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Correio Braziliense

A mágica que Honorita faz

Ela é um cineclube de uma pessoa só: faz sessões de cinema em escolas, creches, asilos e depois debate com a plateia sobre o que foi assistido


postado em 13/05/2010 07:00

» Gabriela de Almeida

Honorita Barbosa sempre gostou de ler. Quando pequena, lia tudo que via pela frente. A menina nascida em Biquinhas, interior de Minas Gerais, buscava nas palavras a diversão, o prazer e a cultura que infelizmente a cidade não podia proporcionar. Aos 18 anos, Honorita decidiu conhecer a nova capital. Ao chegar a Brasília, a cidade borbulhava. Era a década de 1960 quando Honorita teve uma das experiências mais marcantes de toda a vida: conheceu um cinema pela primeira vez. As imagens em uma tela gigante pareciam fantasia. O sonho emitido pela projeção fez nascer naquele momento uma paixão pelo cinema que superou o amor às palavras.

Honorita, entre os alunos do Centro de Ensino Fundamental de Ceilândia Norte:
Honorita, entre os alunos do Centro de Ensino Fundamental de Ceilândia Norte: "O filme que a entidade quiser eu vou atrás, procuro, alugo, peço emprestado%u2026" (foto: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press)
Honorita, hoje com 60 anos, chefia o Núcleo de Cultura da Administração de Ceilândia e criou em março de 2009 o projeto Cinema vai à escola, em parceria com a Mostra de Cinema Brasil Candango, presidida por Atanagildo Brandolt. O projeto proporciona para as escolas públicas, asilos, creches e entidades sociais, a oportunidade de ver filmes nesses diversos locais. “Crio um ambiente que se assemelha a um cinema normal. A tela é grande e sala fica escura para que todos possam saber como é um cinema de verdade, já que muitos deles nunca foram a um cinema.” As sessões são feitas da seguinte forma: a direção da entidade liga para a coordenadora do projeto, ela vai até a escola e apresenta um catálogo com centenas de opções. O diretor escolhe e ela vai atrás da obra para a exibição. “O filme que a entidade quiser eu vou atrás, procuro, alugo, peço emprestado ou faço o que for preciso para conseguir. O importante é apresentar a obra para a escola.”

Para as crianças, filmes infantis com temáticas que exploram a ética são os favoritos. “Fazem a criançada pensar”, observa Honorita. Na noite da última terça-feira, a Escola Classe 53, da Expansão do Setor O, exibiu pela primeira vez um filme do projeto. O longa escolhido foi À procura da felicidade, de Gabriele Muccino. De acordo com a vice-diretora da escola, Michelline Araújo, o filme aumenta a autoestima dos jovens. “Os alunos da parte da noite são adultos que geralmente já têm filhos, lutam bastante e muitos acham que a vida não tem mais sentido. Apresentar uma obra dessa para eles, com um ensinamento que ajuda a ir em busca dos sonhos, faz muito bem para eles.” Os filmes podem ser escolhidos por temas como educação, saúde, ética, documentários, infantis, entre outros.

Nos asilos, os filmes exibidos geralmente são as obras de Mazzaropi, que, segundo Honorita, fazem os idosos sorrirem o tempo todo. No aniversário de um ano do projeto, foram contabilizadas 87 sessões, sendo que foram exibidos 65 filmes para mais de 13 mil pessoas. “Desde a estreia do projeto tive muitos momentos emocionantes, mas o que mais me marcou foi em uma sessão que duas crianças ficaram paradas, olhando para a tela, sem acreditar no que viam. Ao final do filme, as crianças se aproximaram e tentaram tocar a imagem. Como não conseguiram, elas ficaram se perguntando de onde saíam as imagens. Uma delas disse: ‘Não seja boba, a parede é mágica’. Aquilo me fez lembrar da primeira vez que fui ao cinema. É realmente mágico.”

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