curto e sincero conto de João Anzanello Carrascoza faz a vida de um homem passar da infância à idade adulta em uma leitura tão rápida quanto o tempo de escuta de Pais e filhos. No Faroeste do caboclo imaginado por Carlos Fialho, o Santo Cristo veio do interior do Rio Grande do Norte, vendeu-se para um velho colunista social em troca de um curso superior e fez sucesso como advogado no Distrito Federal antes de perder Maria Lúcia e acionar a Winchester 22. Escrito em parceria com Emílio França, o conto é recheado de frases extraídas de poemas de Nicolas Behr. “As letras do Renato Russo são muito densas, são líricas ao mesmo tempo que evocam narrativas. São letras que suscitam nosso imaginário e fazem parte da nossa vida”, diz Henrique Rodrigues. É no último texto que o autor das letras se faz presente com maior intensidade. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2007 com o livro Beijando dentes, Maurício de Almeida escolheu Sagrado coração para narrar os últimos momentos de vida de um pai assistido pelo filho. Renato Russo nunca conseguiu terminar Sagrado coração. Fez apenas a letra e, já muito doente, não teve voz para gravar. “Busquei trabalhar o momento final da vida de uma pessoa que, de alguma maneira, gostaria de acreditar num outro desfecho, mas está simplesmente diante da morte”, diz Almeida, que tem 28 anos e não chegou a acompanhar a banda desde o início.

Eduardo e Mônica
Com verve poética das mais sofisticadas, Renato Russo foi autor de versos como: “De você fiz o desenho mais perfeito que se fez/Os traços copiei do que não aconteceu/As cores que escolhi entre as tintas que inventei/Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos/(…)Da sua cama arranquei pedaços/Que talhei em estiletes de tamanhos diferentes/ diferentes/E fiz, então, pincéis com seus cabelos/Fiz carvão do batom que roubei de você/E com ele marquei dois pontos de fuga”. Daí, mais do que normal o fato do cantor e compositor ser homenageado pelas mãos de um artista plástico, o paraibano Adeilton Oliveira, que inaugura hoje, no Terraço Shopping, a exposição Eduardo e Mônica. “A banda estava no auge justamente na minha adolescência, não tinha festinha que não tocasse um disco dos Titãs ou da Legião”, recorda o artista plástico, que reproduziu em 40 miniaturas feitos de palitos e caixas de fósforos, os 78 versos da canção sobre a menina “com tinta no cabelo” e o “boyzinho que tentava impressionar”. “Gosto das histórias que ele contou, na verdade o Renato era um contador de história. É o que eu digo sobre mim também, sou artista plástico mas não gosto de fazer a obra ao acaso, gosto que tenha mais ou menos uma história para poder contar nas minhas exposições”, compara Adeilton, desde 1978 radicado em Planaltina. (Lúcio Flávio)

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade