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Correio Braziliense

Bibliotecas em segundo plano

Administrações regionais investem pouco na manutenção desses prédios públicos, que não têm orçamento próprio


postado em 18/05/2010 07:00 / atualizado em 18/05/2010 12:58

Numa tarde de sexta-feira, a estudante da 6ª série Marília de Assis Santos ocupava um dos assentos da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, localizada na entrequadra 215/315, em Santa Maria, para a execução de um trabalho escolar. A seu lado, posicionado num carrinho de bebê repousava seu filho de três meses, Pedro. Os demais usuários nem se importavam com o barulho feito pela criança. “É a segunda vez que venho aqui e não tinha com quem deixá-lo. Daí, resolvi trazê-lo”, comenta a garota sobre a presença do filho num espaço em que o silêncio deve ser mantido.

Um dia antes, do outro lado da cidade, instalada na Biblioteca Braile Dorina Nowill em um dos prédios da Escola Industrial de Taguatinga (EIT), a bibliotecária Neuma Santos, portadora de deficiência visual, funcionária da biblioteca desde sua fundação, em 1995, interrompia o jogo de dominó para receber a reportagem do Correio. Simpática, Neuma repete como num mantra: “Quer ser feliz? Vem para cá!”, sobre o espaço que além de leitura permite a integração dos portadores de necessidades especiais com atividades sociais.

Marília e Neuma são unidas pelo fato de frequentarem bibliotecas. Mesmo que por razões completamente diferentes. Os espaços onde as duas foram encontradas também têm algo em comum. Tanto a Dorina Nowill quanto a Monteiro Lobato são bons exemplos de bibliotecas públicas do Distrito Federal. Espaçosas, arejadas, bem iluminadas, acessíveis e organizadas, são espaços ideais para a prática da leitura e pesquisa. Segundo os funcionários, as boas condições de ambas advêm de o fato dos espaços terem sido reformados recentemente.

Mas o mesmo não acontece na Candangolândia. A única biblioteca pública da cidade fica na Avenida dos Transportes, a principal da cidade. O espaço exíguo mal comporta a quantidade de livros e mobiliário. A conservação do prédio é precária. Faltam lâmpadas para a iluminação adequada, os pisos estão trincados e as paredes cobertas de mofo começam a contaminar o acervo. Vários livros já estão perdidos. O lugar guarda seus segredos. No subsolo, uma sala outrora destinada a ser o cofre do primeiro banco da capital de Brasília não pode ser utilizada nem como depósito por causa do excesso de umidade. “Não existe previsão de reforma aqui porque o prédio é tombado”, explica a bibliotecária Juliana Martins. “Existe um projeto de construção de uma outra biblioteca, mas nada saiu do papel”, completa.

A gerente de Bibliotecas Públicas do Distrito Federal, Marmenha Rosário, observa que até hoje no DF, a maioria dos espaços destinados a abrigar bibliotecas foram, na verdade, adaptados para esse fim. “É o caso da Biblioteca Pública de Brasília (512/13 Sul), que funciona em um antigo prédio da Sociedade de Abastecimento de Brasília (SAB). O governo veio finalmente a construir prédios pensados para serem bibliotecas há apenas uns dois anos”, analisa a gerente.

O DF é o único território dentro da região Centro-Oeste em que todas as cidades contam com esse tipo de espaço, segundo dados do 1º Censo Nacional de Bibliotecas Públicas Municipais, divulgado pelo Ministério da Cultura (Minc). Ainda é muito pouco. Segundo pesquisa conduzida pela Fundação Getulio Vargas (FGV), no Distrito Federal, existe 0,76% de bibliotecas para cada 100 mil habitantes. O índice é o penúltimo do país, ficando na frente apenas do Amazonas.

Morador de Águas Claras, o concurseiro Luiz Fernando Pinheiro, 21 anos, tem de se deslocar até a Biblioteca Machado de Assis, localizada nas dependências da Escola Industrial de Taguatinga (EIT), para encontrar melhores condições de estudo. “A Administração de Águas Claras transformou um ex-estande de vendas de apartamentos em biblioteca, mas o espaço é pequeno e ruim. Lá, tem tantos terrenos vazios. Por que não construir uma biblioteca logo?”, pergunta-se o estudante.

Ele e as amigas Ingrid de Castro, 18 anos, estudante, e Lidiane Carvalho, 20, também estudante, costumam dividir uma mesa de estudos na Machado de Assis pelo menos duas vezes por semana. Apesar de reconhecerem na biblioteca, uma das maiores do DF (com acervo de 30 mil títulos), o melhor espaço para estudos da região, os estudantes reclamam do conforto dentro das dependências. “Tem dias que o calor é muito forte. Aí, é ruim para estudar”, reclama Lidiane.

“Nós registramos cerca de 500 usuários por dia. Nosso perfil é muito amplo. Atendemos desde vestibulandos, concursandos, comunidade escolar até externa”, enumera a diretora da Machado de Assis, Jaciara Cavalcante. A dirigente tenta tocar projetos que incentivem a população a procurar a biblioteca para lazer, mas esbarra em um problema administrativo maior, pai de todos os outros problemas e uma complicação cotidiana. “As bibliotecas do Distrito Federal existem de fato, mas não de direito. Com exceção da biblioteca da Ceilândia, nenhuma outra faz parte do organograma das administrações regionais. Isto significa que elas não contam com orçamento e quadro de funcionários fixos. Não há também como comprar livros, a maioria vem de doação”, aponta a gerente geral de Bibliotecas Públicas, Marmenha Rosário. Mesmo assim, o acervo do Distrito Federal é o segundo maior do país, perdendo apenas para o estado de São Paulo.

Segundo o censo, o Distrito Federal é a unidade federativa com mais estabelecimentos no país que dão acesso à internet a usuários externos, cerca de 80%. Porém, desde novembro passado, algumas unidades do DF tiveram de suspender o serviço. É o caso da Biblioteca Monteiro Lobato (em Santa Maria) e a da Biblioteca Pública da Candangolândia. “Desde que estourou a crise no GDF, o convênio com a empresa foi cortado. No final de março, apresentamos uma proposta para obter internet e maior apoio do governo federal. Por meio de edital, nossa proposta foi selecionada e agora só dependemos da inspeção técnica para resolver o problema”, explicou Marmenha.

Áudio - Bibliotecas em crise
Ouça entrevista com a gerente de Bibliotecas Públicas do DF, Marmenha Rosário

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